Tony Neves

Óscar Romero, Bispo – Missionário, é santo. Posso garantir, pois participei na celebração de canonização aqui na Praça de S. Pedro, em Roma.

Óscar nasceu pobre. Entrou adolescente no Seminário, foi Ordenado Padre. Exerceu o seu ministério sacerdotal num país – o seu, El Salvador – que ia derrapando para uma ditadura que se tornou particularmente agressiva nos finais dos anos 70, quando o mundo já caminhava para um novo milénio. Experimentou, como pároco e capelão de prisão, a miséria mais profunda do seu povo e a barbaridade da governação feita pela ditadura militar do seu país.

Com alguma experiência episcopal, é nomeado Bispo da capital em 1977. O golpe de Estado de 79 agudizou a situação já dramática de El Salvador, pois instalou uma repressão duríssima no país, com muitos assassinatos. A Igreja, a partilhar a vida dos mais pobres, também não foi poupada nesta onda de morte e dois dos padres da Diocese seriam barbaramente assassinados por terem acolhido agricultores que se refugiaram nas suas paróquias. D. Óscar, como pastor e pai, saiu em sua defesa, denunciando as barbaridades do governo e exigindo liberdade e respeito pelos direitos humanos. Assim se poria a jeito para que houvesse um ‘acidente’ a qualquer momento. Seria assassinado quando presidia à Missa na Capela do Hospital, com doentes oncológicos e seus enfermeiros. Levou um tiro de um atirador profissional naquela manhã de 24 de Março de 1980!

A sua morte, que pretendia remete-lo ao silêncio e aumentar o pânico nos contestatários do regime, obteve um efeito contrário. El Salvador passaria para as bocas do mundo e o regime militar desacreditado. A coragem profética de D. Óscar Romero deu força a quantos, por essa América acima e abaixo, lutavam contra ditaduras que perpetuavam e aumentavam a pobreza das populações.

D. Pedro Casaldáliga, bispo-poeta claretiano no Brasil, escreveu, por ocasião do martírio, um longo poema que conclui assim: ‘Soubeste beber o duplo cálice do Altar e do Povo com essa mesma mão consagrada ao serviço. A América Latina já te elevou à glória de Bernini(…). S. Romero da América, pastor e mártir nosso, ninguém há-de calar a tua última homilia’.

D. Pedro seria profeta ao escrever este texto em 1980. D. Óscar Romero, depois de beatificado, seria este domingo (14 de outubro) ‘elevado à glória de Bernini’ (ou seja, canonizado), em pleno mês missionário e durante o Sínodo sobre os Jovens. O Papa Francisco elevou-o aos altares, juntamente com o Papa Paulo VI e outros modelos de vida e de missão.

Referência obrigatória para a América Latina, é-o agora também para o resto do mundo. O seu estilo de vida simples, de pastor capaz de dar a vida pelas suas ovelhas, constitui inspiração para quantos querem ver o Evangelho praticado e os direitos humanos respeitados.

 

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