D. Pedro Fernandes rejeita visões que apresentam migrantes como um «peso»

Lisboa, 13 set 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana assinalou a necessidade de combater os discursos de ódio e a manipulação de dados sobre a população imigrante.
“Os discursos de ódio, os dados errados, a manipulação de opinião, evidentemente estão muito mais ligados a uma visão extremista da discriminação, de xenofobia, de racismo”, indicou D. Pedro Fernandes, convidado da entrevista semanal conjunta ECCLESIA/Renascença.
“Mesmo do ponto de vista económico, social, demográfico, laboral, as nossas sociedades, e em concreto a sociedade portuguesa, precisam dos imigrantes”, acrescentou.
O bispo de Portalegre-Castelo Branco sublinhou que a sociedade portuguesa é tendencialmente tolerante, identificando um sentimento difuso de insegurança nas sociedades ocidentais que alimenta o populismo, promovendo um clima de “medo”.
A reflexão abordou as recentes decisões legislativas em Portugal, com o prelado a admitir o risco de o poder político capitular perante pressões em detrimento dos valores de humanidade.
“É importante apoiar e não combater os vulneráveis”, sustenta.
O entrevistado evocou o magistério pontifício sobre a matéria, sintetizado nos verbos “acolher”, “proteger”, “promover” e “integrar”, rejeitando abordagens governamentais focadas exclusivamente na gestão de fluxos.
“Significa abrir caminhos, também legais ao nível das legislações, seguros para a entrada de migrantes, evitando que caiam nas mãos de traficantes”, detalhou o responsável católico sobre o imperativo do acolhimento.
D. Pedro Fernandes exemplificou a vulnerabilidade destas populações com os recentes episódios envolvendo menores em Ceuta, recordando as preocupações do pontífice face aos “traumas” provocados pela separação familiar.
A intervenção considerou prioritário o papel institucional da Igreja na desconstrução da desinformação, desafiando as comunidades a formar animadores pastorais alicerçados na doutrina social.
“O que está aqui em causa é um problema de humanidade, que tem a ver com valores fundamentais”, apontou.
Para um cidadão que se diz católico, não pode haver fidelidade à sua fé católica e, eu diria, à sua pertença à Igreja se não houver sensibilidade para todos estes temas.”
O presidente da comissão rejeitou a premissa de que a imigração representa um “peso” para o país.
“Quem diz que eles são um problema a este nível, ou um peso, evidentemente está a mentir, porque contradiz claramente todos os dados estatísticos muito objetivos de que nós dispomos”, apontou.
O bispo comentou também a realidade da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, notando a tendência contínua de saída dos jovens para os grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida.
O responsável instou à promoção de políticas públicas mais “eficazes” para a coesão territorial, assegurando que as estruturas eclesiais procuram manter uma presença ativa junto das populações do interior.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (ECCLESIA)
