Psicóloga recorda percurso espiritual e identitário que viveu para se reconhecer «pertença», «única» e «amada por Deus»

Foto: Agência ECCLESIA/PR

Lisboa, 17 ago 2022 (Ecclesia) – Margarida Bruto da Costa, psicóloga, afirmou que as pessoas vivem as perguntas na solidão e que a Igreja não proporciona, muitas vezes, o “encontro pausado”, com disponibilidade para, “de mãos dadas, ouvir sem querer dar uma resposta apressada”.

“Vivemos na solidão as perguntas que fazemos. Se formos à procura, a resposta sai, mas poucas pessoas estão disponíveis porque o caminho é lento. O maior problema é a solidão, o não haver espaço e disponibilidade para este encontro pausado, em que estamos de mãos dadas com o outro e disponíveis para ouvir sem querer dar uma resposta apressada”, refere à Agência ECCLESIA a profissional, que há 12 anos acompanha em psicoterapia diferentes pessoas, num serviço da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

“Tenho templos de hora à hora à minha frente, no meu trabalho”, acrescenta.

Sobre o processo de escuta que a Igreja Católica está a desenvolver, a propósito do Sinodo 2021-2023, convocado pelo Papa Francisco, Margarida Bruto da Costa entende que a “escuta” por si já é importante, para se concretizar uma Igreja “que acolha todos e onde todos sintam ter lugar”.

“Não acredito numa Igreja onde as pessoas não se podem sentir pertença. A Igreja é a família maior que há e não pode haver local onde não se pode ir. As pessoas excluídas tocam-me muito, talvez por causa da minha história. A exclusão é uma palavra que não me faz sentido. Tudo o que puder fazer para abraçar, escrutar, reconhecer, eu farei”, indica.

Marcada pela herança dos pais, Vera e Alfredo Bruto da Costa,  pelo “acolhimento, pela alegria, pelo sonho, pelo haver espaço sempre para mais alguém numa casa sem paredes” mas também pelo “pragmatismo” do pai, Margarida descreve que a sua vida foi passando de “crise em crise” e que na adolescência, tendo interiorizado ser “diferente”, rumou à Índia em busca de respostas.

Eu não pertenço a um país, mas a minha segurança vem de algo maior. Não tem a ver com o sítio, uma cor, o local onde nasci, com a família no sentido estrito. Senti-me parte de uma família mais alargada. A procura da minha identidade e local de pertença, cuja busca me marcou, levou-me a procurar as minhas fontes e identificações, revelou-se um caminho”.

Também no caminho espiritual foi procurando “seguranças”, até que decidiu “perguntar a Deus” quem era.

“Deus gosta mais de nós quando estamos mais frágeis. Tal como com os nossos filhos, o nosso amor cresce: acolhe e faz avançar. Deus só quer abraçar-me: não quer mais nada, nem que eu faça ou diga coisas”, indica.

E é este “colo” que Margarida Bruto da Costa quer indicar a outros: “Apesar de uma mensagem tão forte de Jesus, nem todas as pessoas são acolhidas plenamente e em todas as suas dimensões. A fé não é um chapéu, mas é a seiva que corre nas veias, e assim corre todo o nosso ser. A espiritualidade pode ser procurada em muitas fontes. Quando Deus diz que veio para todos em abundância, é para todos”.

De uma visão da vida a partir da “metáfora do comboio”, Margarida Bruto da Costa olha hoje para o seu percurso como uma paisagem, resultado de um querer “dar a mão e estar plenamente presente” nos momentos fundamentais de pessoas em situações limite.

“Eu tinha uma visão da vida que era um comboio, onde durante a viagem apareciam arvores, pedras, que era necessário tirar no caminho, às vezes árvores. Um dia, um filho de uma amiga adoeceu gravemente e eu pensei «Eu quero estar com ela». Foi um grande desafio para mim e exigiu uma entrega maior à vida, aos amigos e à família. Hoje já não me identifico com a metáfora do comboio; identifico a vida como uma grande paisagem com deserto, água, pedras, prados verdejantes, deslumbramento e desapontamento, transcendência e finitude, projeto, construção mas tem também ausência de controlo. E eu tento viver com todas estas dimensões”, explica.

A conversa com Margarida Bruto da Costa pode ser acompanhada esta madrugada, depois da meia-noite, no Programa Ecclesia na Antena 1 da rádio pública, ficando disponível no portal de informação ou em formato podcast.

LS

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