A fundadora da União das Mulheres Siríacas, Nazira Goreya, disse que a insegurança e o genocídio a acontecer na Síria, onde a “minoria cristã está à beira do extermínio”, tem consequências nas migrações e na Europa

“Nós precisamos da vossa ajuda e assistência para estabilizar a Síria para que o fluxo migratório pare e, quem sabe, quem emigrou possa regressar, para que o povo sírio possa regressar ao seu país em vez de ser refugiado na Europa”, afirmou Nazira Goreya numa entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e à Rádio Renascença.

 

Veio a Portugal e já se encontrou com alguns deputados, no parlamento, e com um responsável do ministério dos negócios estrangeiros. Como é que correram os encontros?

Já fomos recebidos noutros parlamentos de outros países, e também no Parlamento Europeu. Em Portugal quem já nos recebeu compreendeu a situação, sabe o que se passa na Síria, mas não foram dados passos concretos. Espero conseguir isso, no futuro. Mas foram contactos positivos, as pessoas querem ajudar de alguma maneira, e mantemos a fé na Europa e nos países europeus, para nos apoiarem.

 

O que é que esperam de Portugal, das autoridades portuguesas?

Nós somos, antes de mais, cristãos síriacos. Já fomos uma maioria na região, mas hoje somos uma pequena minoria, que está a enfrentar um genocídio. Não somos só nós, também outros, curdos, árabes, outras minorias que vivem na região têm enfrentado a mesma situação crítica. Obviamente que acreditamos na humanidade, nos valores humanos. Não acreditamos que o governo português e os partidos políticos, nem os outros países europeus, irão fechar os olhos e não perceber a dor e o sofrimento que estamos a viver como seres humanos na Síria, e confiamos que o vosso governo de alguma forma irá intervir para fazer parar o que está a acontecer na Síria.

Confio que nos próximos dias, nos encontros que ainda vou ter (noutros países) antes de regressar à Síria, mas também depois disso, serão tomadas decisões por parte da comunidade internacional, do Parlamento Europeu e dos parlamentos nacionais de vários países, para parar a invasão turca da Síria, que irão impedir o presidente turco Erdogan de continuar a fazer o que está a fazer, com os grupos jihadistas, contra as minorias e o povo da Síria.

 

Mas, como é que está a situação no terreno? Não acalmou, depois do cessar fogo? Não está a ser cumprido?

Houve um cessar fogo acordado entre a Turquia e a Rússia, mas não conduziu a uma acalmia. Fala-se de cessar fogo, mas continuamos a ser atacados por grupo jihadistas enviados pela Turquia para a região, onde estão a cometer crimes de guerra, decapitações e muitas outras atrocidades. Na última semana, nos dois últimos dias em particular, a comunidade cristã síriaca, que vive junto ao rio Jabur (afluente do rio Eufrates), tem estado debaixo de fortes ataques de artilharia lançados a partir da Turquia, e de ataques dos jihadistas por terra. E ali não há militares curdos, só a força militar síriaca (MFS), e já tivemos baixas. Nas últimas 24 horas vários jovens foram apanhados pelos jihadistas, dois sabemos que foram levados, mas não sabemos para onde, nem como estão a ser tratados. Outros seis estão em paradeiro ‘desconhecido’, não sabemos se conseguiram fugir, se estão mortos, os corpos ainda não foram encontrados. É uma situação grave.

 

Sentem-se traídos pelo presidente Trump e pelas forças militares americanas, que deixaram a Síria?

Dizer ‘traído’ é uma expressão forte, não quero expressar-me dessa forma. Mas não esperava que isto acontecesse. No início houve um acordo militar entre os Estados Unidos e as Forças Democráticas Sírias (SDF), para a guerra contra o Daesh, no âmbito de uma coligação internacional. Não nos prometeram uma solução política, os americanos foram muito claros quando disseram que estavam lá para combater o Daesh, para apoiar a estabilização da região. Mas não esperávamos, de todo, que as coisas se desenrolassem assim. A retirada militar deles foi um grande desapontamento.

 

Acredita que o regime sírio irá autorizar que a vossa região (o cantão de Jazira) tenha alguma vez autonomia?

O regime sírio não tem uma agenda para o futuro da síria, mas mesmo historicamente nunca houve interesse em discutir a questão. Nós sempre estivemos abertos a discutir o assunto com o regime, não é segredo, porque sempre quisemos uma Síria unida, mas com descentralização, com autonomia, sem depender unicamente de Damasco. Mas, o regime não reconhece nada disto, nem entende que tem de fazer mudanças.

