Tony Neves, em Roma

2020 nasceu com esperança. Para que o mundo tenha futuro, acho importante ler e tomar a sério as propostas que o Papa Francisco fez. E devemos começar por uma intervenção que até parece que não nos diz respeito: o discurso à Cúria Romana. Ele começou por dar voz a um santo do ano 2019, o Cardeal Newman, inglês, que define a perfeição como o resultado de muitas transformações, fazendo, deste modo, apelo à conversão constante, pois a vida – segundo ele – é um caminho, é uma peregrinação.

O Papa continua a sua reflexão lembrando aos cardeais e ao mundo que já não vivemos numa época de mudanças mas uma mudança de época. Então – é fácil concluir – não há razões para continuar a apostar no ‘sempre se fez assim’, fechando-se num conservadorismo entrincheirado atrás de um conceito de tradição e de memória que não abrem qualquer espaço à mudança e à criatividade do Espírito. O Papa pede paciência e quer que olhemos para a tradição como algo dinâmico, em movimento, garantia de futuro.

A tão falada ‘reforma da Cúria Romana’ assenta numa conversão pastoral que faça a Igreja mais missionária, daí que o documento que a vai tornar oficial terá o nome de ‘Anunciai o Evangelho’. É que – como diz o Papa – já acabou há muito o tempo da cristandade e todo o mundo é espaço de missão.

Neste discurso, o Papa – olhando para os novos tempos que vivemos – aproveita para explicar aos cardeais que é urgente mudar muitas estruturas para que a vida e a missão também sejam mais actuais. E fala da evangelização dos povos, da comunicação, do desenvolvimento integral, da opção por todos os descartados deste mundo, da importância de se trabalhar em rede, em sinergia. Diz que a humanidade toda chama hoje a Igreja a sair, a não temer a mudança. A Igreja tem de despertar consciências adormecidas na indiferença aos grandes dramas dos mais pobres.

Os desafios novos não podem destruir a missão nem a comunhão da Igreja. Por isso, as mudanças devem ser muito estudadas, rezadas, ponderadas e implementadas por todos. Há uma tensão natural entre um passado glorioso e um futuro criativo. E é possível – e urgente – construir este ponte, pois há sempre a tentação de se retirar para o passado, porque é mais cómodo, tranquilizador, conhecido e, certamente, menos conflituoso. Atitudes de paralisia e rigidez nascem do medo das mudanças e geram ódio e incapacidade de comunicar e avançar rumo ao futuro. Há que abandonar os tradicionais espaços de conforto e segurança para que o Espírito tenha vez e voz nas propostas de mudança que a todos quer fazer para que o nosso coração bata ao ritmo do coração de Deus.

Por fim, o Papa Francisco explica-nos que a Cúria Romana é um corpo vivo que deve viver sempre mais e melhor a integralidade do Evangelho.

A Igreja não pode deixar-se matar pelo cansaço, pelo medo e pela arrogância. Mas deve abrir-se à novidade do Espírito com paciência, fé, coragem e compromisso.

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