Entrevista do cardeal-patriarca de Lisboa à Agência ECCLESIA analisa a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, perspetiva o ano de 2023, o impacto da presença de jovens de todo o mundo em Lisboa e, sobre a idade de resignação, afirma: «tanto fico como vou»

Foto Agência ECCLESIA/MC

Lisboa 01 jan 2023 (Ecclesia) – O cardeal-patriarca disse que enfrentar os casos de abuso sexual foi uma prioridade “que a Igreja quis” assumir, projeta um “patriarca mais jovem” para Lisboa e recorda a “conversa recorrente” sobre a organização da JMJ em Portugal, desde 1999.

“Eu sou o bispo mais antigo na conferência e quando para lá entrei, no final de 1999, de vez em quando,  vinha essa conversa ‘se fizéssemos uma Jornada Mundial da Juventude em Portugal?’… Era uma conversa recorrente”, afirmou D. Manuel Clemente em entrevista à Agência ECCLESIA.

O cardeal-patriarca recorda o “interesse da parte de Roma” em organizar a Jornada Mundial da Juventude em Portugal, mesmo que fosse um projeto que “parecia uma coisa impossível” diante da necessidade de acolher milhões de jovens.

“Foi muito nessa base que apresentei a candidatura de Lisboa, que foi aceite”, lembra D. Manuel Clemente, referindo que preside à JMJ Lisboa 2023 o “sentido da universalidade” , traduzido na “preocupação em trazer gente de todo o lado e de arranjar meios para que isso aconteça”.

O cardeal-patriarca de Lisboa sublinha a prioridade do Comité Organizador Local (COL) da JMJ em acolher as pessoas com deficiência, criando condições “para que não fiquem de fora”, em criar condições para fazer da jornada “um movimento ecológico” e em ter representações de todos os países, nomeadamente dos de expressão portuguesa.

“A organização da jornada, e concretamente o senhor D. Américo Aguiar, que é o presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023, tem-se multiplicado nesses contactos, naquele setor que estava há pouco a sublinhar, naqueles que menos possibilidades teriam para vir, concretamente todo o mundo dos Palops e que vão desde a Guiné até Timor”, afirmou.

Questionado sobre o facto de fazer 75 anos durante o ano de 2023, o ano da JMJ, D. Manuel Clemente disse que “as coisas ligam-se” e reafirmou a importância Lisboa ter “um patriarca mais jovem”, que “esteja mais próximo” da problemática juvenil.

“Quer queiramos quer não, 75 são 75… A nossa cabeça foi feita noutra altura, a nossa ‘forma mentis’, para dizer isto de uma maneira mais sofisticada, é a que é. Tentamos acompanhar, mas era bom que houvesse alguém que depois desse seguimento”, sublinhou.

O Papa sabe disto e, quando ele quiser, tanto fico como vou: antes, durante ou depois… Quando ele quiser”.

A respeito do estudo sobre casos de abuso sexual na Igreja Católica, D. Manuel Clemente afirma que “foi um momento que a Igreja quis”, investigando o que aconteceu desde 1950.

“O que importa é que daí se tire uma série de conclusões sobre o que é que não pode acontecer, como é que se pode evitar que isso aconteça e como fazer de cada ambiente eclesial um ambiente seguro”, afirma D. Manuel Clemente.

D. Manuel Clemente rejeita a possibilidade dos jovens se afastarem da Igreja por causa dos casos de abuso, certos de que não corresponde a “um problema geral”.

“Uma das coisas que nos tem sido dita por quem está a trabalhar e sistematizar as informações é que a grande maioria das pessoas que se queixaram não se afastaram da Igreja. Perceberam que era um problema com este ou aquele fulano ou fulana, não era um problema geral, e de alguma maneira se tentou ultrapassar”, afirmou.

Na entrevista realizada no contexto do Dia Mundial da Paz, o cardeal-patriarca de Lisbao referiu-se também ao processo legislativo sobre a eutanásia, considerando que se trata de “um passo em falso”.

“Eu tenho visitado – e agora nestes dias que antecederam o Natal de uma maneira especial, como sempre acontece – uma série de instituições que mostram que há alternativas a isto: há alternativas pelos cuidados paliativos, há alternativas pelo cuidado das pessoas. Quem é acompanhado, quem não está só, quer viver”, afirmou.

O caminho não essa legislação que se propõe ou possa vir a acontecer – esperemos que não -, mas o contrário: instituições que se alargam, tantos bons exemplos que aí estão em que a resposta pode ser outra e a vida pode ser plenamente vivida desde que devidamente acompanhada”.

A respeito da presença dos católicos na sociedade, D. Manuel Clemente disse que as declarações do presidente da República que apontavam para uma diminuição da sua relevância “é uma perspetiva”, lembrando que até há poucos anos a sociedade “não punha em causa certos valores”

“Não era tanto o caso de haver mais ou menos católicos na vida ativa ou na vida política. Era porque a própria sociedade assumia isso como valores básicos”, afirmou.

É muito interessante verificar que, da parte da Igreja Católica em Portugal, quer na problemática do aborto, quer agora na problemática da eutanásia, a Igreja ativa, e concretamente os seus responsáveis, sempre têm caminhado em termos de frente comum”.

D. Manuel Clemente alertou para as consequências da guerra que se alastra e lembrou que “as duas guerras mundiais do século passado começaram com conflitos localizados”.

“Afundámo-nos todos quando podíamos, pelo contrário, emergir todos para uma sociedade diferente. E há hoje outro risco que não havia nos conflitos mundiais anteriores, que é a sofisticação do armamento, o nuclear”, afirmou.

Na entrevista à Agência ECCLESIA, o cardeal-patriarca de Lisboa lembrou o ideal de fraternidade que o Papa Francisco afirmou no contexto da pandemia e na mensagem para o Dia Mundial da Paz.

Sobre possíveis ocupações após a resignação como patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente disse que “é difícil” não dar mais tempo à História.

“Está cá comigo desde pequenino: desde criança que sou um trabalhador da memória”, afirmou.

PR

JMJ Lisboa 2023: «É preciso dar seguimento», afirma D. Manuel Clemente

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