Responsável pelo setor da Juventude no Dicastério para os Leigos, Família e Vida, da Santa Sé, fala sobre a XXXVII JMJ, que se celebra em duas etapas, nas dioceses católicos e em Lisboa, de 1 a 6 de agosto de 2023

Foto: Miguel Cotrim

A Igreja Católica promove este domingo, em todas as suas dioceses, a sua festa anual com os jovens católicos, rumo à Jornada Mundial da Juventude de 2023. ‘Todos juntos em Lisboa!’ é o convite do Papa Francisco na mensagem para a XXXVII JMJ, que se celebra em duas etapas, após ter sido adiada, por um ano, devido à pandemia de Covid-19. O desafio lançado pelo Vaticano é que as comunidades católicas apostem nos jovens.

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

A celebração diocesana da Jornada Mundial da Juventude tem, desde 2021, uma nova data, passando do Domingo de Ramos para o de Cristo-Rei, no final do ano litúrgico. Como tem sido recebida essa mudança?

Essa novidade tem sido uma oportunidade de relançar a celebração da Jornada nas igrejas particulares. Especialmente após o Sínodo de 2018, o Sínodo dos Jovens, cujo documento final fala da importância da celebração da Jornada também nas igrejas particulares, porque a Jornada desempenha um papel importante na vida de muitos jovens. Muitas vezes é para eles uma oportunidade de uma experiência viva de fé, de comunhão, de igreja.

Nalgumas partes do mundo já se celebrava a Jornada Mundial da Juventude no Dia de Cristo-Rei. Não muitos lugares, mas alguns, ou noutro momento do ano. Nunca houve uma total uniformidade, como acho que também não vai acontecer agora, mas, nas orientações pastorais que damos como Dicastério, fica claro que, por várias razões, às vezes por uma questão de clima, às vezes por uma questão de oportunidade pastoral, se pode celebrar noutra data. Mas que, nessa data, a Igreja toda se volte para os jovens, faça campanhas de comunicação. Nós mesmos, no dicastério, estamos fazendo uma campanha de comunicação: rezem pelos jovens e coloquem-nos no centro da sua atenção pastoral.

 

O Vaticano apresentou em maio de 2021, orientações pastorais para celebrar a jornada a nível diocesano. Nelas, pedia-se coragem para envolver e confiar papéis ativos aos jovens. Que sinais chegam do terreno na resposta a este convite?

 

 

Em algumas partes do mundo, como a América Latina, de onde eu venho, esse protagonismo dos jovens já se percebe de um modo mais evidente. Mas há outras culturas em que a dimensão hierárquica é muito forte e também a questão do protagonismo dos adultos. E nem sempre os jovens encontram o espaço para suas iniciativas. Mas, tem-nos chegado sempre mais notícias de várias partes do mundo, como por exemplo da África da Ásia, onde cada vez mais tem-se dado confiança e responsabilidade aos jovens.

 

 

Falou ainda pouco do Sínodo de 2018 da Igreja Católica. Viveu uma assembleia particularmente dedicada aos jovens. Pergunto lhe como é que tem sido acolhida mensagem que foi deixada por este encontro? E como é que se continua a trabalhar nas suas orientações dentro do próprio Vaticano?

Os jovens que participaram do processo sinodal, como por exemplo do pré-Sínodo, do Fórum que o nosso dicastério organizou, após o sínodo; esses jovens, eles permanecem em contato, a maioria deles através das redes sociais. E eles estão continuamente partilhando as suas iniciativas. Hoje mesmo, por exemplo, compartilharam um convite para uma missa online celebrada em Singapura para a Juventude Asiática, que vai ser na Vigília de Cristo Rei. Durante o período mais difícil da pandemia e também em tempos de guerra, muitas vezes eles se reuniram e se reúnem em videoconferência para rezar. E o nosso dicastério também criou uma plataforma social chamada Sinact –  Synod In Action-  na qual os departamentos de Pastoral Juvenil, das conferências episcopais, dos movimentos e associações internacionais estão sempre partilhando suas iniciativas.

