Alexandre Palma sublinha momentos de «virtude medalhada», que vão para lá da vitória ou da derrota

Lisboa, 20 jul 2021 (Ecclesia) – Alexandre Palma, professor da Faculdade de Teologia da UCP e um dos coordenadores do projeto ‘Breve tratado das virtudes desportivas’, da cátedra ‘Manuel Sérgio’, disse à Agência ECCLESIA que é necessário “humanizar” o olhar sobre o desporto.

“A ideia de que são máquinas que vão desempenhar determinada atividade, e a têm de desempenhar com um nível de eficácia extremo, é uma visão puramente mecanicista do desporto e do próprio movimento, não uma visão humanista”, refere o convidado da edição de hoje do Programa Ecclesia (RTP2), numa entrevista a respeito da próxima edição dos Jogos Olímpicos.

Foto: Lusa/EPA

O docente da Universidade Católica Portuguesa assinala que a prática desportiva vai para lá do ganhar ou perder, sublinhando que os atletas de alta competição muitas vezes “tiram mais lições das derrotas do que nas vitórias”.

“O nosso corpo somos nós e nós somos humanos”, acrescenta.

Apontando aos próximos Jogos Olímpicos, Alexandre Palma pede que supere a obsessão com as medalhas e se dê atenção aos gestos de quem “escolhe perder para poder ajudar um companheiro de competição”.

“São momentos de virtude medalhada”, precisa.

Para o teólogo português, a prática desportiva, sobretudo na alta competição, não é apenas “superar-se ao adversário”.

“Muitas vezes são os próprios atletas que chegam a esta síntese, depois de uma longa carreira desportiva: o mais importante do seu itinerário não foram os adversários que venceram, mas as etapas que eles próprios foram vencendo em si”, observa.

“Olhemos não apenas para o vencedor, mas para aquele que vem no final do pelotão”.

O professor de Teologia assinala que os Jogos Olímpicos têm uma dimensão “muito ritual” – da chama olímpica à cerimónia do pódio, passando por tradições como a presença da delegação grega no primeiro lugar do desfile das nações participantes – que permite uma religação à tradição de “humanização da prática desportiva”.

“A ritualidade é um constitutivo humano”, que carrega em si as dimensões da “memória e da identidade”, aponta.

Foto: Lusa/EPA

O projeto ‘Breve tratado das virtudes desportivas’, da Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência’, reúne contributos de vários autores sobre 15 virtudes específicas, clássicas e contemporâneas, como o ‘fair-play’.

“É uma intuição que já temos: as virtudes desportivas não têm apenas validade para o mundo do desporto”, indica Alexandre Palma.

O teólogo destaca que a prática desportiva, como prática “plenamente humana”, é um “um contexto particularmente interpelador sobre a realidade humana, com tudo o que ela encerra, o que é, a abertura que traz dentro de si”.

A teologia, a filosofia ou a antropologia olham, por isso, para o desporto como um “laboratório do humano que se transcende e tem muitas formas de se transcender”.

“O desporto é uma epifania da transcendência que habita o próprio ser humano”.

O entrevistado recorda que o professor Manuel Sérgio sublinha a dimensão da prática desportiva como um “tornar-se”, com um “itinerário de transcendência”, do ponto de vista teológico.

O desporto é usado, na Bíblia, como “metáfora”, em relação com a fé, e o magistério católico, nos últimos anos, tem procurado uma perspetiva “interdisciplinar”, de diálogo com vários olhares.

Alexandre Palma alude à “grande metáfora” da estafeta, “antiquíssima” na tradição olímpica, com a passagem de um “testemunho”.

“O que nós fazemos, há milhares de anos, é passar o testemunho uns aos outros, no desporto, na vida, nos contextos religiosas, culturais, familiares, afetivos”, realça.

Os Jogos Olímpicos Tóquio2020 vão ser disputados entre 23 de julho e 8 de agosto, depois do adiamento por um ano devido à pandemia de Covid-19.

OC

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