Tony Neves, em Roma

Foto: Vaticano media

O Papa Francisco visitou o Cazaquistão de 13 a 15 de setembro. Percorreu passos já palmilhados por João Paulo II, mas foi lá por uma razão especial: ‘o VII Congresso dos Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais’. Este país, que pertenceu à ex-União Soviética, tem uma história muito sofrida, mas desafiante. Já João Paulo II, há 20 anos, dizia: ‘Cazaquistão, terra de mártires e cristãos, terra de deportados e heróis, terra de pensadores e artistas, não tenha medo!’.

Limitado pela sua deslocação em cadeira de rodas, o Papa Francisco cumpriu integralmente o programa. Começou com o encontro com as autoridades, sociedade civil e diplomatas a quem se apresentou como ‘peregrino de paz à procura de diálogo e de unidade. Disto, tem urgente necessidade o nosso mundo: precisa de voltar a encontrar harmonia’. Olhando para a história desta terra e deste povo, o Papa Francisco abriu portas à esperança: ‘Nesta terra, percorrida desde a antiguidade por grandes deslocamentos de povos, a recordação do sofrimento e das provações vividas seja uma bagagem indispensável para se encaminhar para o futuro, colocando em primeiro lugar a dignidade do homem, de cada homem e de cada grupo étnico, social, religioso’. Este país-ponte entre a Europa e a Ásia, faz dele ‘um laboratório multiétnico, multicultural e multirreligioso único, revelando a sua peculiar vocação que é a de ser país do encontro’. No fim, fez uma apelo à democracia como ‘resposta mais eficaz a possíveis extremismos, personalismos e populismos, que ameaçam a estabilidade e o bem-estar dos povos. Penso também na necessidade duma certa segurança económica, que foi invocada, ao início do ano, aqui em regiões onde, apesar dos consideráveis recursos energéticos, várias dificuldades se fazem sentir. É um desafio que diz respeito não só ao Cazaquistão, mas a todo o mundo, cujo desenvolvimento integral se vê refém duma generalizada injustiça, aparecendo distribuídos de forma desigual os recursos. E é missão do Estado, mas também do setor privado, tratar todas as componentes da população com justiça e igualdade de direitos e deveres, e promover o desenvolvimento económico, não com base no lucro de poucos, mas na dignidade de cada trabalhador’.

O ponto alto foi o Congresso dos Líderes Religiosos. No seu discurso, o Papa Francisco pediu: ‘chegou a hora de despertar daquele fundamentalismo que polui e corrói toda a crença, chegou a hora de tornar límpido e compassivo o coração’ (…).’Condição essencial para um desenvolvimento verdadeiramente humano e integral é a liberdade religiosa’(…). ‘é direito de cada pessoa prestar testemunho público da sua própria crença: propô-lo, sem nunca o impor. É a prática correta do anúncio, diferente daquele proselitismo e doutrinamento de que todos são chamados a manter-se distantes’. Os líderes religiosos têm de ser ‘artesãos da comunhão’: ‘testemunhas duma colaboração que supere as barreiras da própria pertença comunitária, étnica, nacional e religiosa. Mas como empreender uma missão tão árdua? Donde começar? Da escuta dos mais vulneráveis, de dar voz aos mais frágeis, de fazer-se eco duma solidariedade global que diga respeito em primeiro lugar a eles, aos pobres, aos necessitados que mais sofreram com a pandemia, tendo esta posto prepotentemente a descoberto a iniquidade das desigualdades no planeta’. Acrescentou: ‘Aquilo que vos proponho não é apenas um caminho para ser mais sensíveis e solidários, mas um percurso de cura para as nossas sociedades’.

A Paz tem de abrir as portas ao acolhimento fraterno e à guarda da casa comum: ‘Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra. Por isso empenhemo-nos ainda mais a promover e reforçar a necessidade de que os conflitos sejam resolvidos não com as razões inconclusivas da força, com as armas e as ameaças, mas com os únicos meios abençoados pelo Céu e dignos do homem: o encontro, o diálogo, as negociações pacientes, que se levam por diante a pensar particularmente nas crianças e nas jovens gerações’(…). ‘Ao irmão migrante, é preciso recebê-lo, acompanhá-lo, promovê-lo e integrá-lo’.

No encontro com sacerdotes e outros agentes da pastoral, o Papa recordou-lhes:  ‘a promessa de vida e de bênção que Deus Pai derrama sobre nós por meio de Jesus realiza-se sempre que vivemos a fraternidade entre nós, que cuidamos dos pobres e de quem está ferido na vida, sempre que testemunhamos a justiça e a verdade nas relações humanas e sociais, dizendo «não» à corrupção e à falsidade. Que as comunidades cristãs, em particular o Seminário, sejam «escolas de sinceridade»: não ambientes rígidos e formais, mas ginásios de treino para a verdade, a abertura e a partilha. E recordemo-nos de que, nas nossas comunidades, somos todos discípulos do Senhor: todos discípulos, todos essenciais, todos com igual dignidade’.

A Declaração Final do Congresso abre as portas a um mundo de mãos dadas, solidário, justo, pacífico e atento à defesa da Terra, a nossa Casa Comum.

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