«Magnifica humanitas»: Primeira encíclica de Leão XIV consagra preocupação ética da Igreja perante avanços da IA

Últimos Papas e organismos do Vaticano refletiram sobre desafios nos campos da economia, educação, saúde, comunicação ou da guerra

Cidade do Vaticano, 21 mai 2026 (Ecclesia) – O Papa vai apresentar a 25 de maio a sua primeira encíclica, ‘Magnifica humanitas’, após anos de reflexão da Igreja Católica sobre o desenvolvimento ético e os limites da inteligência artificial (IA), da economia ao campo militar.

Num encontro com os cardeais, dois dias após a sua eleição, Leão XIV explicou a escolha do seu nome, apontando aos desafios da “inteligência artificial” e outra “revolução industrial”.

“São várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, referiu.

O primeiro ano do atual pontificado ficou marcado pela exigência de limites éticos para o desenvolvimento da IA, especialmente a generativa.

“A IA levanta questões preocupantes sobre suas possíveis repercussões na abertura da humanidade à verdade e à beleza, na nossa capacidade distintiva de compreender e processar a realidade”, escreveu, num texto dirigido aos participantes na II Conferência Anual de Roma sobre Inteligência Artificial (19-20 de junho de 2025).

O pontífice manifestou ainda profunda preocupação com a corrida ao armamento autónomo e com a exclusão social provocada por um progresso sem ética.

“As próprias novas tecnologias surgem concebidas e utilizadas principalmente para fins bélicos e em contextos que não deixam vislumbrar um aumento de oportunidades para todos”, lamentou o Papa, durante a visita à Guiné Equatorial.

Logo na primeira grande entrevista do pontificado, divulgada a 18 de setembro de 2025, Leão XIV alertou para os desafios levantados pelo desenvolvimento da IA.

“Vai ser muito difícil descobrir a presença de Deus na IA. Nas relações humanas, podemos encontrar pelo menos sinais da presença de Deus”, disse ao ‘Crux’, portal de informação religiosa dos EUA.

Segundo o Papa, um dos perigos é que “o mundo digital siga o seu próprio caminho”, transformando as pessoas em “peões”.

Leão XIV disse mesmo ter sido convidado a autorizar a criação de uma versão digital de si próprio, “para que qualquer pessoa pudesse entrar num site e ter uma audiência pessoal” com o Papa.

“Se há alguém que não deveria ser representado por um avatar, na minha opinião, é o Papa”, justificou.

Na mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebrou no último domingo, o Papa alertou para os riscos de uma tecnologia digital que “simula” a realidade humana, pedindo a proteção dos “rostos e vozes” contra a manipulação da IA.

Leão XIV entende que os sistemas de IA, ao simularem “sabedoria, conhecimento, consciência e responsabilidade”, invadem o nível mais profundo da relação entre pessoas.

“É necessário vigiar sobre o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial nos âmbitos militar e civil, para que não desresponsabilize as escolhas humanas e não agrave a tragicidade dos conflitos”, alertou ainda o Papa, na última semana, durante uma visita à Universidade La Sapienza, em Roma.

A reflexão sobre estes campos estende-se aos organismos da Santa Sé, com a Academia Pontifícia para a Vida a pedir, no caso da Medicina, que “as decisões relativas ao tratamento do paciente e o peso da responsabilidade” permaneçam uma exclusividade humana, alerta partilhado pelo Papa.

Já a Comissão Teológica Internacional, ligada ao Dicastério para a Doutrina da Fé, alertou para os perigos de um novo paradigma tecnocrático no documento ‘Quo vadis, humanitas?’, rejeitando “uma conceção do sujeito que possui o objeto numa lógica de dominação e transformação”.

A 28 de janeiro de 2025, o Vaticano publicou um documento sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), alertando para os riscos destes sistemas e da concentração de recursos num conjunto de empresas “poderosas”.

“O facto de a maior parte do poder sobre as principais aplicações de IA estar atualmente concentrado nas mãos de algumas empresas poderosas suscita preocupações éticas significativas”, refere a ‘Antiqua et nova’ (antiga e nova), sobre a relação entre a IA e inteligência humana.

O texto foi assinado pelos cardeais D. Víctor Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação. Ao longo de 35 páginas, preenchidas por duas centenas de citações (214 notas), o texto aborda as questões antropológicas e éticas levantadas pela IA, assumindo “preocupações sobre a sua possível influência na crescente crise da verdade no debate público”.

Este enquadramento ético prolonga o legado do Papa Francisco, responsável por inscrever a regulação dos algoritmos na agenda diplomática global ao exigir a proibição de armas autónomas letais perante os líderes do G7, reunidos na Itália, a 14 de junho de 2024.

“Precisamos de garantir e proteger um espaço de controlo significativo do ser humano sobre o processo de escolha dos programas de inteligência artificial: está em jogo a própria dignidade humana”, declarou.

Na mesma linha, Leão XIV tem denunciado a “confiança ingenuamente acrítica” na IA como um “oráculo”, sublinhando que o recurso sistemático a uma compilação estatística artificial, corre o risco, a longo prazo, de corroer “as capacidades cognitivas”.

O atual Papa defende a necessidade de criar “políticas” para proteger os mais novos na era da inteligência artificial (IA), salientando também a importância da “educação digital”.

Noutro âmbito de reflexão, o pontífice criticou as promessas “transumanistas” de imortalidade pela tecnologia, desafiando a Igreja a “colocar a tecnologia ao serviço da evangelização e do desenvolvimento integral de cada pessoa”.

OC

A encíclica ‘Magnifica humanitas’ (Humanidade Magnífica), sobre “a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.

Este é 301.º documento do género na história da Igreja Católica; a encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve.

A apresentação da encíclica vai decorrer na próxima segunda-feira, pelas 11h30 (menos uma em Roma), no Auditório Paulo VI, com a presença de Leão XIV.

Além dos cardeais Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o Vaticano convidou Christopher Olah, cofundador da Anthropic (EUA).

Francisco assinou quatro encíclicas e Bento XVI outras três, nos 20 anos dos dois anteriores pontificados (2005-2025); São João Paulo II publicou 14 encíclicas, entre 1979 e 2003.

A palavra ‘encíclica’ vem do grego e significa ‘circular’, carta que o Papa enviava às Igrejas em comunhão com Roma, com um âmbito universal, onde empenha a sua autoridade primeiro responsável pela Igreja Católica.

O Papa mais prolífico neste tipo de cartas foi Leão XIII, com 86 encíclicas – embora muitos desses textos fossem, nos nossos dias, classificados como cartas apostólicas ou mensagens.

O título de uma encíclica é o começo do texto, na sua versão oficial, habitualmente em latim.

Quando tratam de questões sociais, económicas ou políticas, as encíclicas são dirigidas, não só aos católicos mas também a todos os ‘homens e mulheres de boa vontade’, prática iniciada pelo Papa João XXIII com a sua encíclica ‘Pacem in terris’ (1963).

Esta é uma forma muito antiga de correspondência eclesiástica, dado que na Igreja os bispos enviavam frequentemente cartas a outros bispos, para assegurar a unidade entre a doutrina e a vida eclesial.

Bento XIV (1740-1758) reavivou o costume, enviando “cartas circulares” a outros bispos, abordando temas de doutrina, moral ou disciplina que afetavam toda a Igreja; com Gregório XVI (1831-1846), o termo “encíclica” tornou-se de uso geral.

Partilhar:
Scroll to Top