Tony Neves, em Roma

O XXI Capítulo Geral dos Espiritanos fechou as portas. Foram avaliados os últimos 9 anos de Missão, eleitos o Superior Geral e seu Conselho e aprovados os documentos capitulares que vão inspirar a Missão nos próximos oito anos. Missão cumprida, futuro rasgado. Reconheço que foram dias muito intensos de trabalho, mas a fraternidade vivida, a partilha frontal, mas fraterna e a vontade de escutar o Espírito foram imagens de marca deste Capítulo.

Após 24h de viagem, cheguei a Roma, mas a Tanzânia ficou-me, mais uma vez, gravada no coração. Há palavras que ouvi dezenas de vezes e não vou esquecer: karibu (benvindo), jambo (bom dia), assante sana (obrigado), safari, Serengeti, Kilimanjaro, Ngorongoro, Zanzibar, hakuna matata (não há problema!). E há, sobretudo, rostos e sorrisos que é preciso guardar para sempre.

Bagamoyo foi a primeira capital do império alemão na África oriental, a partir de 1888. Ali tinham chegado os Espiritanos em 1868, idos de Zanzibar, com a delicada Missão de libertar e evangelizar os escravos. Esta seria a primeira Missão Católica na parte continental da África de Leste, sendo reconhecida como a Igreja Mãe. Um local de visita obrigatório (porque permite um encontro com a história) é o Museu de Bagamoyo onde está escrito que, entre 1870 e 1879, os Espiritanos resgataram 1238 escravos e acolheram-nos na Missão, sobretudo os mais velhos e doentes que não tinham família. E a coragem missionária dos Espiritanos (como das irmãs Filhas de Maria) está bem patente nas placas do cemitério local onde jazem mais de uma quarentena de Missionários que ali deram a vida, muitos deles vítimas de doenças tropicais, tendo falecido com 30 e 40 anos! Daí a celebração que o Capítulo Geral fez neste lugar simbólico.

Logo em 1892, os alemães decidiram mudar a capital para Dar Es Salam, a 80 kms a sul de Bagamoyo. Esta cidade foi conquistada pelas tropas inglesas em 1916. Com a derrota na 1ª Guerra Mundial, a Tanzânia continental (com o nome de Tanganica) tornar-se-ia colónia inglesa por decisão do Tratado de Versalhes (1919).

A independência da Tanganica foi a 9 de dezembro de 1962, sendo Julius Nyerere o primeiro Presidente. No Museu de Bagamoyo, há uma grande foto em que aparece o presidente com alguns padres Espiritanos, pois ele foi aluno num dos Colégios fundados pela Congregação. Zanzibar tornar-se-ia independente em 1963 como Monarquia Islâmica, mas iria unir-se à Tanganica a 26 de abril de 1964, para formar a República Unida da Tanzânia. Hoje, a Tanzânia é um país de maioria muçulmana onde os cristãos e outros grupos religiosos vivem em paz, num ambiente de diálogo respeitoso, sendo um exemplo para muitos países onde a liberdade religiosa e o pluralismo democrático não se respeitam.

A par destas lições de diálogo inter Religioso e de democracia política, salienta-se a abertura aos estrangeiros, uma opção que tem sido muito rentável, porque o turismo se tornou uma grande fonte de receita. Estranhei que o grande avião que me levou à Tanzânia fosse cheio de turistas. Mas o monte Kilimanjaro, a Ilha de Zanzibar, os grandes parques do Serengeti ou do Ngorongoro (para safaris) atraem milhões de pessoas vindas do mundo inteiro. O país é belíssimo, é seguro e tem um povo acolhedor.

Dar Es Salam deixou de ser capital política em 1974 (a capital é Dodoma), mas continua com as estruturas de governo. É a quarta maior cidade de África (depois do Cairo, Kinshasa e Lagos). Atravessá-la leva tempo, dada a dimensão e o tráfico. Tive a oportunidade de atravessar o enorme campus da Universidade estadual (uma cidade dentro de Dar Es Salam), visitar a catedral de S. José, o porto donde partem os barcos para Zanzibar e um dos muitos colégios Espiritanos, a Libermann School, que tem lugar para mais de mil alunos e integra a única escola privada da Tanzânia onde se formam crianças surda-mudas em língua gestual inglesa.

O Capítulo Geral deu-me outras grandes lições. Elegeu primeiro Superior Geral africano (o P. Alain Mayama, do Congo Brazzaville), lançou um grito de alerta contra o clericalismo, reforçou a opção pelos pobres, pela Justiça, Paz, Ecologia Integral e Diálogo Inter Religioso. Também há uma insistência na importância fundamental da fraternidade.

O último dia foi marcado por uma iniciativa ecológica. Foram plantadas diversas árvores no terreno do Seminário Espiritano de Bagamoyo, para reforçar as propostas que o Papa Francisco gravou na sua encíclica social, a ‘Laudato Si’ sobre o cuidado da Terra, a nossa casa comum.

Regressei a Roma, mas a Tanzânia deixou-me grandes lições gravadas no coração.

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