Discurso à 75ª Assembleia Geral da ONU criticou sistema financeiro, recurso ao aborto, exploração de menores e corrida ao armamento

Foto EPA/Lusa

Cidade do Vaticano, 25 set 2020 (Ecclesia) – O Papa dirigiu-se hoje à 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas, numa intervenção em vídeo, defendendo uma “mudança de rumo”, a nível global, depois da pandemia da Covid-19, com particular atenção aos mais novos.

“Imploro às autoridades civis que prestem especial atenção às crianças a quem são negados os seus direitos e dignidade fundamentais, em particular o seu direito à vida e à educação”, disse.

O discurso, em espanhol, destacou as “consequências devastadoras da crise da Covid-19 sobre as crianças, incluindo migrantes desacompanhados e menores refugiados”.

“A violência contra as crianças, incluindo o terrível flagelo do abuso infantil e da pornografia, também aumentou dramaticamente”, acrescentou.

Francisco destacou que milhões de crianças não podem voltar à escola, o que pode levar a um “aumento do trabalho infantil, exploração, abuso e desnutrição”.

O Papa questionou ainda a promoção do aborto como um dos chamados “serviços essenciais” na resposta humanitária.

É triste ver como se tornou simples e conveniente, para alguns, negar a existência da vida como solução para problemas que podem e devem ser resolvidos tanto para a mãe quanto para a criança que ainda não nasceu”.

A intervenção recordou as vítimas da Covid-19 e sustentou que a atual crise está a colocar em causa “sistemas económicos, de saúde e sociais”.

Em particular, o Papa destacou a “necessidade urgente de promover a saúde pública”, pedindo que seja possível garantir o acesso universal às vacinas para a Covid-19, dando prioridade a quem não tem poder ou recursos económicos”.

Francisco lamentou a “crescente desigualdade entre os super-ricos e os permanentemente pobres”, por causa de uma “injusta distribuição dos recursos”, antes de defender o fim dos paraísos fiscais e uma nova “arquitetura financeira internacional”, incluindo a redução ou perdão da dívida aos países menos desenvolvidos.

O discurso aludiu ainda ao impacto da pandemia sobre o mundo laboral: “Para garantir um trabalho decente, é preciso mudar o paradigma económico dominante, que visa apenas aumentar os lucros das empresas”.

O Papa reforçou os seus alertas contra uma “cultura do descarte”, que não considera a dignidade humana, subordinada a “um desejo de poder e controlo absolutos que domina a sociedade moderna”.

“Isto também é um atentado contra a humanidade”, indicou.

A intervenção evocou as mulheres vítimas de exploração laboral e sexual, bem como os migrantes explorados.

Refugiados, migrantes e deslocados internos sofrem nos países de origem, trânsito e destino, abandonados, sem oportunidade de melhorar a sua situação de vida ou da sua família. Pior ainda, milhares são intercetados no mar e devolvidos à força aos campos de detenção, onde enfrentam tortura e abusos”.

Cinco anos depois do Acordo de Paris, o Papa questionou a falta de vontade política para enfrentar as alterações climáticas, alertando para a “perigosa situação” da Amazónia.

“A crise ambiental está intrinsecamente ligada a uma crise social e cuidar do meio ambiente exige uma abordagem abrangente, para combater a pobreza e a exclusão”, declarou.

Esta foi a segunda vez que o Papa se dirigiu à Assembleia Geral da ONU, depois de ter estado em Nova Iorque, precisamente há cinco anos.

Antes de Francisco, estiveram na sede das Nações Unidas Paulo VI (1964), João Paulo II (1979 e 1995) e Bento XVI (2008).

OC

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