D. Luiz Lisboa afirma que o país não consegue travar os conflitos, apela ajuda internacional e rejeita um «novo colonialismo» sobre os recursos naturais

Foto: Lusa

Lisboa, 16 dez 2020 (Ecclesia) – O bispo de Pemba afirmou que o Governo de Moçambique não consegue “travar a guerra”, pede a ajuda à comunidade internacional e apela à Presidência Portuguesa da União Europeia que atue nas “causas da guerra”, nomeadamente os recursos naturais.

“Portugal faria um grandíssimo favor se levasse a debate na União Europeia o uso dos recursos, pelo mundo fora: como estamos a enfrentar a situação? Que tipo de submissão, de novo colonialismo estamos a praticar em relação aos recursos que há em África e outros lugares mais pobres do mundo”, afirmou D. Luiz Lisboa numa sessão online, promovida por organizações da Igreja Católica em Portugal.

Para o bispo de Pemba, “esta discussão tem de ser feita seriamente”.

“Não podemos dar com uma mão e tirar com a outro”, sublinhou D. Luiz Lisboa numa sessão participada por cerca de 250 pessoas, na noite desta terça-feira.

O bispo de Pemba afirma que a União Europeia pode fazer muito “em termos de ajuda humanitária” e deve atuar na descoberta das “causas dessa guerra, de ir à raiz do problema”.

“Nós estamos a lidar com a crise humanitária, mas essa guerra tem de acabar”, afirmou, acrescentando que os conflitos na região de Cabo Delgado têm na sua origem os “custos da exploração dos recursos naturais”.

Desde 2017, a província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, tem sido atingida por conflitos armados provocados por grupos rebeldes, que já causaram 2 mil vítimas mortais e 600 mil deslocados.

Para o bispo de Pemba, as “motivações económicas estão em primeiríssimo lugar” na origem dos conflitos, considerando também o extremismo religioso “um elemento importante, mas não é o principal”, uma vez que “as guerras têm acontecido onde há muitos recursos naturais”.

D. Luiz Lisboa referiu também o esquecimento a que a região foi votada pelo Governo moçambicano, que não tem possibilidade de “travar o conflito”.

“As nossas forças de defesa, com toda a boa vontade e todo o efetivo que o Governo possa ter aumentado, não conseguiram conter e a guerra continua”, afirmou.

O bispo de Pemba disse que a ajuda deveria ter sido pedida mais cedo e, para além da intervenção externa na área da “formação, material logístico e assistência humanitária”, é necessário um “serviço de inteligência mais forte”.

“Para resolver a situação, o Governo fez o que devia ter feito há mais tempo: pedir ajuda”, sublinhou.

D. Luiz Lisboa confirmou as “assimetrias” que existem em Moçambique e que “têm de ser corrigidas”, e que motivaram o esquecimento de Cabo Delgado..

“Cabo Delgado foi ignorado, foi deixado de lado durante muito tempo. E esse é um dos motivos que ajudaram que essa juventude fosse arrastada para esses grupos” rebeldes, afirmou.

Foto: Lusa

O bispo de Pemba referiu-se à situação precária em que se encontram muitos refugiados, a viver em assentamentos temporários, à solidariedade entre as populações atingidas pelos rebeldes e apela à mobilização da comunidade internacional para combater a fome na região.

“A gente está há três naos sem produzir, por causa da guerra. A fome, que já acontecia todos os anos, nesta época, aumenta muito mais por causa da guerra”, lembrou.

D. Luiz Lisboa apelou à participação, individualmente ou em grupos, nas campanhas em curso por igrejas de vários países, e disse que a atenção do Papa Francisco a este problema “foi fundamental” porque “internacionaliza” a crise humanitária e ajuda a que “outras pessoas se sintam responsável a dar uma reposta” a esta situação e ajudem de alguma forma.

“Em primeiro lugar, rezar pelo povo para que tenham coragem de enfrentar esse momento. Depois falar sobre isto, torná-lo conhecido, o que ajuda a vencer a indiferença e ajudar a que as pessoas se abram para com o outro que sofre. E, na medida do possível, alguma ação de solidariedade”, indicou o bispo de Pemba.

“Que todos aprendamos com essa triste realidade e cada um de nós possa fazer a sua parte: rezando, partilhando, sendo solidário. Todos podemos fazer alguma coisa”, concluiu D. Luiz Lisboa.

PR

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