Tony Neves

A Amazónia montou a tenda em Roma. As penas e as pinturas faciais encheram a Cidade Eterna. Sim, vive-se intensamente este Sínodo sobre a Amazónia e há muitas pessoas que vieram do sul da América para participar neste evento. Uns como ‘padres sinodais’ ou ‘convidados’. Outros para estar nos muitos acontecimentos organizados durante as três semanas sinodais.

Comecei por participar, na Igreja do Espírito Santo, em plena Via della Conciliazione, a dois passos da praça de S. Pedro, na Vigília de Oração, ao ritmo amazonense, na noite que antecedeu a Missa de Abertura. Foi um momento forte de reflexão, oração e partilha, protagonizada por Cardeais, Bispos, Padres, Irmãs e Leigos vindos da Amazónia.

Estive na Basílica de S. Pedro na Missa de Abertura presidida pelo Papa Francisco. Momento alto foi a homilia, cheia de mensagens fortes. Anotei algumas, as que me marcaram mais. O Papa começou por nos atirar para os braços de S. Paulo, a quem chamou o maior missionário da história da Igreja que manda reavivar o dom recebido. O Papa lembrou que os dons nem se compram nem se trocam nem se vendem. Recebem-se e dão-se! Por isso, na Igreja não há lugar para funcionários, mas para servidores e a alegria dos cristãos tem de estar no servir. ‘Reavivar’ é dar a vida a um fogo que não se deve sufocar. E quem alimenta este fogo é o Espírito Santo que não pactua com a timidez e o medo, mas dá prudência para um correcto discernimento. A prudência é audaz para ajudar a renovar a Igreja que não se pode limitar a uma pastoral de manutenção, pois está sempre a caminho, em saída.

O Papa lembrou ainda que S. Paulo pede que os cristãos não tenham vergonha de anunciar o Evangelho. É necessário amar até ao martírio. O Papa Francisco recordou uma conversa tida com o Cardeal Humes, do Brasil. Ele visitou alguns cemitérios na Amazónia onde viu as lápides que mostravam que os missionários chegavam e morriam muito jovens. Concluía o Cardeal que estes mereciam ser todos canonizados, pois deram a sua vida até ao fim pelo anúncio do Evangelho. Conclui o Papa que é urgente olhar juntos para o Cristo crucificado, pois todos são chamados a dar a vida pelos irmãos, como fez Cristo.

Acompanhei, em directo, a Cerimónia de Abertura do Sínodo. Entre os padres Sinodais estão três Bispos Espiritanos que são pastores na Amazónia brasileira: D. Merkl, D. Teodoro e D. Altevir, com quem pude conversar. A Sala Sinodal está decorada com as fotos e os nomes de alguns dos ‘mártires’ da Amazónia. Pediu o Papa que todos deixem o Espírito Santo se expressar na Assembleia Sinodal. Deixou um grito a todos: ‘Não expulsem o Espírito Santo da Sala Sinodal’. E o Papa tentou acalmar quem está com medo do ‘Instrumento de Trabalho’, quando disse que este documento é um ‘texto mártir’, pois destinado a ser destruído pelas reflexões, partilhas e redacção posterior de um outro texto.

De manhã, à tarde e à noite, enquanto os trabalhos decorrem na Sala Sinodal, a cidade está cheia de movimento com um programa enorme para todos os gostos e sensibilidades. O projeto ‘Amazónia – Casa Comum’ vai continuar a propor, até ao fim do Sínodo, conferências, celebrações, actividades culturais …

Roma, até ao fim do mês de outubro, terá as cores, as penas e as tintas de uma América Latina que sangra, mas que continua a ser o pulmão do mundo e ‘casa comum’ melhor guardada. Temos que a preservar com seus povos e culturas, com a sua forma muito especial de viver a Fé e de a testemunhar com alegria e esperança.

 

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