Pároco de Loulé defende que migrantes «nunca foram um obstáculo» e que têm impulsionado a região sul do país, através do trabalho

Lisboa, 26 set 2026 (Ecclesia) – O pároco de Loulé afirmou que a Diocese do Algarve, onde o novo bispo agora chega, é hoje uma “terra que acolhe imensas culturas”, “um caldeamento de povos, de línguas” e “expressões culturais”, afastando a ideia de rejeição de migrantes.
“No Algarve nunca houve exclusão, nem afastamento do acolhimento desses povos, que, por variadíssimas circunstâncias, aqui pararam e aqui acabaram por fazer a sua residência e vivem agora connosco”, referiu o padre Carlos Aquino, em declarações à Agência ECCLESIA.
Em entrevista a propósito da transformação demográfica, cultural e social na Diocese do Algarve e da tomada de posse canónica de D. Vitorino Soares, o pároco frisou que os imigrantes “nunca foram um obstáculo”, salientando que “muitos deles trabalham e estão muito integrados”.
“É graças a eles também e ao trabalho deles e à resiliência deles que vamos dando um impulso também à região, que não vive apenas de turismo, embora o Algarve seja olhado muitas vezes apenas como uma grande região de turismo”, disse.

O padre Carlos Aquino defende que as câmaras municipais têm tido “uma grande importância” no acolhimento dos povos estrangeiros na diocese, dando o exemplo da criação de espaços, em comunhão com a Igreja, para atender pessoas fugidas da guerra “não há muitos anos”.
“Isso foi um trabalho muito belo, depois acabaram nem todos por ficar aqui, na região, mas foi um grande esforço, que é símbolo e sinal da nossa abertura”, expressou, indicando que existe no Algarve “uma grande comunidade ucraniana”, a quem a diocese favorece espaços para celebrar a própria fé.
“Nota-se esta grande comunhão e trabalho em rede, como hoje se diz, entre as várias instituições, para, na verdade, estas pessoas não ficarem, como às vezes, indevidamente se julga ou se pensa, virem-nos roubar o lugar do trabalho e terem mais regalias do que aqueles que cá estão. Isso não corresponde à verdade da situação”, sublinhou.
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Em Loulé, as culturas estrangeiras mais expressivas são provenientes de Cabo-Verde, do Brasil e da Venezuela, registou o pároco, dando conta ainda que anualmente são promovidas duas festas que unem diferentes nacionalidades: A Festas dos Povos e o Encontro dos Cabo-Verdianos e Seus Amigos. “A Igreja está a acolher e é assim que deve ser acolher, porque os povos, neste caso os migrantes, sejam refugiados, não saem porque querem do seu país, eles saem porque procuram o melhor, sempre”, defendeu Vera Costa, da Liga Intensificadora da Ação Missionária da Diocese do Algarve (LIAM). Natural de Cabo Verde, também Filomena Semedo integra a paróquia de Loulé, lembrando que apesar de ter sido “um choque” a adaptação ao país, quando chegou a Portugal foi “muito bem acolhida” pela Igreja. Hoje, é vice-presidente da LIAM da Diocese do Algarve e explica que nas Eucaristias da paróquia procura-se sempre que os migrantes se integrem e participem na vida da Igreja: “Celebramos a nossa fé. Não há religiões, não há várias nacionalidades. Ali tornamo-nos um só para louvar a Deus e celebrar a fé”. O padre Carlos Aquino destaca a aprendizagem que resulta da “diferença cultural”, reconhecendo que acolher resiliência de muitos dos imigrantes também enriquece os portugueses. “Nós somos mais racionalistas. O Brasil, por exemplo, é mais emotivo, e temos uma grande comunidade brasileira também aqui e, portanto, trazem-nos alegria, os cânticos efusivos, uma expressão de ternura, até de relacionamento humano”, declarou.
Com a tomada de posse canónica de D. Vitorino Soares, o pároco de Loulé expressa o desejo de que a diocese continue a acolher as comunidades migrantes no Algarve: “Não podemos esquecer estes povos. Aqui a linguagem não pode ser só algarvia”. “Temos que os acolher, integrá-los nas nossas comunidades, valorizá-los, e também não deixar aquilo que é nosso, que é identitário nosso, que se perca. Não devemos anular a nossa identidade para fazer as outras identidades crescerem. Mas neste caldeamento das várias identidades, acho que o Algarve tem muito até a dar ao país”, desenvolveu. “Diria ao senhor D. Vitorino, que pode encontrar em nós um povo acolhedor, e disposto e disponível também a acolhê-lo, a acolher a mensagem que partilhará connosco, e que nós desejamos com ele também ajudar a construir”, mencionou. |

Em declarações à Agência ECCLESIA, o sacerdote abordou ainda o isolamento que o interior do Algarve enfrenta, considerando que não se lhe tem dado “importância política nem social” a não ser em discursos políticos na aproximação das eleições.
“As escolas muitas vezes tiveram que abandonar ou apenas concentrarem-se num espaço, exatamente por falta de crianças e para gestão de recursos. Os médicos também já não lá chegam como chegariam em tempos antigos. Se a Igreja também deixa a sua presença é muito negativo, porque uma coisa é a Igreja estar, o padre estar, outra coisa é o padre ir celebrar a fé”, observou.
A tomada de posse canónica do bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, que se realizou no passado sábado, e a transformação demográfica, cultural e social da diocese vão estar no centro do programa 70×7 que é transmitido este domingo na RTP2 (12h48).
LJ/PR




