Na entrevista à Agência ECCLESIA e à Renascença desta semana, falamos com Maria Calado, presidente da Direção do Centro Nacional de Cultura, associação com 1300 sócios que vai a caminho dos 75 anos de existência. Na proximidade do 13 de outubro, Dia Nacional do Peregrino e da última peregrinação internacional aniversária deste ano, na Cova da Iria, falamos dos ‘Caminhos de Fátima’, roteiros recentemente públicos.

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Agência ECCLESIA)

Foto: Manuel Costa (ECCLESIA)

Começamos a nossa conversa pelos novos roteiros dos ‘Caminhos de Fátima’. Estava na altura de atualizar a informação disponível sobre estes itinerários usados pelos peregrinos?

Sim, estava na altura de o fazer. Nós começamos este projeto em 1996, lançado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles e a então presidente Helena Vaz da Silva, procurando constituir itinerários que levassem a Fátima através de percursos de natureza, de cultura, como deve ser um verdadeiro itinerário cultural e espiritual. Produzimos um primeiro guiar, sobre o Caminho do Tejo, e estava, de facto, na altura de atualizar, até porque o projeto se foi desenvolvendo muitíssimo. Neste momento temos já vários caminhos identificados e aprovados.

 

Que itinerários são estes?

Estes três caminhos são o Caminho do Tejo, que vai de Lisboa para Fátima; Caminho da Nazaré, que une dois grandes santuários marianos, Nazaré e Fátima; e o Caminho do Norte, que percorre todo o território desde o Rio Minho, desde Valença até Fátima. Temos mais alguns caminhos já a ser tratados e utilizados, como o Caminho do Mar, que vai de Cascais…

Mas estes três foram agora tratados, do ponto de vista dos conteúdos, de roteiros temáticos, jornadas temáticas, informações. Há também um site, para além destas edições, http://www.caminhosdefatima.org/, onde está toda esta informação, desenvolvida, mais estruturada e com mapas georreferenciados.

 

E que pode ser consultado.

Pode ser consultado não apenas nos três idiomas dos roteiros – português, inglês e espanhol – mas também em francês; dentro de dias, será possível também em alemão e italiano.

 

Nestes Roteiros há um cruzamento entre os caminhos de Fátima e os de Santiago, sobretudo no ‘Caminho do Norte’. De que forma é que estas duas realidades se podem potenciar?

É verdade. Nós aprendemos muito com os caminhos de Santiago, até porque o Centro Nacional de Cultura foi, logo no início, era membro do Comité Científico. Conseguimos aprender com aquele desenvolvimento do Caminho, na sua fase moderna, porque sempre foi um caminho histórico.

O Caminho de Santiago tem regras, de percurso, que nós não temos, porque Fátima começa com o automóvel e, portanto, o nosso dever é tentar afastar o mais possível das grandes vias de circulação e criar itinerários alternativos.

 

No meio da natureza, sobretudo?

No meio da natureza, das pequenas aldeias, conhecendo o país, a realidade, tendo de facto um ambiente para peregrinar, que é uma relação consigo próprio, com o mundo que o rodeia, e isso tem de ser com condições que nós criamos. O Caminho de Santiago tem essas caraterísticas e, sempre que podemos, nós fazemos coincidir os itinerários: no caso do Caminho do Norte, bastante; uma parte do Caminho do Tejo, também; e será assim em grande parte dos Caminhos do Sul, que vierem a ser identificados, já aproveitando essa experiência.

Há muitos peregrinos estrangeiros que nos contactam. Nós fomos agora para o italiano, por exemplo, porque – para além do inglês, que é uma língua universal, e do espanhol, que é uma língua vizinha e tem essa relação com estes itinerários que se aproximam – percebemos que há muitos italianos, que estão habituados a fazer o Caminho de Santiago e outras vias, antigos caminhos, como a Via Francígena, que atravessa toda a Itália e vem das ilhas britânicas, com ramificações em vários contextos; há também uma Via Franciscana, há muito essa tradição e, portanto, há um interesse enorme em fazer este percurso.

 

Há um interesse crescente, por parte de estrangeiros?

Estrangeiros, peregrinos, que querem fazer o caminho a pé. Isso é muito interessante: querem fazê-lo todo ou uma parte. Com esta informação, podem fazer as suas escolhas: se não conseguirem fazer as 17 jornadas do Caminho do Norte, podem fazer 5 ou 6… Há experiências muito interessante que nos chegam, era uma resposta que fazia falta.

 

Quem fizer os Caminhos, seguindo os Roteiros, fica a conhecer muito da história do país?