 

Como é que os direitos das mulheres foram afetados pela guerra na Síria e pelos recentes acontecimentos?

A guerra afetou-nos em alguns pontos também positivamente, porque ao ver a revolução, nós chamamos-lhe a revolução das mulheres na Síria.

Durante a história da Síria a mulher era oprimida, no geral não lhe era permitido expressar-se e tomar posições na sociedade e no Médio Oriente acontece o mesmo. E podemos ver que, pelo mundo, poucas são as mulheres em que lhes é permitido ter posições de liderança.

Mas a revolução abriu a porta às mulheres para participarem a todos os níveis: a nível social, cultural, político, militar podemos ver as mulheres curdas e siríacas a ter as suas unidades de proteção, a lutarem pela sua dignidade e pelos direitos dos seus povos e pelos direitos dos seus filhos para que sejam iguais aos homens.

Vemos que estamos hoje numa posição de liderança o que nos permite estar aqui a falar e isto é um empoderamento para as mulheres, que há algum tempo não seria possível.

A guerra afetou todos, mas para nos direitos das mulheres podemos ver um desenvolvimento positivo.

 

Antes de vir para Portugal estiveram no Parlamento Europeu. Como foi a receção e que expetativas têm?

Mantivemos encontros com membros do Parlamento Europeu, a um nível pessoal, e também num comité de direitos humanos no PE.

A impressão que tenho é que a União Europeia e o Parlamento têm as mãos atadas e não podem mover-se como eu gostaria. São um grande ator mas não têm uma força militar para agir. Eles são mediadores, a tentar diplomaticamente, que grupos e países possam interferir de forma concreta.

Mas obviamente espero que o PE, os seus membros percebam, assim como os países membros. O que se passa no Médio Oriente não se circunscreve àquela área. Os problemas no Médio Oriente interferem convosco, a insegurança no Médio Oriente sentem-na diretamente aqui no Ocidente. No fluxo da migração podem ver que os problemas acontecem.

A minha esperança é que nos ajudem a estabilizar a região no Médio Oriente, nos ajudem a encontrar uma solução para o Médio Oriente, para prevenir a estabilidade europeia.

Pensamos que vocês não o merecem também, queremos que vivam em paz, mas o que se passa na nossa terra também vos afeta e traz más coisas para vocês.

Nós precisamos da vossa ajuda e assistência para estabilizar a Síria para que o fluxo migratório pare e, quem sabe, quem emigrou possa regressar, para que o povo sírio possa regressar ao seu país em vez de ser refugiado na Europa.

Normalmente não digo isto e não quero diferenciar pessoas, quando falo é em termos gerais, mas aqui quero ter a oportunidade de vos dizer que a minoria cristã está a sofrer muito e muito seriamente mais do que outros grupos.

A minoria cristã está a tornar-se mais pequena ainda e parece que o genocídio vai acabar connosco desta vez. As mudanças demográficas vão terminar connosco. Se não nos apoiarem, como cristãos, para que permaneçamos no nosso país para que sejamos visíveis na agenda política e na discussão de soluções para a Síria, eu infelizmente, acredito, será o fim do cristianismo na Síria e no Médio Oriente, no geral.

Isto é a realidade. Outras comunidades são grandes o suficiente e vão continuar a existir, mas nós não. Nós seremos extintos.

 

Depois de Portugal, qual o próximo destino?

Vamos para a Alemanha, vamos falar com jornalistas e televisões alemãs. Vamos também à Suécia, estou em conversações com o parlamento da Suécia.

É importante falar publicamente nos media. No genocídio de 1915 contra o povo arménio a atenção dos media foi pouca. Levou muitos anos para se conhecer e ainda hoje muitos europeus desconhecem o genocídio que matou 2,5 milhões de pessoas.

Mas o genocídio de hoje, de 2014-2015, o que se está a passar é de fácil conhecimento, é fácil seguir através das redes sociais e dos media e é importante para nós estarmos nos media. É importante dar conta do que está a acontecer para que as pessoas possam perceber o genocídio que está a acontecer.

Precisamos de parar esta mentalidade de genocídios no Médio Oriente. Há um pedido para ver o Papa. Estamos à procura de canais, mas queremos estar com o Papa enquanto líder religioso dos cristãos.

 

Quando regressa à Síria?

O visto termina e o regresso acontecerá no início de dezembro e até lá quer encontrar-se com o máximo de pessoas possível.

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