Mais de um mês depois do ciclone Idai, alimentação continua a ser a maior preocupação, realça D. Claudio Dalla Zuana

Foto: Caritas.org

Beira, Moçambique, 22 abr 2019 (Ecclesia) – Um mês depois da tragédia que abalou Moçambique, com a passagem do ciclone Idai, os sinais exteriores da catástrofe natural estão mais esbatidos, mas a crise humana continua presente.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o arcebispo da Beira, uma das regiões mais atingidas, frisou hoje que está pela frente “um trabalho de anos”, no que diz respeito ao apoio às populações atingidas e à reconstrução de infraestruturas.

“O ciclone durou poucas horas, mas a recuperação vai durar muito tempo”, apontou D. Claudio Dalla Zuana, para quem seria bom que não se apagassem “os holofotes” sobre esta tragédia, ou seja, que aquilo que surgiu em termos “de solidariedade internacional” continue a acontecer no futuro.

A passagem do ciclone Idai por Moçambique provocou mais de 600 mortos e deixou cerca de 350 mil pessoas em risco imediato de vida.

De acordo com o arcebispo da Beira, a grande emergência continua a ser a alimentação, até porque a catástrofe natural devastou mais de 750 mil hectares de colheitas.

A maioria da população, que apostava em campos de cultivo, só em março do próximo ano poderá ter uma colheita. Isto quer dizer que daqui até lá teremos muitas famílias dependentes da ajuda alimentar, este é um problema muito grave que deve ser solucionado”.

A Cáritas da Beira distribui sementes “em áreas muito restritas”, onde há a possibilidade de efetuar uma segunda colheita; os centros de acolhimento a desalojados têm estado a ser abastecidos de comida através do Programa Mundial de Alimentação, mas no que toca às pessoas ainda situadas nos bairros, a prestação de ajuda tem sido “muito mais difícil”, sublinha o arcebispo.

No que toca aos trabalhos de reconstrução, das casas e infraestruturas, o processo ainda está também numa fase bastante inicial.

“As ruas foram limpas, as águas foram removidas, agora por um lado os materiais de construção são escassos, por outro vamos reconstruir onde? No mesmo lugar? Ajudar as pessoas a reconstruir onde não há saneamento básico, onde não há arruamento?”, questiona o responsável católico.

Os últimos números divulgados pelas autoridades apontam para a existência de pelo menos 70 mil pessoas desalojadas devido ao ciclone Idai.

Para D. Claudio Dalla Zuana, este número deve dizer respeito apenas às pessoas que estão nos centros de acolhimento, uma vez que nos bairros existem muitas mais.

“Há bairros inteiros onde não há uma casa com um telhado, as pessoas estão lá mas não podemos considerar que elas já têm um abrigo. Na cidade temos pessoas que conseguiram, que têm recursos económicos e estão a cobrir as suas casas, mas a maioria da população praticamente não se mexeu, não se veem passos nesta fase”, descreve.

Em termos do património da Igreja Católica, o processo de reconstrução também representa um enorme desafio: nas 29 paróquias que integram a Arquidiocese da Beira, três igrejas foram completamente arrasadas pelo ciclone, pelo que “têm de ser reconstruídas de raiz”, e outras 18 ficaram sem telhado.

“Isto sem contar com as escolas, casas sacerdotais, casas religiosas que foram perdidas”, recorda o arcebispo da Beira, que sublinha também os pontos positivos que têm sido alcançados, como o acesso das populações à água potável e o combate ao surto de cólera que surgiu depois do ciclone Idai, e que “está praticamente ultrapassado”.

“A Arquidiocese da Beira tinha disponibilizado uma paróquia onde criaram um centro dedicado ao atendimento desta doença e ontem acabaram de desmantelar a última tenda. Os novos casos são raros, portanto, neste caso podemos dizer que há claramente um progresso”, indicou D. Claudio Dalla Zuana.

A Cáritas Portuguesa anunciou que vai disponibilizar cerca de 350 mil euros para apoiar as vítimas do ciclone Idai, em Moçambique.

Estas verbas vão servir no imediato 27 500 pessoas naquele país lusófono, no âmbito de uma verba inserida no Plano de Resposta de Emergência da ‘Caritas Internationalis’, que coordena toda ação da rede internacional Cáritas em Moçambique.

Os apoios financeiros vão ser aplicados até junho deste ano, nas dioceses da Beira (Sofala), Chimoio (Manica) e Quelimane (Zambezia), e terão como principais áreas-alvo a alimentação, a saúde, a higiene e o abrigo.

“De Portugal houve muito interesse, muitas pessoas disseram presente, e era bonito que se encontrassem formas de dar continuidade a essa solidariedade”, reforçou o arcebispo da Beira.

Além de Moçambique, o ciclone Idai atingiu também outros países africanos vizinhos, como o Zimbabué, onde foram contabilizados 344 mortos, e no Malawi, que registou pelo menos 56 vítimas mortais.

JCP

Como é que, num país atingido por uma tragédia tão grande, foi celebrada a Páscoa?

Segundo D. Claudio Dalla Zuana, as celebrações pascais foram sobretudo uma ocasião de fomentar a “esperança” e a fraternidade entre as pessoas.

“Houve uma vivência visivelmente mais profunda deste tempo e as comunidades parecem ter recuperado unidade, solidariedade. Diria que tivemos a graça de viver mais intensamente e pessoalmente esta passagem pela Paixão e Morte de Cristo, pela destruição que aconteceu, mas mais numa perspetiva de renovação”, considerou.

O responsável católico destacou, entre as iniciativas que tiveram lugar na Semana Santa, a Via-Sacra de Sexta-Feira, um itinerário que foi muito ligado ao drama que se abateu sobre Moçambique.

“A queda de Jesus a caminho do Calvário era a queda das nossas casas, das nossas igrejas, a morte de Jesus, o despojamento como esta semente que vai ter um futuro, da qual vai nascer uma coisa nova”, exemplificou D. Claudio Dalla Zuana, que procurou transmitir às pessoas a certeza de que o horizonte do país será “melhor do que antes”.

 

 

 

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