Diretora do secretariado português da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), comenta visita histórica do Papa

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

A AIS foi uma das vozes mais ativas na denúncia da perseguição aos cristãos e, no caso do Iraque, alertou para o risco de desaparecimento da presença cristã por causa da perseguição dos radicais islâmicos, depois de 2014. Nesta visita do Papa, hoje em particular já houve momentos muito marcantes, o que é que destaca? O que é que a impressionou mais até agora?

Esta viagem tem sido impressionante, as expetativas estão a ser ultrapassadas no meu ponto de vista. A visita a Mossul era impensável! O Papa poder estar presente numa cidade que esteve ocupada durante três anos pelo autoproclamado Estado Islâmico, com a destruição de tantos símbolos religiosos das várias religiões, ter hoje a presença de um Papa é de um simbolismo extraordinário.

Estive a ver imagens do Papa em Qaraqosh, na Igreja da Imaculada Conceição, e é extraordinário sentir e ver no rosto destes cristãos esta emoção tão grande de terem o Papa junto deles. É, de facto, um sinal de esperança extraordinário que está a ser dado neste momento à comunidade cristã no Iraque, que tem sofrido tanto nos últimos anos, como sabemos. Ver como é possível, apesar de todas as dificuldades e de tudo o que tem acontecido, como continua uma comunidade viva e que aguardou tantos anos por este momento, para mim foi até emocionante ver as imagens do Papa a rezar o Angelus na igreja, com a comunidade cristã. É de facto muito, muito recompensador para aquelas pessoas que sofreram tanto nestes anos.

 

Em 2015, 2016, seria inimaginável ver o Papa na igreja da Imaculada Conceição, onde ele esteve esta manhã, que chegou a ser transformada num campo de tiro pelo Estado Islâmico. Esta ideia de recomeçar e reconstruir, que o Papa tem sublinhado nesta viagem, é importante para os cristãos no Iraque e desta região? Que há esperança e que é possível recomeçar?

Sem dúvida. Os cristãos nos Iraque têm-nos dado nos últimos anos um testemunho de resiliência, de esperança, de uma fé muito viva, a que não podemos ficar indiferentes. Apesar da diminuição drástica da presença cristã no Iraque, continua a haver cristãos que querem permanecer, porque as suas famílias sempre viveram ali, são ali as suas terras, o seu lugar. E esta ida do Papa, esta mensagem de que é possível reconstruir, de que é possível este respeito mútuo, o diálogo, a sã convivência, é o sinal de esperança de que esta comunidade necessitava há tantos anos.

Já em 2010, quando falava com o atual patriarca caldeu ele dizia-me que queria muito que o Papa visitasse o Iraque. Esta visita já era aguardada há muitos anos, e hoje, 2021, depois de todo o sofrimento causado pela passagem do autoproclamado Estado islâmico, que levou a violência a pontos que nunca vimos contra comunidades religiosas, esta ideia que hoje o Papa passa, de que é possível reconstruir e recomeçar é de facto extraordinária, é uma mensagem de paz muito importante para esta comunidade.

Efetivamente temos assistido ao longo dos anos à diminuição drástica da comunidade cristã, e podemos estar a assistir ao fim da presença de uma comunidade num país que foi o berço das civilizações, onde tudo começou.

 

E onde os cristãos estão desde o século I…

Exatamente, não começou agora, estão lá há muito tempo, e assistirmos a esta queda dramática dos números… em 2003 viviam no Iraque 1 milhão e meio de cristãos, e hoje serão cerca de 250 mil. É, de facto, uma diminuição drástica, pode ser o fim desta presença.

 

E a visita do Papa pode ajudar a consolidar essa presença dos que já regressaram entretanto e estão a estabelecer-se de novo?

Sem dúvida, esta mensagem de esperança do Papa, de que esta comunidade não está só, que é lembrada, suportada e apoiada por todos nós, é extremamente importante porque é preciso parar esta sangria que tem havido da comunidade cristã, mas para isso é preciso que estejam estabelecidas uma série de condições, como o respeito pela liberdade religiosa, voltar a ter as casas e os negócios, recuperar tudo aquilo que perderam nestes anos, é preciso que haja segurança e estabilidade no país para isso acontecer. Portanto, esta ida do Papa é fundamental para esta comunidade ter essa esperança num futuro que poderá ser mais risonho do que se imaginava há uns anos.

 

O primeiro-ministro iraquiano anunciou que o dia 6 de março vai passar a ser o Dia Nacional da Tolerância e Coexistência no Iraque, numa homenagem ao encontro que o Papa manteve com o aiatola Al-Sistani. É um sinal de esperança também, e uma consequência já direta desta visita do Papa?

