Tony Neves, em Roma

Foi há cinco anos e fez-se história na Igreja. Pela primeira vez, um Papa publicava uma encíclica sobre ecologia. As reacções não se fizeram esperar, tal a novidade do tema e a frontalidade com que alguns assuntos estão ali tratados. Uns abraçaram-na de alma e coração, outros ainda estão com azia por discordarem das reflexões e das propostas de futuro ali gravadas. Correu muita tinta e, curiosamente, este documento deitou abaixo todos os muros da Igreja, a ponto de meio mundo o comentar, em contextos políticos, económicos, religiosos e académicos. ‘Laudato Si’ tem enchido os media e sido citada em parlamentos, discursos presidenciais, obras de renome, conferências, manifestações culturais e sociais….

Confesso que gosto muito deste documento porque fala de uma ecologia integral. É uma novidade absoluta. Havia já muitos discursos e práticas ditas ecológicas, tentando tratar bem a bicharada e a natureza em geral. Mas o Papa vai muito mais longe e mais fundo ao colocar as pessoas no epicentro da ecologia. Uma verdadeira ecologia – diz a Laudato Si – tem de começar pelo mais importante: amar os pobres, integrar os excluídos, visitar as periferias e margens, cuidar dos frágeis. E, claro, para que esta missão tenha sucesso, é necessário respeitar a natureza, nos seus ritmos, não poluindo nem os solos, nem as águas nem os ares, reciclando, reutilizando, plantando árvores, evitando incêndios, tratando águas sujas e residuais, caminhando para uma economia ‘verde’ no sentido mais profundo do termo. Foi isto que o Papa Francisco escreveu há cinco anos, um texto que ainda está quase todo por cumprir, mas é uma colaboração enorme para a construção do futuro. A convicção do Papa é dupla: na Criação de Deus, tudo está interligado; a Terra é a nossa Casa Comum. Na verdade, sem fraternidade (Deus criou-nos irmãos) não há ecologia que resista e a Terra tornar-se-á inabitável muito em breve.

Mas, o covid deu, o covid tirou… daria um bom tema para uma música ou para uma telenovela. De facto, o mundo ficou surpreendido com o impacto climático de dois meses de mundo quase parado: os níveis de poluição do ar baixaram enormemente, alguma bicharada visitou cidades e vilas, as ervas rebentaram nas calçadas mais turísticas do mundo, etc. No Dia Mundial da Terra (22 de abril), as tvs abriram e fecharam noticiários com reportagens deliciosas a mostrar a beleza que o planeta recuperou, mesmo que o balanço dos últimos tempos fosse negativo. Disse o Papa: ‘Por causa do nosso egoísmo, falhamos o compromisso de cuidar da terra’. Disseram os mais optimistas que o mundo estava a mudar, que nada seria como antes, que opções ecológicas iriam salvar o mundo, após esta experiência covidiana.

Mas a verdade é que os grandes deste mundo querem fazer uma viagem de regresso ao passado poluidor e destruidor da mãe natureza e dos seres humanos mais frágeis, sem mudar uma vírgula nas práticas que conduziram o mundo à boca do abismo. E o pior é que a crise económica profunda que o covid gerou vai obrigar a recuar em decisões históricas como aquela que fora tomada pela União Europeia em dezembro passado e que parecia ser uma excelente prenda de natal: o pacto ecológico europeu. A Presidente da Comissão Europeia pediu, nessa altura, que mudássemos o estilo de vida para protecção do ambiente para que a Europa seja o primeiro continente a atingir o nível da neutralidade carbónica! Ora, isso parece que irá pela água abaixo! Este ‘Green Deal’ tem poucas pernas para andar, mas foi resultado de um longo caminho na tentativa de salvar o planeta.

Está assim tudo virado do avesso, tudo perdido, depois de um covid que até provou que poderíamos viver de outra maneira? Não quero crer. E acredito num futuro mais limpo, mais ecológico, mais fraterno. E louvo a iniciativa do Papa Francisco que criou a Covid19 Vatican Comission para ajudar a Igreja e o mundo a não repetir os erros da crise de 2008, evitando que os pobres sejam sempre os mais atingidos.

Para completar a Laudato Si, chegou antes do covid a ‘Querida Amazónia’ (02.02.20). É fruto de um sínodo, mas também de um longo caminho percorrido e de alertas mundiais que a Laudato Si lançou. Este documento do Papa Francisco assenta em quatro grandes sonhos: um sonho social, um sonho cultural, um sonho ecológico, um sonho eclesial. Diz: ‘O Senhor, que primeiro cuida de nós, ensina-nos a cuidar dos nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá de prenda cada dia’ (QA 41). E termina: ‘Como cristãos, une-nos o mandamento novo que Jesus nos deixou, a busca de uma civilização do amor, a paixão pelo Reino que o Senhor nos chama a construir com Ele. Une-nos a luta pela paz e pela justiça.(…). Como não lutar juntos? (QA 109-110).

Ora, cinco anos depois, a Laudato Si ainda tem mais actualidade: é urgente respeitar a natureza e amar os pobres. Há que investir na globalização da solidariedade.

 

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