 

Em que áreas é possível identificar uma liderança juvenil na ação da Igreja Católica? Pensaríamos desde logo, eventualmente na ação contra, por exemplo, as alterações climáticas…

Após o Sínodo de 2018, a pedido dos padres sinodais, foi criado no nosso dicastério um organismo consultivo internacional de jovens. São 20 jovens do mundo inteiro e eles têm prestado um ótimo serviço de consultoria ao nosso setor jovem, ao nosso dicastério, a outros departamentos da Cúria Romana. Tem sido uma referência também nas suas igrejas locais, outros departamentos do Vaticano e de conferências episcopais e dioceses em todo o mundo têm dado mais espaço para a escuta dos jovens, da sua visão e em todo o trabalho de promoção do cuidado da casa comum, os jovens são protagonistas da plataforma ‘Laudato Si’, também a economia de Francisco, no âmbito do diálogo ecumênico diálogo inter-religioso. Até mesmo, por exemplo, o Dicastério da Comunicação do Vaticano tem um grupo de consultores jovens e nós sabemos que o Papa Francisco, numa carta que ele escreveu aos jovens antes do sínodo, ele lembrava a Regra de São Bento, na qual o São Bento recomendava aos monges que, quando surgissem graves problemas no mosteiro, se escutasse os mais jovens, porque normalmente deles vêm as melhores ideias.

 

 

Já agora é lembrar que o fórum que referiu tem um representante português. Os responsáveis pela organização da Jornada Mundial da Juventude, que Lisboa vai acolher no próximo ano, têm insistido na ideia de que os jovens sejam protagonistas com as suas ideias criativas. Olhando para Lisboa especificamente, podemos esperar que sejam as novas gerações a liderar efetivamente este grande encontro?

Podemos não só esperar, mas em parte já constatar. Lógico que pode sempre crescer esse protagonismo dos jovens. Mas quando nós visitamos a sede do comitê local e já visitei várias vezes, muitas das pessoas que estão servindo ali são jovens e às vezes na liderança de setores importantes da organização. Também no recente encontro preparatório que tivemos em Fátima e a liderança jovem portuguesa teve um grande protagonismo, representando as suas dioceses, mas também no Comitê Local de Lisboa.

Acho que isso já está acontecendo, mas pode sempre crescer. Quanto mais espaço dermos aos jovens, melhor.

 

Nós sabemos que que um evento desta, desta dimensão implica grandes esforços logísticos e também de organização. A pandemia e agora a guerra na Ucrânia apresentam desafios complementares?

São desafios, não podemos negar, mas os jovens normalmente eles nos surpreendem exatamente quando se encontram diante de grandes desafios, porque para eles é uma oportunidade de demonstrar os seus dons, os seus talentos, a capacidade de resiliência, de superar obstáculos e, sobretudo, de dar o melhor de si. Organizar uma jornada nesse contexto não foi, não é fácil. Esperamos que os tempos mais difíceis já tenham passado e os jovens ajudem a humanidade a se reerguer.

 

A pandemia e a guerra na Ucrânia tiveram também uma consequência muito negativa que tem a ver com a inflação. Esta inflação pode provocar retração ao nível da participação na jornada? Há esse receio?

Lembro-me que quando houve a Jornada do Rio, numa diocese de um determinado país – que eu não vou dizer qual foi, aqui na Europa – o bispo tinha prometido após a Jornada de Madrid: “vamos para o Rio”. Aí, diante da crise económica, disse: “Não, não vamos mais, porque está a crise económica”. E os jovens disseram: “o quê? O senhor prometeu que nós íamos. Nós não temos dinheiro, mas nós vamos organizar-nos, vamos fazer eventos, vamos fazer vender coisas e vamos”. E dessa diocese foi um grupo de quase 50 jovens ao Rio de Janeiro. Nós não podemos nunca subestimar a capacidade dos jovens de se mobilizar e superar os desafios, mesmo económicos.

 

Nós estávamos a falar de números e tendemos a olhar para estes eventos precisamente pela dimensão dos números da multidão. Há outras preocupações, naturalmente. Como é que é possível oferecer aos jovens momentos significativos do ponto de vista individual para sua própria caminhada?

