Organismo laical da Conferência Episcopal Portuguesa pede que situação que se vive na região não caia no esquecimento e na indiferença

Lisboa, 16 jul 2026 (Ecclesia) – A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) apela aos governos por apoio ao povo de Cabo Delgado, devido à violência e ações terroristas que se mantém há dez anos no território e que continua a causar vítimas e deslocados.
“Eles [governos] podem fazer alguma coisa para superar esta situação de pobreza e desemprego, sabendo que isso não é de um dia para o outro”, afirmou Pedro Vaz Patto, presidente do organismo, em entrevista ao programa Ecclesia, transmitido na RTP2.
Um grupo de comissões de Justiça e Paz da Igreja Católica em Portugal lançou na passada semana uma nota com o título “Solidários com o povo de Cabo Delgado”, depois de conhecerem um muito completo relato da situação da parte de D. António Juliasse, bispo de Pemba.
“E a nossa intenção é, como comecei por dizer, não deixar que esta situação caia no esquecimento que os cidadãos em geral tenham presente esta situação. Podem sempre dar o seu apoio humanitário, que é necessário para estas pessoas que estão deslocadas e continuam com graves carências”, referiu.
Pedro Vaz Patto compreende que, na comunicação social, a atenção dada a um fenómeno é cíclica e que as situações dramáticas sucedem-se umas a seguir às outras, o que não significa que deixem de ter relevância.
“No nosso último encontro, quisemos fazer esta nota comum a partir de uma comunicação que nos foi feita pelo Sr. Bispo de Pemba, D. António Juliasse, que é, de facto, uma pessoa fidedigna. […] É uma testemunha local”, indicou.
O presidente da CNPJ lembra que “há estas pessoas deslocadas, mais de um milhão”, reforçando que a ideia que se pretende transmitir é a de “não deixar” esta situação cair no esquecimento e na indiferença, “como se não houvesse nada a fazer” e a população tivesse “que desistir de voltar aos seus locais de origem”.
“Na caracterização desta situação, ele [D. António Juliasse] disse-nos, e não podemos negar isso, que da parte destes grupos insurgentes, chamados insurgentes, grupos terroristas, há um foco especial de perseguição aos cristãos”, salientou.
Pedro Vaz Patto insiste que é necessário denunciar estes casos e “há que estudar aquilo que leva muitos jovens a aderir” a estas fações.
O responsável alerta que importa não confundir a ideologia radical do islamismo com a religião muçulmana.
“Aquilo que se tinha verificado até há pouco tempo era um contacto, uma harmoniosa convivência entre cristãos e muçulmanos. E continua a existir em relação à maior parte dos muçulmanos da região. Mas, de facto, há estes jovens que, por vezes, rompem com as tradições das suas famílias. São influenciados por ideologias vindas do exterior”, indica.
A comunicação de D. António Juliasse realçou também a importância da educação para a paz e do diálogo inter-religioso, destacou o presidente da CNJP.
“Já foram tomadas iniciativas nesse sentido, mas é importante continuar e deixar isso claro também em relação à opinião pública”, disse.
Pedro Vaz Patto assinalou também a importância de garantir a segurança das populações, denunciando que muitas vezes os investimentos que estão a ser feitos e que envolvem grandes empresas são mais importantes.
“Também é importante que as pessoas tenham confiança nas Forças Armadas e às vezes têm razões para não ter, porque são relatados abusos das próprias Forças Armadas Moçambique”, expressou.
“Portanto, é um apelo ao governo moçambicano, ao governo português, na medida em que pode influenciar, à União Europeia, onde estão os países de que dependem algumas destas empresas que operam no local”, desenvolveu o responsável.
A região de Cabo Delgado enfrenta ataques recorrentes contra civis e infraestruturas vitais desde o ano de 2017.
A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) é um organismo laical da Conferência Episcopal Portuguesa, que tem como finalidade promover e defender a Justiça e a Paz, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja.
PR/LJ
