Conferência de imprensa, após viagem a Marrocos, abordou temas da liberdade de consciência e diálogo entre crentes

Foto: Lusa

Cidade do Vaticano, 31 mar 2019 (Ecclesia) – O Papa Francisco confessou hoje a sua emoção perante os sofrimentos de migrantes e refugiados, questionando quem apresenta solução para estas pessoas a construção de muros ou deixar que se “afoguem” no Mediterrâneo.

“Os construtores de muros, sejam de arame farpado ou de tijolos, serão prisioneiros dos muros que erguem, essa será a sua história”, disse às sete dezenas de jornalistas que o acompanharam no regresso ao Vaticano, após uma viagem de dois dias a Marrocos.

O Papa foi questionado sobre uma entrevista que concedeu ao canal televisivo espanhol laSexta, emitida este domingo, e explicou que o repórter Jordi Évole, com quem falou, lhe mostrou um bocado de arame farpado como o que existe na vala que divide Melilla (enclave espanhol) do território marroquino, fazendo-o chorar, perante algo em que “não conseguia acreditar”.

“Chorei porque não me cabe na cabeça, no coração, que haja tanta crueldade, ou ver as pessoas afogarem-se no Mediterrâneo, em vez de transformar os portos em pontes”, acrescentou.

Francisco defendeu uma ação concertada dos governos da União Europeia para responder à crise migratória, para defender os migrantes dos “traficantes” ou da morte no Mediterrâneo, começando por criar condições para que permaneçam no seu país de origem, com uma ajuda “coerente”, o que exclui, por exemplo, a venda de armas usadas contra países que enfrentam crises humanas, como o Iémen.

O Papa admitiu que muitos católicos e pessoas de “boa vontade” têm opiniões contrárias, no que diz respeito às políticas migratórias, mas considerou que estão “tomadas pelo medo” e por discursos populistas.

“O medo é o início das ditaduras”, alertou.

Questionado sobre a relação entre cristãos e muçulmanos, Francisco mostrou-se satisfeito com os avanços realizados nas suas viagens a Abu Dhabi, em fevereiro, e a Marrocos, registando que em qualquer religião haverá sempre grupos que vivem “das lutas do passado”.

Como exemplo, o pontífice evocou o apelo conjunto sobre Jerusalém, que assinou este sábado com o rei de Marrocos enquanto “irmãos crentes que sofrem” perante a situação atual.

O Papa destacou que a liberdade religiosa “cresce”, inclusive no pensamento católico, como aconteceu no Concílio Vaticano II (1962-1965), mostrando-se preocupado com as restrições à “objeção de consciência” em casos de eutanásia.

Nós, cristãos, corremos o perigo de que alguns governos nos retirem a liberdade de consciência que é o primeiro passo para a liberdade de culto. Não é uma questão fácil, mas não acusemos apenas os muçulmanos, acusemo-nos também a nós, nestes países onde isso acontece. É uma vergonha”.

Francisco abordou as recentes polémicas ligadas aos casos de abusos sexuais, convidando à prudência em relação ao que considerou de “condenação mediática”, antes de uma decisão judicial definitiva.

O Papa falou numa “praga mundial” de abusos sexuais de menores e pedopornografia.

“Nós, na Igreja, faremos tudo o que está ao nosso alcance para acabar com esta praga, faremos de tudo”, declarou.

Para o pontífice, este esforço passa por mais do que propostas “metodológicas”, sendo necessária uma “dimensão espiritual” que disse ter faltado às propostas que lhe foram apresentadas pelos bispos católicos dos Estados Unidos, cuja votação foi adiada em 2018 por intervenção do Vaticano.

OC

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