Nos Evangelhos, Jesus encontra multidões, mas também tem muitos encontros pessoais. No nosso dicastério, a gente sempre diz que a jornada é uma receita de massa, mas não é um evento, massificante. É bonito ver os jovens quando os jovens na jornada percebem que eles não estão sozinhos, mas fazem parte de uma grande multidão de discípulos missionários de Cristo, que vêm do mundo inteiro. Mas muitos jovens, depois da jornada, eles dão testemunho de encontros pessoais extremamente significativos. Com Cristo na oração, mas também com as pessoas na pré jornada, nas dioceses, nas paróquias, às vezes nas filas de espera, enquanto às vezes os coordenadores das grandes delegações se lamentam das filas; os jovens, às vezes dizem: Nós estamos aproveitando para conhecer outras pessoas. E agora, nesse processo de preparação da jornada, tem acontecido tanta coisa bonita no mundo.  Ontem mesmo eu vim na nossa plataforma SINACT, no Brasil, estão organizando todo o dia 10 do mês um encontro online para se prepararem para Lisboa. O entusiasmo é grande e o pessoal quer se encontrar depois de todo esse tempo de isolamento.

 

Há um momento particular dessa relação comunitária e individual, as chamadas catequeses. Há a perspetiva de que esse espaço, normalmente de manhã, nos dias que antecedem os grandes encontros conclusivos, seja algo diferente também em Lisboa…

Sim, quer-se fazer cada vez mais uma catequese mais dialogada, mais um momento de escuta dos jovens, não só um momento em que eles estão passivos. Sempre que for possível, também reunir pequenos grupos para discutir entre eles. A gente quer que esse seja um momento importante também, não somente nós do dicastério, mas o comité de Lisboa, que tem sido muito proativo, nesse sentido, trazendo muitas propostas novas, inclusive propondo um novo nome para as catequeses, mais juvenil, ‘Rise Up’, ‘Levanta-te’. Queremos fazer algo mais sinodal, mais dialogado e menos passivo para os jovens.

 

Um tema bastante debatido liga-se aos custos associados à JMJ. Que esforço está a ser feito para oferecer a possibilidade de participação a jovens de países mais pobres?

Há uma tradição, já antiga, nas jornadas de que cada jovem que se inscreve é convidado a dar uma pequena contribuição, por volta de 10 euros, pode ser menos, pode ser mais, para ajudar os jovens dos países mais pobres a participar no evento. Todas essas ajudas que entram através do sistema de inscrições vão para um fundo de solidariedade que nós, como Dicastério, administramos em conjunto com o Comité de Lisboa.

Isso é um fundo de solidariedade mais oficial, mas aparecem sempre outras iniciativas. Na Polónia, os jovens decidiram ajudar os jovens do Leste Europeu. Há muitas iniciativas que são feitas também a nível local, de solidariedade espontânea e criativa, que vão além daquilo que nós tomamos conhecimento.

 

O Fundo de Solidariedade também é gerido muito em contacto com as conferências episcopais de cada país?

Sim, sim. No caso de Portugal, através da Conferência Episcopal ou do Comité Organizador de Lisboa, que vão dialogar a esse respeito, através dos Comités Diocesanos e, no caso internacional, através das conferências episcopais e dos movimentos que têm um reconhecimento internacional.

 

A ideia é mesmo essa de que ninguém fique para trás?

Sim, sim. Ninguém consegue trazer todos os que querem, mas a ideia é trazer um grupo representativo de cada país, de modo que, quando eles voltarem, possam ser também multiplicadores dessa experiência. São só um exemplo. À Jornada de Madrid (2011), foi um pequeno grupo de Madagáscar, de dez jovens; quando eles voltaram, reuniram dezenas de milhares de jovens para partilhar a sua experiência. É isso que nós queremos fazer, com o fundo de solidariedade. Trazer um grupo representativo para a Jornada, que depois se torne multiplicador da própria experiência.

 

E já há algum grupo desses que vem a Lisboa, com essa ajuda?

