Antigo aluno do actual Papa diz que Bento XVI procura «apresentar a figura real» de Cristo

Lisboa, 10 Mar (Ecclesia) – O teólogo Henrique Noronha Galvão, antigo aluno de Joseph Ratzinger, considera que o novo livro do actual Papa continua fiel ao projecto de apresentar a “figura real” de Jesus, para lá dos acontecimentos históricos.

“Com este segundo volume da sua obra «Jesus de Nazaré», Bento XVI continua fiel ao seu projecto de apresentar a figura real de Jesus Cristo. Considera porém que esta só corresponderá à sua verdade se, para além do rigor histórico do seu estudo, for vista à luz da fé”, escreve o sacerdote português, em texto hoje publicado pela Agência Ecclesia.

Segundo o antigo membro da Comissão Teológica Internacional (Santa Sé) e director da edição portuguesa da revista «Communio», “num tempo em que ganharam grande importância as possibilidades do conhecimento histórico da figura de Jesus, a tentação mais frequente é querer reduzi-lo apenas à sua realidade humana, a única acessível a um tal tipo de conhecimento”.

“Embora seja inteiramente lícito optar pela perspectiva que parte da realidade humana de Jesus, pretender contudo isolá-la da sua realidade divina já não respeita a verdade do seu mistério”, acrescenta.

Para Noronha Galvão, “o projecto de Ratzinger consiste precisamente em partir do estudo histórico de Jesus, como a perspectiva que vai mais ao encontro da mentalidade moderna, mas recusando simultaneamente isolar a realidade humana de Jesus da sua realidade divina que só num horizonte de fé se torna apreensível”.

No final deste segundo volume de «Jesus de Nazaré», o Papa afirma que o livro “livro pressupõe a exegese histórico-crítica e serve-se dos seus resultados, mas quer ir além deste método visando uma interpretação propriamente teológica”.

Antes, no prefácio, Bento XVI nega ser sua intenção  escrever uma “vida de Jesus” à maneira de uma biografia, como também elaborar uma “cristologia do alto”.

“Se o primeiro modelo insiste na unidade de Jesus Cristo como presença do próprio Filho de Deus no meio de nós, o segundo sublinha a dualidade daquele que se revela como verdadeiro homem e verdadeiro Deus”, assinala Noronha Galvão.

Segundo o teólogo, da Universidade Católica, “é necessário ir além da pura factualidade dos acontecimentos que tecem a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e considerá-los como expressão de algo mais profundo, do próprio desígnio de Deus que se cumpre e já fora profetizado”.

Joseph Ratzinger, acrescenta, “pretende, precisamente, sublinhar que se não contradiz uma visão de Jesus «a partir de baixo» quando se recusa a tentação de parar a meio do trajecto; mas que, pelo contrário, esse trajecto só tem real validade quando nos conduz à totalidade do mistério de Jesus, à sua plena verdade”.

Para encontrar “o Jesus real”, diz Noronha Galvão – que colaborou na revisão do texto português -, “tendo sobretudo em conta as insuficiências positivistas da moderna crítica histórica, é necessário insistir num outro tipo de hermenêutica que supõe a fé, como acontece nesta obra de Bento XVI”.

A segunda parte de «Jesus de Nazaré» vai ser apresentada hoje no Vaticano, em conferência de imprensa, com a presença do cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, e de Claudio Magris, escritor e germanista.

Toda a obra começou a ser elaborada nas férias de 2003, antes da eleição de Joseph Ratzinger como Papa.

OC

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