Tony Neves, em S. Paulo

Cheguei ao Brasil onde me sinto sempre em casa. Não é só a língua e uma longa história comum que nos une. A ideia de que ‘Deus é brasileiro’ também não me faz muita mossa. Mas a verdade é que somos mesmo irmãos, apesar de tudo o que nos possa ter separado ao longo de uma história cheia de altos e baixos, de vitórias e de fracassos, numa relação tensa entre a colónia e a terra colonizada.

Cheguei às terras de Vera Cruz para participar num Simpósio que reúne responsáveis de toda a América Latina onde os Missionários Espiritanos trabalham. O objetivo é claro, mas não fácil: avaliar os últimos sete anos de Missão Espiritana no continente e apontar estratégias de futuro para os oito anos que aí vêm. Missão quase impossível – diriam alguns mais pessimistas – mas não, porque o Espírito continua a soprar e a abrir as portas ao futuro.

Mas antes do Simpósio, estou a visitar as nossas linhas da frente da Missão, sobretudo o trabalho pastoral e social que fazemos nas favelas ou outras periferias pobres e excluídas das grandes cidades. Assim, com o P. Assis, cabo-verdiano, visitei a grande favela Vila Prudente, onde a miséria é muita e as soluções quase inexistentes. O povo vive em condições desumanas e a violência tomou conta da favela. Estar do lado dos mais pobres e lutar por mais dignidade e respeito dos direitos humanos é missão de alto risco que os Espiritanos assumem há muitos anos nesta comunidade das periferias abandonadas de S. Paulo.

Também acompanhei o P. Elson, Espiritano cabo-verdiano, na sua nova Paróquia, nestas periferias de S. Paulo. Não se chama favela, mas é um bairro social periférico com muitos problemas sociais e poucas soluções à vista.

Finalmente, pude rumar a norte e ir até à periferia explosiva do Rio de Janeiro na tão falada Baixada Fluminense. Ali, desde há muitos anos, os Espiritanos animam a comunidade paroquial de Queimados. Os três portugueses que lá estão têm entre setenta e muitos e noventa e alguns anos, com décadas de presença missionária no Brasil: os Padres Laurindo, Serra e Luis. A Missão é de alto risco e, por isso mesmo, de grande testemunho de entrega a um povo cuja sorte lhe está a passar a lado, ao sentir-se espezinhado e sem perspetivas de futuro risonho.

Muitas nuvens estão a cobrir o céu brasileiro. O novo governo parece não ter um olhar de ternura para com os mais pobres e as questões ecológicas. Vem aí, em outubro, o Sínodo sobre a Amazónia, e também aí há muita coisa em jogo. Diria mesmo, o futuro da humanidade pode estar em causa se continuarmos a achar que os ‘pulmões’ se podem destruir a troco de interesses económicos e empresariais, cedendo a lóbis muito poderosos que só olham para o lucro imediato e para quem as pessoas são só e apenas números de estatística.

Desejo a continuação de um bom tempo de Páscoa onde a Vida deve vencer todas as formas de morte. Aqui no Brasil esse desafio é mais que nunca atual e decisivo. A ‘Ordem e o Progresso’ não podem ficar só escritos na bandeira, têm de traduzir a vida do povo, sobretudo do mais pobres e abandonados.

 

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