Tony Neves, em Roma

Os governos têm de atacar os males com frontalidade, verdade, competência e coragem. Como celebrámos o 25 de abril e caminhamos para o 1º de Maio, achei ser o momento oportuno para abordar este tema tão atual como desafiante. Há que combater a corrupção, proteger os mais frágeis, reduzir os efeitos negativos da pandemia, abrir novos caminhos de justiça, paz e desenvolvimento.  O Papa Francisco repete este programa político sempre que intervém. Mas a melhor síntese destes valores foi feita com os Diplomatas, olhos nos olhos, mesmo com máscara, naquele 8 de fevereiro no Vaticano. As mensagens foram directas e fortes, como sempre acontece quando o Papa Francisco fala. Começou por defender a importância dos acordos internacionais e do diálogo inter religioso, sempre com a convicção de fundo de que tudo está interligado.

Claro que a covid foi tema obrigatório e o Papa lamentou que a pandemia tenha ainda agravado mais as crises climática, alimentar, económica e migratória. E foi sobre estas crises que o Papa se debruçou durante o discurso. Pediu – no que respeita à crise sanitária – o acesso universal aos cuidados básicos de saúde e à vacina que é preciso distribuir pelo mundo de forma equitativa.

A crise ambiental também mereceu avisos e sugestões. Sucedem-se as catástrofes naturais, desde secas a inundações e incêndios, com consequências na insegurança alimentar de milhões de pessoas, sobretudo crianças e idosos, os mais frágeis.  A crise pandémica veio agudizar o drama das pessoas que viviam à margem da economia formal, tirando o pão da boca e atirando muita gente para os mundos depravados do trabalho ilegal ou forçado, da prostituição e de outras atividades criminosas, incluindo o tráfico humano.

Há que estar atento ao mundo digital em tempos de confinamento. Muita gente é presa fácil da criminalidade informática que é urgente combater.

Pondo dedos em feridas muito dolorosas, o Papa fala de crises humanitárias graves como as que se vivem no Tigray, em Cabo Delgado, no Iémen ou na Síria, para apenas referir algumas das situações que fazem milhões de vítimas. Nota-se um aumento do número de migrantes, deslocados e refugiados que exigem uma solução humanitária internacional, para que sejam apoiados e acolhidos.

A crise política vê-se na incapacidade de encontrar soluções comuns e partilhadas para os problemas que nos afligem – diz o Papa. Há que apostar mais num diálogo que seja inclusivo, pacífico, construtivo e respeitoso entre todas as pessoas e instituições. Há que favorecer, a nível internacional, a paz e o desenvolvimento, sem medo de fazer reformas que exigem mudança de atitudes e de mentalidade.

Há armas a mais! É encorajador o sinal dado com a entrada em vigor do Tratado para a Proibição das Armas Nucleares, mas é preciso ir mais longe e mais fundo e acabar com os grandes focos de conflito. O papa deseja que 2021 seja marcado pelo fim da guerra na Síria e pelo entendimento entre Israelitas e Palestianos no Médio Oriente. Também pede paz e diálogo para Líbia, a República Centro Africana, a Península da Coreia, o sul do Cáucaso e outras situações de conflito na América Latina e na África. Pede ainda o fim do grave flagelo do terrorismo que nem sequer tem poupado lugares de culto, onde se encontram fiéis em oração.

Para completar esta reflexão sobre as crises da actualidade, o Papa debruça-se sobre uma que o preocupa muito: a crise dos relacionamentos humanos, expressão de uma crise antropológica geral, que tem a ver com a própria concepção da pessoa humana e da sua transcendente dignidade. Abordou ainda a delicada questão da Escola, pedindo mais e melhor educação pois, segundo o Papa, o mundo vive numa espécie de ‘catástrofe educativa’ agudizada pela pandemia que fechou muitas escolas e impôs a educação à distância.

Os confinamentos permitiram a muitas famílias passarem mais tempo juntos. Se foi bom para as que aprofundaram a relação entre os seus membros sempre tão dispersos e ausentes, também trouxe males ao criar condições favoráveis a mais violência doméstica.

O Papa lembrou ainda aos diplomatas a importância da liberdade religiosa e de culto, pedindo que nenhum governo se aproveite da pandemia para impedir as celebrações ou condiciona-las apenas por razões de ordem ideológica, pois o bom cuidado do corpo nunca pode prescindir do cuidado da alma.

A última palavra é de esperança e de apelo à construção de um mundo justo e sem fronteiras. O Papa pede que a fraternidade seja o verdadeiro remédio para a pandemia e os inúmeros males que nos atingiram. Diz: ‘Fraternidade e esperança são remédios de que o mundo precisa, tanto como as vacinas’.

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