Médio Oriente: Risco da comunidade cristã desaparecer «é real», alerta Catarina Martins Bettencourt

Fundação pontifícia está a promover a campanha quaresmal para apoiar missionários que são «o exemplo do melhor da humanidade», afirma jornalista Paulo Aido

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 18 mar 2026 (Ecclesia) – A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) alerta para o risco de a comunidade cristã no Médio Oriente desaparecer na sequência de uma nova guerra, que provoca vítimas, pobreza e um número crescente de refugiados, nomeadamente desta minoria religiosa.

“É de facto um risco real que nós vimos assistindo ao longo dos últimos anos, com os vários conflitos que têm acontecido, e agora mais um; temos assistido a um decréscimo bastante acentuado da presença da comunidade cristã”, disse a diretora do Secretariado português da AIS, em entrevista à Agência ECCLESIA.

A Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre apoia a sobrevivência da comunidade cristã, que é uma pequena minoria, no Médio Oriente, mas, segundo Catarina Martins Bettencourt, “cada vez mais” há pessoas que querem fugir desta região, devido às guerras e conflitos, para “dar uma vida mais tranquila, mais segura, com uma maior perspetiva, mais esperança” dos próprios filhos, da família.

Podemos chegar a um ponto em que temos apenas uma presença residual da comunidade cristã, e seria terrível pensar: ‘como é possível no Médio Oriente não haver comunidade cristã? Como é que pode desaparecer ao fim destes dois mil anos de existência?”

Paulo Aido, da AIS Portugal, alerta para a “perseguição religiosa” que “quase está latente em toda esta região” porque os cristãos são uma minoria, “são perseguidos principalmente pelos grupos mais extremistas”, e indica que o Iraque, a Síria, e o Líbano são o exemplo de três países “inseguros”.

Foto Fundação AIS, Padre Hugo Alaniz, missionário na Síria

O jornalista afirma que os cristãos não não estão protegidos, recordando que foram perseguidos no Iraque, em 2014, quando os jihadistas do Estado Islâmico “ocuparam vastas regiões do território”, e expulsaram os cristãos da Península de Nínive, “terras históricas, terras bíblicas”, o que aconteceu também na Síria.

“Agora, no Líbano, os incidentes têm acontecido, essencialmente, no sul do país, onde vivem muitas comunidades cristãs, por exemplo, no Vale do Beca. É um incidente que não tem diretamente a ver com os cristãos, neste caso é um conflito entre Israel e o grupo (libanês) Hezbollah, mas os cristãos estão no meio e são alvo deste ataque”, desenvolveu Paulo Aido, no Programa ECCLESIA, emitido hoje, na RTP2.

A fundação pontifícia alertou que o Líbano está “a enfrentar uma profunda crise humanitária”, e contabilizou “mais de 1 milhão de deslocados internos”, até 17 de março, num país com “cerca de 6 milhões de habitantes”.

A diretora do secretariado português da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre acrescenta que “é cada vez mais difícil viver na Terra Santa”, e são cada vez menos os cristãos “que vivem, os que decidem permanecer, apesar de todas as dificuldades”.

Catarina Martins Bettencourt lamentou que com um novo conflito no Médio Oriente, o início dos ataques de EUA e Israel contra o Irão a 28 de fevereiro, se deixou de falar de Gaza, na Palestina, onde, segundo informações do responsável da única paróquia católica, o padre Gabriel Romanelli, “o cenário é terrível”.

O Papa renovou o apelo para que a paz prevaleça entre todos os povos, nas saudações da audiência geral publica desta quarta-feira, 18 de março, na Praça São Pedro, no Vaticano; Leão XIV, na saudação aos fiéis de língua árabe, “em particular do Oriente Médio”, lembrou que “o cristão é chamado a ser instrumento de paz, amor e reconciliação”.

PR/CB

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre está a dinamizar uma campanha quaresmal para apoiar os missionários que estão “nos confins do mundo”, “nos lugares mais perigosos, estão onde mais ninguém muitas vezes vai”, e que, destaca Paulo Aido, “são o exemplo do melhor da humanidade”.

“Quando acontecem incidentes, quando acontecem guerras, quando acontecem terremotos, as organizações não-governamentais muitas vezes vão para lá, mas rapidamente também se vão embora. E a Igreja permanece, a Igreja fica, e eles estão, e muitas vezes estão quase sem nada; Nós temos aqui em Portugal e em todo o mundo a honra de poder ajudá-los. Nós somos o suporte material, espiritual também, destes missionários que nos lugares mais difíceis do mundo são a presença de Deus, a presença da ternura de Deus”, desenvolveu o jornalista da AIS.

O secretariado português da Fundação AIS apoia também causas em território nacional e lançou uma campanha para reparação de igrejas, capelas e centros paroquiais atingidos pela tempestade Kristin na Diocese de Leiria.

“Uma das nossas missões enquanto Fundação AIS é essa, reconstruir, construir igrejas em todo o mundo. Nunca fazemos isso aqui em Portugal, na Europa, nos países do Ocidente, mas nesta situação, uma situação excecional, achámos que devíamos dar este sinal à Igreja Portuguesa de apoiar no momento em que há dificuldade”, explicou Catarina Martins Bettencourt.

 

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