Tony Neves, em Assis

Assis. Voltei lá este domingo, 25 de setembro. Não é uma cidade, mas um universo de portas abertas. Ali só consigo chegar como peregrino, nunca como turista. Mas o bom tempo ajuda…

A cidade, plantada numa belíssima encosta, mudou no longínquo século XIII quando um jovem decidiu transformar a sua vida, dando um impulso inicial a uma urgente conversão da sociedade e da Igreja daquele tempo. De facto, na Idade Média europeia, a Igreja mandava tudo, mas o Evangelho parecia ter pouco lugar e impacto, como seria de esperar numa terra tão católica. Subir a Assis é um exercício espiritual que me atrai há muitos anos, desde que tive o privilégio de lá ir a primeira vez.

É muito puro o ar que ali se respira, mas mais ainda o ambiente de fé e fraternidade que a todos abana e inspira.

2013. É uma data que carimba uma enorme viragem na história da Igreja. O Cardeal Bergoglio, eleito Papa, vindo do fim do mundo – a distante Argentina – decidiu abraçar o nome e a coragem profética de São Francisco. Daí para cá, este terra e este Santo adquiririam direito de cidadania em todos os documentos e intervenções papais. Tudo ganharia mais corpo, em 2015, quando o papa publicou a encíclica social ‘Laudato Si’, iniciada com estes palavras que marcam o começo do grande hino das criaturas do Santo da ecologia integral. O coração de toda a Igreja bateria ao ritmo do coração do Irmão da Fraternidade sem fronteiras, o Santa da ‘Paz e Bem’!

Fratelli Tutti. 3 de outubro de 2020 levou o Papa a Assis para assinar umas das encíclicas mais originais e provocadoras da História da Igreja, um documento que não deixou ninguém indiferente.

Não podemos ainda esquecer dinâmicas sociais e eclesiais de grande impacto como ‘a Economia de Francisco’, um compromisso informal inspirado na ‘Alegria do Evangelho’ (2013), onde o Papa diz: ‘Esta economia mata!’ (nº53). Acaba de realizar-se em Assis, de 22 a 24 de setembro,  um evento que reuniu cerca de mil jovens investigadores e empresários, vindos de 120 países, para estudar e ver como pôr em prática uma economia que inclua e humanize. Este grande encontro mundial contou com a presença do Papa Francisco que validou a transformação do compromisso informal em Pacto. Este pede uma Economia do Evangelho e da Paz, ao serviço das pessoas e da Terra, contra a guerra, a injustiça, o descarte e a indiferença. O tema é tão atual e decisivo para o presente e o futuro da humanidade, que será retomado na próxima semana.

Novos Superiores Espiritanos. Esta Congregação Missionária tem cerca de 2500 membros espalhados por mais de 60 países. Os seus Superiores são eleitos ou nomeados cada quatro anos e, no primeiro ou segundo ano de missão, vêm aqui a Roma participar num encontro de 15 dias para formação sobre liderança e partilha de experiências. Ora, nesse contexto, os 17 novos Responsáveis, vindos dos quatro cantos do mundo, peregrinaram a Assis.

Fomos recebidos pelo irmão sol e pudemos ler, à entrada, uma placa que diz ‘Benvindo a Assis, Cidade da Paz’. Passamos diante do Centro de Eventos de Santa Maria degli Angeli onde, na véspera, o Papa Francisco assinou o Pacto de Assis. O autocarro iniciou a subida que nos permitiu chegar à Basílica de S. Francisco.

Tivemos a honra e felicidade de celebrar a Missa numa das Capelas do Convento Franciscano que tem porta de acesso directo ao túmulo do Santo. O P. Marc Botzung, Conselheiro Geral que trabalhou na Mauritânia, lembrou na homilia as linhas de força da intuição missionária de S. Francisco, hoje seguidas de perto pelo papa que escolheu o seu nome. A actualidade do carisma do Santo de Assis – referiu ainda o P. Botzung – mede-se pelos milhões de leigos, padres, Irmãs, irmãos e Bispos que continuam a viver inspirados por ele.

Visitar esta Cidade Santa implica deixar-se deslumbrar. Mas o que mais me marcou foi subir, a partir do claustro do convento franciscano, até ao túmulo de São Francisco, sempre a abarrotar de pessoas que entram pelo interior da Basílica. Lá rezamos e cantamos em coro o ‘Salve Regina’, continuando a subir em direcção à Basílica que é um portento de beleza e um lugar onde se respira silêncio e espiritualidade.

A irmã chuva viria visitar-nos quase no fim da peregrinação, sendo bênção para uma terra em seca severa. Quando se desce da colina sagrada de Assis, sentimos que há um mundo de fraternidade e fé que é urgente reconstruir. Paz e Bem!

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