Sim, esta iniciativa do governo de declarar este dia e o encontro do Papa com o líder xiita são muito importantes. A mensagem que saiu do próprio encontro é muito importante, no sentido de mostrar que há lugar para a comunidade cristã.

Não nos podemos esquecer de que a comunidade cristã tem sido muito importante no Iraque, é uma comunidade com estudos, com formação, era muito importante no setor da educação, da saúde, da justiça, é uma comunidade que traz uma mais valia muito grande ao país, por isso um líder com Al-Sistani vir dizer que é preciso haver este respeito mútuo e o diálogo entre as religiões e com a comunidade cristã é, de facto, um sinal muito positivo, e saiu já este gesto concreto do governo, de instituir este Dia Nacional.

É muito importante haver este trabalho de reconciliação no Iraque, porque as feridas são muito grandes. Estes dois líderes juntarem-se e passarem esta mensagem é fundamental para que haja pacificação entre as várias comunidades no Iraque.

 

Temos visto sinais de esperança nesta viagem, mas quando se acompanha os testemunhos e as declarações de quem tem falado diante do Papa, também é possível perceber que ainda há muitas preocupações, e uma delas tem a ver com a recuperação da confiança. Não basta reconstruir as casas, as igrejas e recuperar os negócios – e já falaremos do que tem sido feito pela AIS -, mas a reconstrução da confiança, que as pessoas que emigraram ou que estão refugiadas noutras locais possam confiar o suficiente para ousar o regresso, isso vai levar mais tempo?

Sem dúvida. É preciso que os vários líderes das várias religiões se juntem, deem estes sinais positivos e trabalhem em conjunto com cada comunidade, porque estamos a falar de comunidades que foram espoliadas de tudo. No caso de Mossul, onde o Papa esteve hoje, foram vizinhos, amigos de longa data, que retiraram tudo às comunidades cristãs e a yazidis. Tudo isto deixa marcas que imaginamos muito profundas, e sarar estas feridas, restabelecer a confiança no vizinho, no amigo, que foi muitas vezes quem os traiu há sete anos, é preciso fazer um trabalho muito grande, e sem dúvida que os líderes religiosos terão um papel fundamental no restabelecimento desta confiança, que é tão necessária neste momento para a comunidade cristã recomeçar uma nova etapa.

 

Foto: AIS

Falou dos yazidis. No voo de Roma até Bagdad uma jornalista espanhola entregou ao Papa documentação que lhe foi passada pela Fundação AIS, e o Papa manifestou-se muito impressionado com a lista de preços das escravas cristãs e yazidis que o Estado Islâmico vendia. Estamos a falar de feridas muito profundas e muito recentes…

Sim, sim, preços que as famílias e as várias comunidades tiveram que pagar-. Alguns infelizmente não conseguiram recuperar essas jovens raptadas e usadas como escravas para serem vendidas, para conseguirem fundos para os seus fins, tudo isto deixa feridas que não conseguimos imaginar…Este estabelecer de preços de vidas humanas, a que já não assistíamos há mais de um século, é um retrocesso civilizacional, ver pessoas que são vendidas… Não podemos atribuir um valor monetários a estas vidas, a estas jovens que sofreram na pele – e acredito que será muito difícil de ultrapassar – um calvário. Vai ser difícil conseguir voltar a ter confiança nesta comunidade que lhes tirou tudo o que tinham na vida.

 

A invasão dos radicais islâmicos aconteceu em agosto de 2014 e a Catarina visitou a região pouco depois, em 2015, passando por Erbil, no Curdistão iraquiano. A AIS tem estado a apoiar os cristãos, desde essa altura, assegurando a sua sobrevivência. Que projetos é que estão no terreno?

Desde o dia 6 de agosto de 2014, a AIS foi ao terreno, um pequeno grupo deslocou-se ao Curdistão, e está a ajudar esta comunidade desde o primeiro momento. Estas pessoas saíram das suas casas sem nada, apenas com a roupa que tinham no corpo, porque a perceção que tinham na altura é que seria uma questão de dois, três dias, antes de tudo regressar ao normal e que o Estado Islâmico seria expulso daquela região. Na realidade, demorou três anos até à sua expulsão.

Quando estive no Iraque, a ajuda prestada pela AIS era, sem dúvida, para o básico, o essencial do dia a dia, desde a alimentação à medicação, o aluguer de casas, construção de contentores, de campos de refugiados, para estas comunidades.

