Tony Neves

Estava eu no Huambo, um ano e tal depois da grande Batalha dos 55 dias que arrasou a cidade, quando tive uma visita inesperada. Era um responsável de uma organização humanitária internacional de grande prestígio. Conversamos muito sobre a dramática situação do povo e, lá quase no fim de uma conversa muito frontal, ele disparou: ‘Não sou crente, mas tenho de reconhecer: aqui, no Huambo, quem faz trabalho humanitário a sério é a Caritas! Nós somos todos aves de arribação!’. Achei piada à expressão, mas fiquei honrado com esta partilha. E, vendo ele o meu espanto estampado no rosto, explicou: a Caritas estava antes da guerra, esteve durante a guerra e vai ficar depois da guerra. É liderada por gente de cá que conhece como ninguém a situação real do povo e sabe como intervir. Nós chegamos agora, tivemos de montar uma grande máquina, não conhecemos o terreno, passa-nos ao lado a cultura do povo, vamos intervir e, depois, fazemos as malas e regressamos a casa!

Ao longo da minha já vasta experiência missionária tenho reflectido muito sobre esta conversa. É fundamental ‘jogar em casa’, perceber a alma de um povo, nada fazer sem o envolver e, sobretudo, há que dar continuidade a todos os projetos, em todas as fases. Ora, tal como aconteceu no Huambo, vai acontecendo assim em todo o mundo onde a Caritas intervém. O espaço lusófono não é excepção.

Tudo isto a propósito do Dia da Caritas que, em Portugal, se celebra a 24 de Março. A opção pelos pobres obriga a institucionalizar o exercício da caridade. Esta tem que ser cada vez mais um procedimento de continuidade e não apenas reservada a intervenções pontuais. Tem de ser algo a olhar para dentro, sem nunca esquecer os outros que estão fora do arco da nossa geografia. E, a este título, a Caritas portuguesa tem sido notável pelo apoio que vai dando, em todo o mundo, como resposta a situações que exigem intervenções de urgência, mas também apoiando projetos de desenvolvimento.

Foi escolhido um tema que é provocação. Até podemos perguntar: o que tem a ver a Caritas com o slogan ‘Juntos numa só família humana’? Acho que todos encontraremos respostas à altura da missão desta grande instituição que abrange o país inteiro, sobretudo a partir das realidades paroquiais e diocesanas. Primeiro – diz o tema – há que estar juntos, com os desafios que a comunhão lança às pessoas, comunidades e instituições. Recordo-me sempre de Claire Lispector: ‘sozinho eu vou mais rápido, mas juntos vamos mais longe!’. É mesmo assim que eu compreendo o lema dos Antigos Alunos dos Seminários do Espírito Santo (ASES) que diz em latim: ‘triplex funiculus difficile rumpitur’…isto pode ser traduzido por ‘o fio triplo é difícil de romper’!  A Caritas vai mais longe e mais fundo quando fala de família, com tudo o que este conceito implica: amor, projeto de vida, preocupação por todos, ajuda mútua, partilha de alegrias e de angústias e tudo o mais que a nossa experiência familiar nos ajude a acrescentar.

Celebrar o Dia da Caritas é apostar no amor como o motor da história, o gerador da fraternidade, a construção de um mundo mais humano. Apoiemos, sejamos mais ‘Caritas’!

 

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