Tony Neves, em Cabo Verde

Cabo Verde acolheu-me com a ‘morabeza’ do costume, aquele acolhimento de braços abertos que só em família se faz.

Fiquei marcado pelas três instituições que estão na Trindade: o Hospital Psiquiátrico, a Prisão e a Fazenda da Esperança. Com o P. António Honorato, capelão, visitei a Prisão. Longe de tudo, numa área por onde a seca de três anos passou e deixou rasto, há edifícios enormes que acolhem mais de um milhar de reclusos, homens e mulheres. Entramos, conversamos, celebramos. Primeiro com as mulheres, depois com os homens. Uma multidão de vozes afinadas a cantar, em tempo de afinar também vidas marcadas por acontecimentos menos bons. O P. António tem uma coração grande e vê-se que é querido e respeitado por todos naquele estabelecimento prisional.  A visita à Fazenda da Esperança tomou-nos uma tarde e uma noite. O P. António passou primeiro pela aldeia de João Varela, terra seca e devorada por gafanhotos, na grande praga de Setembro passado. Não se vê uma palha seca em toda a extensão, só mesmo as acácias (espinheiros, como lhe chamam o povo) resistiram. Ali apanhamos três senhoras e algumas panelas e sacos, rumando para a Fazenda da Esperança. Este projecto católico brasileiro, tenta recuperar dependentes químicos (drogas, álcool…) através da fraternidade, da oração e do trabalho. O P.Ronaldo, director, acolheu-nos, mostrou-nos os espaços da obra, celebramos eucaristia e jantamos com os acolhidos (assim se chamam…), partilhando o que as senhoras trouxeram como oferta da aldeia. Naquela ausência absoluta de verde, marcou-me o bom ambiente entre todos e o ar de futuro que ali se respira. A obra tem dois anos e já ‘recuperou’ cerca de 40 homens que, estando já integrados nas suas famílias, dão provas de não voltar aos erros antigos.

Pedra Badejo, a uns 30 kms da capital, acolheu-me para uma semana de intensa missão. Percorri, com os Padres Gil Losa e Simão Varela, muitas comunidades, visitei a Escola Secundária que tem mais de 2 mil alunos, sempre com sessões sobre justiça, Paz, ecologia integral e diálogo entre Religiões. Gostei de sentir que são temas que marcam a actualidade e que cativam os mais jovens. Mas tive, igualmente, a felicidade de percorrer algumas das ribeiras para celebrações e visitas. As Festas da Sra de Lourdes e de S. Cristóvão levaram-me à Ribeira Seca e à Ribeira Riba onde pude perceber o drama do povo do interior com a falta de chuva dos últimos três anos. Está tudo seco. Também pude visitar duas pequenas explorações agrícolas onde há ainda alguma água. Aí tudo produz: bananas, cana de açúcar, mandioca, coqueiros… um pequeno paraíso terrestre neste terra a chorar e a rezar por chuva.

Impunha-se ir até ao Tarrafal. Levou-me lá o P. Raul Lima, pároco de S. Lourenço dos Órgãos. Subimos à Assomada (Santa Catarina), continuamos para a Serra da Malagueta e descemos ao Tarrafal. Sabe bem mergulhar naquelas águas quentes e calmas, numa das raras praias de areia branca da Ilha de Santiago. Mas dói voltar àquele que foi um terrível campo de concentração, sobretudo na sua primeira fase de funcionamento, de 1936 a 1956, com presos políticos portugueses. Nos calores do Tarrafal, o castigo máximo era ir para a ‘frigideira’, um espaço pequeno e fechado que atingia temperaturas insuportáveis. Reaberto em 1962 para activistas das colónias que lutavam pela independência, fechou após o 25 de Abril de 1974. Continua a ser um lugar de dura memória a evocar tempos em que a liberdade e a democracia eram miragem e objectivo.

O caminho de regresso a Pedra Badejo foi pela estrada da Calheta de S. Miguel, o que me proporcionou dar a volta completa à Ilha capital. A paisagem mostrava mar calmo e azul à esquerda, e terra seca e montanhosa à direita, só alterada com o aparecimento de pequenas ou grandes povoações que fazem de Santiago a Ilha com mais povo.

A Calheta de S. Miguel e as suas povoações e ribeiras tomam conta da minha última semana que concluirá com o encontro dos Padres da Diocese e dos Jovens Religiosos e Religiosas. Depois, impõe-se o regresso a Roma e a ‘digestão’ de tanta ‘morabeza’, neste país pobre e feliz que viu a ‘morna’ tornar-se património imaterial da humanidade.

 

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