Têm chegado pedidos, muitos. Nalguns casos, pedimos maiores informações ou pede que a diocese faça contacto com a Conferência Episcopal, porque não temos como ajudar cada diocese do mundo. Tem chegado de todos os continentes: da América Latina, de um modo mais amplo, já chegou da África, da Ásia, de toda a parte.

 

Estamos a emitir esta entrevista no domingo do Dia Mundial da Juventude. É uma espécie de pontapé de saída para a JMJ 2023. Pergunto-lhe como tem sido a relação entre o Dicastério e os vários responsáveis pela organização do encontro em Lisboa?

O tempo passa, o trabalho vai-se tornando cada vez mais intenso, mas graças a Deus, em vez de haver um desgaste na relação, nós percebemos um crescimento na comunhão, na colaboração fraterna que, com certeza, nos fará também, após a Jornada, sentir-nos mais igreja, mais família. Pode parecer uma resposta diplomática, mas não é verdade. Eu tenho dito isso a D. Américo (Aguiar), tenho comentado com algumas pessoas também do Comité e eu tenho essa experiência de colaboração.

Foi a experiência que nós tivemos com as jornadas anteriores. Ontem, por exemplo, eu recebi uma foto dos nossos amigos do Panamá, de há seis anos, que saiu no jornal, um jornal panamenho, que falava do primeiro encontro que eles tinham tido com o Dicastério, aqui em Roma. Parecia uma foto de família. Tínhamos o padre Rómulo (Aguilar, coordenador-geral), que já faleceu. Até hoje eu uso o cabeção que ele me ofereceu quando fui ao Panamá, uma vez, e me esqueci; ainda hoje uso, como recordação. Fica a relação, lembro-me do Victor Chang, que foi o secretário-executivo da Jornada (2019): ficaram relações, até mesmo, poderia dizer, familiares. Bento XVI dizia que a Jornada cria uma rede de amigos e acho que é isso que a gente espera que aconteça também e que está a acontecer.

 

Recentemente, um estudo do sociólogo e padre Eduardo Duque, sobre Valores e Religiosidade em Portugal, apontava para a ideia de que os jovens estão a afastar-se da religião e da Igreja Católica. Fica surpreendido? Encontra razões?

Eu lembro-me de um seminário de estudo que aconteceu em 2017, antes do Sínodo, em que se fez uma pesquisa com a juventude. O que é que os jovens procuram na Igreja? Procuram uma casa, procuram família, procuram uma comunidade. Se encontrarem isso, eles ficam e chamam outros para vir, também. Se não encontrarem, vão procurar noutro lugar.

Precisam de encontrar uma família, uma casa, uma comunidade e outros jovens que sejam para eles testemunhas de uma fé alegre, de uma fé de que se vive com felicidade, que é contagiosa. Eu acho que a fé, quando nasce de uma experiência com Cristo, vivo, como diz o Papa Francisco, isso é muito mais contagioso do que uma pandemia. No bom sentido, porém.

Esperamos que, na Jornada de Lisboa, se inicie uma pandemia ao contrário, virtuosa, bela, que daí se contagiem os jovens de Portugal e do mundo inteiro com a alegria nova de ser cristãos e comunicar isso aos outros.

 

A presença do Papa Francisco em Portugal, a sua liderança vão ajudar a um maior interesse dos jovens?

Ao longo dos anos, desde a criação das Jornadas, observamos que a figura do Papa como vigário de Cristo atrai os jovens. João Paulo II tinha um carisma muito forte com os jovens, mas pouco tempo antes da Jornada de Colónia, na Alemanha (2005), faleceu e pensou-se em como seria a Jornada sem ele. Será que Bento XVI terá a mesma capacidade? E a Jornada da Alemanha foi uma Jornada com participação numerosíssima, os jovens saíram muito entusiasmados. E assim foi, independentemente do Papa.

Eu acredito que ele estará em Lisboa, mas ele diz ‘Pedro estará’. Francisco, esperamos, atrairá muitos jovens e este encontro será muito significativo para os jovens e depois dele, outros também, que virão no futuro.

A Jornada sempre será esse encontro com Cristo, mas também na pessoa do seu vigário.

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