É, praticamente. Por exemplo, o Caminho do Norte é uma grande parte que se fica a conhecer do território português e da História, porque os caminhos, em si mesmos, são temáticos. Nós procuramos concebê-los como verdadeiros itinerários culturais: têm um conceito, têm um tema; depois têm jornadas – que são os quilómetros aconselháveis, para percorrer um dia, de acordo com as condições de altitude, de dificuldade, etc. -, com um tema. Isso leva a conhecer a própria realidade do país, não são apenas orientações práticas.

O Caminho do Tejo chama-se assim porque começa no Tejo, sem dúvida, mas todo ele, até Fátima, está relacionado com esta grande via de comunicação, que faz parte da memória, da geografia e da história do país; de Santarém até à Serra d’Aire é exatamente o percurso que fazia a ligação, desde épocas ancestrais, entre o Tejo e o Litoral, há aí essa relação.

O Caminho da Nazaré também não nos pareceu que pudesse ter outro título, porque a Nazaré era o grande santuário mariano da zona centro de Portugal, antes de Fátima, e tem a particularidade de ser um finisterra, de ser antigo, e também de fazer um percurso por algumas outras igrejas e santuários marianos.

Cada um destes dias de caminhada também tem um tema, tem uma referência orientadora. No Tejo, o primeiro é o estuário; no segundo dia, esteiros e valadas, portanto, o percurso em que se vão conhecendo os esteiros; depois no coração da Lezíria; no interior, é à sombra das oliveiras, começa a paisagem a mudar, antes de entrar nas serras, sobretudo na Serra d’Aire, onde se enquadra Fátima.

Na Nazaré, passa-se pelos antigos coutos de Alcobaça, as antigas terras de Cister, e a passagem também para a Serra d’Aire, que é aqui marcante.

O do Norte, que são 17 jornadas, tem temas relacionados com a história, com o território, com a memória, por terras do Alto Minho, para começar. São vários títulos que correspondem à identidade daquele troço, que se percorre e que se aconselha a conhecer.

Começamos, sempre que possível, junto de um lugar emblemático, e terminamos num espaço importante, próximo de uma igreja, porque sendo um itinerário cultural e religioso, valorizamos essa coincidência. Não é só para ir a um sítio, agradável e funcional, tem de ser também próximo daquilo que o peregrino faz no seu percurso ou que o turista quer conhecer.

 

A dimensão religiosa é muito valorizada neste trabalho, naturalmente.

É muito valorizada.

 

Este projeto foi apoiado pelo Turismo de Portugal e pelo Santuário de Fátima… Já tiveram reações aos novos roteiros?

Já. O Santuário é um parceiro de sempre e o Turismo de Portugal também, numa relação que se foi intensificando. Fizemos uma candidatura a um dos programas que existem e, dentro dessa candidatura aprovada, desenvolvemos este projeto, que se traduz não apenas nestes pequenos livros, que nos acompanham em viagem, mas também em sites, incluindo o “Caminhos da Fé”, do Turismo de Portugal, com uma dimensão mais abrangente.

Temos tido um bom feedback, chegam vários pedidos de informação, os roteiros estão a ser distribuídos amplamente.

 

Para quem estiver interessado, onde é que os Roteiros podem ser adquiridos?

Fizemos uma ampla distribuição através das autoridades regionais de Turismo (Centro, Norte, Lisboa e Vale do Tejo). Quem, individualmente, nos pedir, encontra no Centro Nacional de Cultura e, se nos contactar, encontramos maneira de enviar, já temos enviado vários. Podem também ter essas informações todas no site (caminhosdefatima.org). O que é interessante é que o site também permite ter acesso ao conteúdo pleno a cada um destes roteiros, através de PDF, podem folhear, abrir, utilizar toda a informação.

Eles têm tido uma saída enorme e estamos quase a chegar ao fim da edição. Veremos, depois, o que vamos fazer.

 

Há uma ligação forte da associação a Fátima, já que a ideia de criação do Centro Nacional de Cultura nasceu na sequência de uma peregrinação ao Santuário, a 13 de maio de 45, tinha a II Guerra Mundial acabado poucos dias. Nessa altura sentiu-se a necessidade de criar um espaço de reflexão, como um “clube de intelectuais” para o debate de ideias. Nos dias de hoje, continua a cumprir esse objetivo de promover a reflexão e o debate?

Eu penso que sim, continua, é um espaço de reflexão, de debate, de encontro. Claro que se foi reformulando e ampliando na sua missão, sempre mantendo a coerência. No início, havia o objetivo de fazer a ligação internacional, era essa a aspiração, com uma ligação permanente aos intelectuais europeus – na altura, sobretudo, aos intelectuais da cultura francesa; isso não foi tão rápido como se desejava, mas foi muito importante.

