Tony Neves, em Roma

O Concílio Vaticano II abriu as portas em 1962 e, logo no ano seguinte, publicou um Decreto sobre os Meios de Comunicação Social (Inter Mirifica – em latim). Desfazia-se um longo divórcio entre a Igreja e os Media, ao dizer-se que os Meios de Comunicação Social (assim chamados, pela primeira vez neste documento Conciliar!) eram maravilhosos, desde que postos ao serviço da verdade e do bem comum. O Concílio fechou portas em 1965 e, dois anos depois, o papa Paulo VI lançou o Dia Mundial das Comunicações Sociais, escrevendo a primeira Mensagem em 1967. Esta onda não parou mais e, nesta Solenidade da Ascensão, vamos celebrar já a 66ª Jornada Mundial.

Percorri, uma por uma, as 66 mensagens publicadas por Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Elas traduzem as preocupações do momento e lançam alertas sobre as potencialidades e os riscos da utilização dos media e das tecnologias da comunicação. Com o aparecimento da internet, das redes sociais e de milhares de aplicações, o universo da comunicação mudou radicalmente e as últimas mensagens traduzem bem este novo mundo em que nos movemos.

O papa Francisco, na mensagem para este ano, escolhe um tema muito original e pleno de desafios: ‘Escutar com o ouvido do coração’. Acompanhemos a sua reflexão. Deus escuta o povo e os seus gritos. Nós, humanos, nem sempre. Diz: ‘tendemos a fugir da relação, a virar as costas e ‘fechar os ouvidos’ para não termos de escutar. Esta recusa de ouvir acaba muitas vezes por se transformar em agressividade sobre o outro, como aconteceu com os ouvintes do diácono Estevão que, tapando os ouvidos, atiraram-se todos juntos contra ele’ (cf Act 7,57)’.

Para o Papa, ‘a escuta é uma dimensão do amor’ e todos temos que verificar a nossa capacidade de escutar pois, ‘só prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos, é que podemos crescer na arte de comunicar’.

Há muitas formas de escutar, mas a ‘verdadeira sede da escuta é o coração’ e não há comunicação séria sem capacidade de escuta. Também não podemos usar as tecnologias da comunicação só para proveito próprio: ‘uma tentação sempre presente, mas que neste tempo das redes sociais parece mais assanhada, é a de procurar saber e espiar, instrumentalizando os outros para os nossos interesses’. A verdade é que ‘em muitos diálogos, efectivamente, não comunicamos; estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor o nosso ponto de vista’. Caímos muito na tentação do ‘monólogo a duas vozes’, aquilo a que Abraham Kaplan chama ‘duólogo’. Há que dar passos em frente e atingir a verdadeira comunicação onde ‘o eu e o tu se encontram ambos ‘em saída’, tendendo um para o outro’.

A escuta é uma exigência do diálogo e da boa comunicação. É urgente ouvir várias vozes para ‘exercitar a arte do discernimento que se apresenta sempre como a capacidade de se orientar numa sinfonia de vozes’.

A pandemia que o mundo sofre e a realidade dolorosa e desafiante das migrações estão diante de todos. Ao escutar as pessoas que tudo fazem para chegar até nós, ‘teremos diante dos olhos, não números nem invasores perigosos, mas rostos e histórias de pessoas concretas, olhares, expectativas, sofrimentos de homens e mulheres para ouvir’.

A última palavra do Papa é um apelo a nos escutarmos uns aos outros em Igreja. Na pastoral, ‘ a obra mais importante é o ‘apostolado do ouvido’’. O processo sinodal em curso é uma ocasião soberana de escuta recíproca para conseguirmos compreender o que Deus nos quer dizer hoje e que caminhos novos nos quer apontar.

Lembra o papa, a concluir esta mensagem: ‘Cientes de participar numa comunhão que nos precede e inclui, possamos descobrir uma Igreja sinfónica, na qual cada um é capaz de cantar com a própria voz, acolhendo como dom as dos outros, para manifestar a harmonia do conjunto que o Espírito Santo compõe.

O Dia Mundial das Comunicações Sociais é a Solenidade da Ascensão, este ano a celebrar a 29 de maio. Na primeira leitura da Missa, Cristo pede aos Apóstolos que sejam testemunhas dEle até aos confins da Terra. A Missão foi, é e será sempre anunciar a Boa Notícia de que Cristo está vivo e quer que todos vivam em abundância. Este é o maior desafio da história e torna-se cada vez mais actual e mais urgente.

 

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