Eugénio Fonseca apela a um pacto no Parlamento para que o «essencial à vida das pessoas não se embrenhe em questões ideológicas»

Lisboa, 30 jun 2020 (Ecclesia) – O presidente da Cáritas Portuguesa afirmou que estão a “trabalhar a dois níveis” no atual momento da crise de saúde e social para ‘inverter a curva da pobreza’ e para a “recuperação económica” que o primeiro-ministro português “tem falado muito”.

“Acrescento um adjetivo que pode fazer a diferença – recuperação económica inclusiva. Podemos cair no erro das pessoas só porque têm determinada idade não serem valorizadas para as novas propostas que o mercado de trabalho possa oferecer e ficam com o catálogo de desempregado de longa duração”, disse hoje Eugénio Fonseca em declarações à Agência ECCLESIA.

O presidente da Cáritas Portuguesa explicou sobre a campanha ‘inverter a curva da pobreza’ que pretende “fazer funcionar a situação de emergência” que se está a viver por causa da pandemia Covid-19 em que há pessoas “com fome, há que matar a fome, há gente que precisa de manter a casa, há que cuidar para que isto aconteça, as crianças precisam de ir às instituições que nenhuma o deixe de fazer”.

Agência Ecclesia/MC

Eugénio Fonseca assinala que há uma linha de assistência e também é necessária uma linha para ajudar “à recuperação das situações que ficaram mais encostadas à pobreza e exclusão social” porque “é importantíssimo” manter os desempregados numa “metodologia de ligação ao mundo do trabalho, mesmo por atividades socialmente úteis a serem apoiadas dinamizadas pelo Terceiro Setor”.

“O Estado tem uma palavra muito decisiva, não se pode demitir das suas responsabilidades e tem de saber que pode contar com todos para que isso aconteça”, acrescentou.

Neste contexto, o presidente da Cáritas Portuguesa apela a que se faça “um pacto” no Parlamento para que “aquilo que é essencial à vida das pessoas não se embrenhe em questões ideológicas”, recordando que “já fazia na anterior crise, e que alguns partidos com assento parlamentar provaram que isso é possível”.

Eugénio Fonseca pretende também que, “pelo menos uma vez de três em três meses”, o debate da Nação na Assembleia da República “fosse só sobre a questão social”, que se faça uma “monotorização do problema social”, porque “obrigava as instâncias a terem atualizado o estudo da realidade” e não apresentarem dados, “às vezes, com um ano e dois de atraso”.

Para o entrevistado, a “ideia de independência é importantíssima” e defende que se deve estar “unidos cada um na sua responsabilidade e na sua tarefa”, em complemento, “não ocupando espaços que já estão a funcionar e ir à procura daqueles que vão lidar muito mal com esta situação que o povo chama de ‘pobreza envergonhada’”.

No espaço ‘Conversas na Ecclesia’, desta terça-feira, o responsável católico considera que para o futuro na área eclesial dos grupos “há desafios muito grandes” e afirma que “não podem esperar pelo pós-Covid”, até porque “ninguém sabe quando vai abrandar”, e é preciso o “rejuvenescimento dos grupos paróquias de ação social, muitas pessoas correram riscos porque estavam na idade dos grupos de risco para poderem ir em auxílio dos outros”.

“Esta área da ação da Igreja a nível da ação caritativa poderia ser um testemunho extraordinário do diálogo entre gerações”, acrescenta, salientando também “a preocupação” que “nenhuma comunidade cristã esteja sem esta expressão organizada da caridade”.

Outro aspeto sobre o futuro do setor social, o presidente da Cáritas Portuguesa destaca a necessidade da formação.

“Não estende-se só aos grupos. Não acredito que vai ficar tudo na mesma, acho que até o modelo económico há que fazer acontecer alguma coisa. Os nossos cristãos, particularmente os mais comprometidos devem conhecer bem o pensamento social cristão”, exemplifica o também o presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado, na conversa onde também participam os presidentes da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) e da União das Misericórdias Portuguesas (UMP).

PR/CB

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