Depois houve aquele grande ciclo dos anos 60, com a presidência de Sophia de Mello Breyner, de Francisco Sousa Tavares, de António Alçada Baptista. É o período dos católicos progressistas, com a importância que tem a Cultura, com uma verdadeira dimensão internacional. Recebeu, por exemplo, a Sociedade Portuguesa de Escritores, quando ela é extinta: é muito a nossa missão, acolher, desenvolver projetos – que hoje nos parecem tão inocentes, mas que na altura não foram nada fáceis de desenvolver.

Há também essa relação com a revista ‘O Tempo e o Modo’, de António Alçada Baptista, que foi tão importante, e no local onde foi a Editora Moraes temos hoje o nosso café, no Chiado. Procuramos assumir essas memórias.

A partir do 25 de abril de 74, naturalmente, a dimensão política imediata era a menos importante. Viramo-nos para esta nova dimensão de comunicação da Cultura, os itinerários culturais, as parcerias internacionais. Temos um conjunto de vários projetos.

 

A defesa do património cultural português, a divulgação do papel da cultura portuguesa no mundo, e a relação com outras culturas, são objetivos do CNC, que tem feito isso através de exposições, de publicações, de cursos de formação, de viagens de estudo de âmbito cultural e de colóquios… quais são as iniciativas que atraem mais público?

As iniciativas com sócios são muito específicas e têm sempre um interesse enorme: são os passeios regulares, a que nós chamamos ‘Passeios de domingo’, inspirados num livro de José Régio, mas que são durante a semana, ao sábado, ao domingo. Temos uma grande viagem anual, dos “Portugueses ao encontro da sua história”, sempre a um lugar no mundo onde a cultura portuguesa esteve e está presente: não é apenas ver o passado, é ir ao encontro das nossas memórias, ir ao encontro da cultura dos outros, no passado e no presente.

Todos os anos organizamos um grande encontro de escritores americanos com escritores portugueses, o ‘Disquiet’, um título inspirado no Fernando Pessoa, com uma organização americano. Este ano foram 110 escritores, durante uma semana, que trabalharam de manhã nos seus temas e à tarde tiveram workshops com escritores portugueses.

Temos o Prémio Helena Vaz da Silva, que é um prémio de comunicação da cultura e do património, que este ano é atribuído diretamente a Fabiola Gianotti, diretora do CERN, por um júri internacional. É a primeira vez que é entregue a uma mulher e a uma cientista.

Estamos também com a gestão do centenário da Sophia de Mello Breyner, que é uma figura muito cara; com a edição das obras do Eduardo Lourenço, de quem gerimos também o site oficial.

Temos vindo a fazer uma aposta muito grande nos processos de comunicação, sobre as novas formas e vias.

 

Estão bastante presentes na internet…

Exatamente. Temos o nosso site institucional, o E-cultura, com uma agenda; acabamos de abrir o E-Chiado, já com agenda, que terá também conteúdos fixos.

 

E mantém o Blogue, um espaço de discussão e informação cultural onde se podem ler críticas a exposições, filmes e espetáculos, com publicações diárias de vários autores…

Mantemos o blogue (Raiz e Utopia), que é muito importante, com vários temas, onde os teatros têm sempre uma importância grande.

 

Com uma publicação diária de vários autores, sobre espetáculos, livros…

São muito ativos no blogue, o doutor Duarte Ivo Cruz, o doutor Guilherme d’Oliveira Martins, membro da nossa Direção. Trabalhamos bastante com escolas, com municípios.

Temos desenvolvido a área da Cultura Solidária, que quer trabalhar com pessoas que têm alguma necessidade especial. A partir de uma certa fase, somos todos nós…

 

Atribuição de bolsas, também?

Bolsa Criar Lusofonia, Bolsa Jovens Criadores, sim.

 

Os ‘Passeios de domingo’ foram abertos à participação de jovens e adultos com deficiência visual e auditiva…

Os nossos passeios são abertos e isso é muito importante, porque é útil para todos. Nós aprendemos também a ver de outro modo, é muito interessante ir ver um monumento e estar a perceber qual é o tipo de pedra pelo toque; se a madeira é exótica, se veio do Brasil no século XVIII, ou se é madeira de cerejeira, nogueira, aqui do continente, porque tem uma temperatura diferente. Isso é extraordinário. Nós não temos só o olhar.

 

É uma partilha e uma aprendizagem para todos.

Temos de habituar-nos a conhecer o mundo e a interagir com os outros através dos vários sentidos.

 

O Centro Nacional de Cultura tem nesta altura dois cardeais como sócios – D. Manuel Clemente e D. José Tolentino Mendonça…

É uma honra para nós. Pessoalmente é uma honra, porque ainda por cima D. Manuel Clemente foi meu colega de curso, na Faculdade de Letras. É uma honra termos duas figuras de grande referência e que, de facto, têm uma importância na Igreja e na liderança mundial, pelo exemplo que representam, pela competência.

