Tony Neves, no Porto

Quando acordei para o Mia Couto já o sol ia alto. Ou seja, ele já tinha publicado muitos e bons livros, marcados por uma criatividade que, para mim, foi amor literário à primeira vista. Depois, passei a vida a correr atrás do prejuízo, lendo as obras mais antigas. Das que ele publicou nos últimos anos, nem sequer ousei perder uma única linha.

Como as férias ‘ameaçam’ e ler faz bem à inteligência (faz muito mal à ignorância!), fui à procura das notas de leitura das suas cinco últimas obras. Depois de fazer cortes e mais cortes nos recortes de texto que escrevo durante as leituras, decidi-me por um comentário mais longo, partido em três, uma espécie de trilogia, para imitar este autor moçambicano, Prémio Camões e muitos mais.

Mia Couto decidiu avançar para um novo estilo de escrita com ‘As Areias do Imperador’, a trilogia que romanceia as origens ancestrais do seu país natal. Publicou em 2015 o primeiro livro com o sugestivo título: ‘Mulheres de Cinza’. Eis alguns dos meus recortes:

‘Mastigar o silêncio como se fosse um fruto amargo’ (p.48); ‘O pior modo de perder uma guerra é esperar eternamente que ela aconteça’ (p.67); ‘A diferença entre a guerra e a paz é a seguinte: na guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na paz, os pobres são os primeiros a morrer. Para nós, mulheres, há ainda uma outra diferença: na guerra passamos a ser violadas por quem não conhecemos’ (p.125); ‘A guerra tinha-lhe entrado na cabeça, apagando-lhe os olhos por dentro’ (p.139); ‘Nasci e vivi entre sombras. A minha casa tinha o cheiro e o silêncio de um orfanato. Eu tinha tudo para ser um bom soldado’ (p.154); ‘A nossa indigência era o melhor escudo contra os agressores. Ninguém ataca quem não tem nada’ (p.159); ‘O pior do passado é o que está ainda para vir’ (p.163); ‘Ninguém tem mais poder que o medo’ (p.258); ‘Na língua dos zulus, ‘voar’ e ‘sonhar’ se diz com o mesmo verbo’ (p.273); ‘A generosidade de uma família mede-se pelo modo como acolhe os seus hóspedes’ (p.279); ‘Todos neste mundo somos descendentes de escravos ou donos de escravos’ (p.284); ‘A crueldade de uma guerra não se mede pelo número de campas nos cemitérios. Mede-se pelos corpos que ficam sem sepultura’ (p.297); ‘A maior ferida da guerra é não deixarmos nunca de buscar os corpos de quem amamos’ (p.298); ‘Eis o que faz a guerra: a gente nunca mais regressa a casa. E não há leito, não há ventre, não há sequer ruína a dar chão às nossas memórias’ (p.302).

Em 2016, Mia Couto avança para a publicação do livro dois: ‘A Espada e a Azagaia’. Destaco: ‘Foi isso que nem católicos nem protestantes entenderam: que em África os deuses dançam. E todos cometeram o mesmo erro: proibiram os tambores’ (p.65); ‘Quantas guerras há dentro de uma guerra? Quantos ódios se escondem quando uma nação manda os seus filhos para a morte?’ (p.106); ‘Bem sabe que essa é a natureza humana. Temos memória é para esquecer as nossas culpas’ (p.115); ‘Tentei pedir socorro, mas a boca não me chegou às palavras’ (p.116); ‘O pior sofrimento não é ser derrotado. É não poder lutar’ (p.125); ‘Não conheço mais eficiente triturador da alma: o ciúme é um moinho de vento que gira sem que haja nenhuma brisa’ (p.139); ‘Princípio: na guerra, quem tem pressa morre depressa’ (p.151); ‘Quem chega da guerra tem muito para esquecer’ (p.216); ‘as guerras são tapetes. Por debaixo deles se ocultam as imundícies dos poderosos’ (p.224); ‘Como poderemos empreender uma guerra se desconhecemos a fronteira que nos separa dos inimigos?’ (p.318); ‘O medo faz o pouco ser muito. E faz o tudo ser nada’ (p.319); ‘A paz não nasce por se vencer um adversário. A verdadeira paz consiste em nunca chegar a ter inimigos’ (p.341); ‘Sobejar? Esse verbo já não se conjuga em português’ (p.355); ‘A dificuldade estava nos generais que o rodeavam: a guerra podia ser arriscada, mas era a sua fonte de riqueza’ (p.410); ‘Quem foge não quer apenas sair de um lugar. Quer que deixe de haver lugares’ (p.431).

Como nas telenovelas, deixamos o auditório suspenso quando apontamos para as cenas do próximo capítulo e nos despedimos. Para a próxima semana, avançamos para o último livro desta trilogia de Mia Couto, com o titulo ‘o bebedor de horizontes’.

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