Jacinto Lucas Pires

«Santiago, Italia» é um filme muito simples mas nada óbvio. Trata-se, ao mesmo tempo, de um documentário convencional, quase “jornalístico”, e de uma afirmação inspirada. Uma afirmação política, mas também uma afirmação cinematográfica.

Há grandes autores — e depois há os “nossos” grandes autores. Mestres que, para lá do lugar mais ou menos definido que têm no cânone, nos marcaram pessoalmente. Não contribuíram “apenas” para a construção de certa visão do mundo que hoje nos define, mas revolucionaram a nossa história. Sem eles, sem as suas obras (sem o nosso encontro com o seu universo em certas especialíssimas circunstâncias), não teríamos apenas outras “referências”, outros “gostos”, outras “inspirações” — seríamos de verdade outras pessoas. Por mais disponíveis que estejamos para epifanias, esse é, claro, um milagre que não acontece a toda a hora. A este espetador de cinema que daqui vos fala, terá acontecido três, quatro, cinco vezes? Com Fellini, descobri que a saudade (o célebre palavrão sem tradução) era, afinal, demonstrável em vinte e quatro imagens por segundo. Com Godard, aprendi que o cinema não era antes nem depois, era aqui e agora. Já com Moretti, digamos que vi a vida. É difícil explicar o que me aconteceu da primeira vez que vi um filme do autor de Palombella RossaBiancaEcce Bombo. De repente, sentia que a alegria era mesmo (como disse Almada) a coisa mais séria que havia, que o humor podia ser justo e que a arte e a vida se entrelaçavam de um modo profundo e invisível, por fios tão fortes como música. Moretti foi uma influência tal que, mal saí do filme Querido Diário — onde Michele Appicella, o famoso alter-ego morettiano, se passeia por Roma numa vespa sonhando com filmes —, comprei uma vespa em segunda mão e decidi fazer o mesmo pela minha cidade de outras sete colinas.

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