O autoproclamado Estado Islâmico foi expulso em 2017 e desde então, até agora, temos estado nesta tentativa de ajudar as comunidades a regressarem às suas aldeias, às suas vilas ancestrais, com a reconstrução de casas, de infraestruturas necessárias para que a comunidade esteja. Esse é o grande apoio da AIS, neste momento, mas continuamos também com a questão alimentar, a saúde, a educação.

Não nos podemos esquecer de que a comunidade cristã é também marginalizada, discriminada, no acesso ao mercado de trabalho. O cartão de cidadão no Iraque tem inscrita a religião e numa entrevista de emprego, os cristãos são discriminados.

É uma comunidade que perdeu tudo, não tem trabalho, não há capacidade para reconstruir, não há capacidade para sobreviver. Neste momento, é preciso ajudá-los a recuperar os seus negócios, a sua esperança, que os jovens continuam a estudar.

 

No contexto da viagem do Papa, a AIS lançou uma campanha de apoio à formação das novas gerações, aliás…

Para nós, de facto, é uma prioridade apoiar as novas gerações, os jovens a ficar. É este sinal de esperança que é preciso dar à comunidade. Se conseguirmos dar essa oportunidade de estudo aos filhos, eles vão sentir-se mais tranquilos, como pais, e estão a oferecer uma ferramenta para o futuro.

O lançamento deste apoio, com bolsas de estudo, para 150 jovens, num total de 1,5 milhões de euros, quer permitir que os estudantes possam ir para a Universidade Católica de Erbil, um projeto que nasceu com o arcebispo local, D. Bashar Warda. São sinais de que a comunidade precisa, ferramentas para que estes jovens possam, amanhã, trabalhar, estar inseridos no mercado laboral, e permanecer com as suas famílias no Iraque. É aqui que pode residir a esperança desta comunidade e nós, AIS, temos estado ao lado da Igreja e tentar ajudá-la a sobreviver, a conseguir manter-se e dar um testemunho de fé.

 

Qual o valor da ajuda que foi oferecida?

Desde 2014 até agora, foram 48 milhões de euros, praticamente 49. É uma ajuda muito significativa, mas, infelizmente, é preciso que muito mais instituições ajudem, porque as necessidades são muitas. A comunidade cristã não tem capacidade, por si só, de reconstruir tudo o que foi destruído. São precisas muitas obras, infraestruturas – que vão desde o saneamento básico até à reconstrução de escolas, hospitais – e isso só se faz com a ajuda de instituições internacionais, o Governo também ainda não consegue. São valores astronómicos e é preciso a ajuda de todos, para dar esperança a estas comunidades que estão privadas de tudo há tantos anos.

 

Os portugueses têm sido sensíveis a esta necessidade?

Sem dúvida. A Igreja da Imaculada Conceição, onde hoje este o Papa, foi reconstruída também com a ajuda dos benfeitores da AIS, que em Portugal têm sido de uma generosidade extrema para com esta comunidade. Sentiram muito estas necessidades, o sofrimento desta Igreja.

Nós temos dinamizado correntes de oração, campanhas de solidariedade, e tem sido uma resposta extraordinária. Um bocadinho do que o Papa está a dizer, de tudo o que vamos vendo, é também graças ao esforço dos benfeitores portugueses da AIS que têm sido extraordinários neste apoio incondicional a esta comunidade tão sofrida.

 

Este sábado, em Ur, falou-se num sonho: o potencial que esta terra tem como destino de peregrinação religiosa. Estamos a falar de muitos locais bíblicos, por exemplo. A estabilização do Iraque pode fazer com que, no futuro, isto seja uma realidade?

Esperemos que sim. Nós temos de pensar o Iraque e toda a região como uma zona onde estão as nossas raízes, enquanto comunidade cristã. Haver paz, poder ter a possibilidade de visitar os locais onde tudo começou, é uma oportunidade histórica.

O Iraque é um país extremamente rico que está a viver uma situação económica gravíssima, por diversos fatores, desde a corrupção à ocupação de parte do território pelo Estado Islâmico. Espero, sinceramente, que este país possa finalmente viver em paz, porque é um país riquíssimo, com um dos subsolos mais ricos do mundo, e há possibilidade de todas as comunidades viverem com bem-estar. É preciso que haja entendimento entre as várias religiões, que haja paz, e se faça este caminho para que possa ser, também, um lugar de peregrinação. Seria, para nós, a possibilidade de visitar as nossas raízes, o princípio de tudo, algo extraordinário.

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