 

São sócios há muitos anos? São sócios ativos?

O D. José Tolentino é um sócio ativo, sempre, mesmo agora continuamos a pedir-lhe coisas, é extraordinária a sua capacidade, penso que é uma honra, porque ele verdadeiramente atua no campo da cultura e da criação artística, literária; D. Manuel Clemente agora pode menos, mas foi sócio ativo e sempre que é preciso estamos em contacto.

Penso que é um prestígio também para o Centro Nacional da Cultura, desculpem-me a imodéstia, mas é uma honra para nós.

 

Qualquer pessoa pode ser sócia do Centro Nacional de Cultura?

Qualquer pessoa pode ser sócia. Nós temos vários níveis de sócios, segundo os estatutos de 1952; temos uns períodos de inscrição, ao longo do ano, mas não somos sequer muito rígidos nisso. Há um conjunto mais reduzido de sócios efetivos, que são os que podem participar diretamente nos órgãos de gestão da instituição. Há os sócios honorários, que além de personalidades, são também entidades, como o Santuário de Fátima.

É o Santuário, em si mesmo, pela importância que tem na matriz da nossa cultura, porque é um espaço de arte.

 

E de arte ao ar livre?

É um museu de arte público. É extraordinário. No fim de cada roteiro há essa referência ao Santuário de Fátima como lugar de fé e espaço de arte.

É importante que a arte entre nas nossas vidas, sempre foi. Desde a construção do Santuário, houve sempre encomenda a artistas de qualidade, até à contemporaneidade: podemos ir fazer a Fátima um percurso de história de arte do século XX e XXI, em Portugal e não só, com grandes artistas de referência, como célebre presépio de José Aurélio, Siza Vieira, Clara Menéres que recentemente nos deixou, José Rodrigues, Leopoldo de Almeida, Eduardo Nery e tantos outros artistas em toda aquela diversidade, desde os vitrais às esculturas, passando pela pintura e os relevos. É, de facto, um espaço de arte, e é importante, porque a arte comunica-nos a beleza, às vezes de uma forma muito simples.

É importante que as pessoas que vão a Fátima se lembrem que estão num espaço de beleza e que podem conhecer ainda mais, e ir visitar.

 

O Centro Nacional de Cultura procura chegar aos jovens? Tem havido uma renovação de gerações?

Tem havido essa renovação: os jovens não pagam joia, por exemplo. Temos também alguns programas para avós e netos, mas há sobretudo uma camada mais jovem, de muitos técnicos, professores, pessoas de várias áreas profissionais, que têm vindo a mudar um bocadinho o perfil do sócio, o que é muito positivo, no Centro Nacional de Cultura, porque são novas sugestões, novos temas, novos interesses.

 

O Centro Nacional de Cultura vai fazer 75 anos em 2020. O que é que já se está a preparar em termos comemorativos?

Vai haver uma figura central, que é Gonçalo Ribeiro Telles, sócio logo dos primeiros corpos gerentes, podemos dizer fundador, atual presidente da mesa da Assembleia geral e um inspirador para todos nós como ativista cultural, em todos os sentidos. Haverá outros temas, como as mulheres do Centro Nacional de Cultura, porque elas tiveram uma importância muito grande, desde Sarah Afonso, Sophia de Mello Breyner, Helena Cidade Moura, Helena Vaz da Silva – e estou a falar só das que tiveram cargos diretivos.

Não vamos criar muitas coisas novas, mas vamos consolidar muitos destes projetos existentes e abri-los mais a novas dimensões: novos itinerários culturais, na área literária, por exemplo. O tema dos itinerários culturais é qualquer coisa que faz parte da nossa identidade, porque nós vamos sempre com um tema, quando vamos a um local, porque o mesmo local pode ser visto com diversos olhares e nunca fica esgotado. Vamos trabalhar bastante neste domínio dos itinerários.

Vamos trabalhar mais as nossas plataformas de comunicação, como o site dedicado a António Alçada Baptista, que vai ser desenvolvido.

Temos várias instituições sediadas no nosso espaço, o que é uma vocação, sempre foi, e há outras instituições com que trabalhamos, não só a nível de entidades e organismos públicos. Queremos continuar a batalhar pela cultura, porque a cultura e a arte são redentoras.

A cultura é uma dimensão humana, a par da ‘natura’, a nossa base… Se não somos homens e culturais, não somos homens e mulheres ativas. E a cultura, privilegiando a dimensão da memória histórica e da criação contemporânea: iremos editar obras, serigrafias ligadas aos roteiros de viagens. Não temos valorizado tanto a parte visual e este ano vamos editar algumas obras; geralmente são artistas plásticos, nossos sócios.

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