Fátima Almeida recorda o envolvimento do sacerdote na luta contra o trabalho infantil e na defesa das 40 horas de trabalho

Lisboa, 22 fev 2021 (Ecclesia) – O padre Avelino Cardoso, da Arquidiocese de Braga, foi uma das vítimas da Covid-19 em 2021 e deixou um legado de entrega ao mundo operário e de luta pela justiça social.

Fátima Almeida, copresidente do Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC), recorda hoje nas ‘Memórias que Contam’, conversas promovidas pela Agência ECCLESIA, a ousadia pastoral deste sacerdote e a forma como deu origem a uma geração de leigos empenhados no mundo laboral.

O sacerdócio do padre Avelino Vieira Cardoso começa a ser forjado na experiência do maio de 68, num momento em que se encontrava em França, ao serviço das comunidades emigrantes e em colaboração com a missão operária da Igreja Católica naquele país (Mission Ouvrier).

Ali, contactou com a realidade dura que os emigrantes portugueses que viviam em França onde, apesar de terem fugido da pobreza, continuavam a viver em condições desumanas de grande sofrimento.

“O que observou e as lutas do maio de 68, deram-lhe uma outra perspetiva para o seu sacerdócio e para a forma de estar numa Igreja ainda muito distante dessas periferias que o Papa Francisco hoje sublinha”, afirma Fátima Almeida.

O padre Avelino Cardoso regressou à Arquidiocese de Braga, onde trabalhou com os movimentos operários da Juventude Operária Católica (JOC) e da Liga Operária Católica (LOC).

Fátima Almeida refere que o sacerdote encontrou uma Igreja que na época, tinha ainda dificuldade de acolher as propostas de mudança do Concílio Vaticano II (1962-1965).

“Tínhamos uma Igreja ainda muito assente na religiosidade popular e em práticas de rotina cristã, onde outras formas de viver e anunciar a alegria e a esperança do Evangelho não eram aceites”, diz.

A responsável sublinha que foram os setores da Igreja sensíveis às questões laborais que mais notaram a necessidade de mudança de mentalidade.

“Na LOC e na JOC sentíamos muito estas clivagens entre a necessidade de uma Igreja mais autêntica e uma Igreja mais tradicional que se fechava à abertura proposta pelo Concílio”, realça.

Fátima Almeida reconhece que o padre Avelino Cardoso e outros sacerdotes foram para si e para os leigos da sua geração “a âncora para uma fé mais vivencial e comprometida”.

“Ele e os que optaram por viver esta experiência de evangelização no mundo do trabalho, sofreram na pele a ousadia desta experiência evangélica”, relata, evocando o esforço nas décadas de 80 e 90, com a sensibilização contra o trabalho infantil.

“Lembro-me que havia gente dentro da Igreja que se opunha a essa ação de denuncia. Defendiam que este combate não devia ser assumido pela Igreja”, observa.

Fátima Almeida salienta que muitos defendiam a máxima popular que diz: “O trabalho da criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco”.

“Isto era dito publicamente por responsáveis da nossa Igreja” recorda, “e este pouco, para muitas famílias era uma ajuda importante para a sustentabilidade económica”.

Na época, foi o padre Avelino Cardoso a dizer que o trabalho infantil era um pecado público, um pecado grave.

“Memórias que contam” é a rubrica que, entre segunda e sexta-feira, quer dar rosto a algumas das vítimas desta pandemia, cujos percursos de vida e exemplos de Igreja deixam um legado a recordar.

HM/OC

Partilhar:
Share