Responsáveis admitem que algumas peças possam «chocar» pela diferença, mas sublinham que o objetivo é dialogar com a contemporaneidade, sem ofender ninguém

Pormenor de obra de Santiago Belacqua

Braga, 03 ago 2018 (Ecclesia) – O diretor do Museu Pio XII, da Arquidiocese de Braga, afirmou hoje que a I Bienal Internacional de Arte Sacra Contemporânea quer “chamar os artistas” à esfera do religioso e numa “pregação (não) clássica” aproximar as pessoas.

“Entendemos que a arte hoje é um grande púlpito, uma grande pregação, continua a ser um veículo pastoral e a beleza continua a ser uma das vias de acesso até Deus. Há quem não frequente a Eucaristia e há quem receba a mensagem por outros canais”, disse o cónego José Paulo Abreu à Agência ECCLESIA.

O diretor do Museu Pio XII sublinha que, com esta iniciativa, a Igreja Católica continua a fazer o seu trabalho “com o Evangelho, com a Bíblia, com o fenómeno religioso, com a crença, com a teologia” mas “não numa pregação clássica, não numa oratória tradicional”.

O Museu Pio XII e a Torre de Santiago, da Arquidiocese de Braga, vão receber entre hoje, a partir das 19h00, e 3 de setembro a I Bienal Internacional de Arte Sacra Contemporânea, que termina com uma gala de atribuição de prémios no Teatro Circo, no dia 4 do próximo mês.

“Sendo a primeira, tem a marca da novidade, tem o condão de chamar os artistas a esta esfera do religioso. Trabalhar a nossa temática, a nossa iconografia, personagens bíblicos, Cristo”, observou o sacerdote.

A iniciativa é promovida pela Atlas Violeta – Associação Cultural e Apoio Social aos Países de Língua Portuguesa, de Vila Nova de Gaia, com a colaboração da Arquidiocese de Braga e o município local.

Portugal, Angola, Brasil, Moçambique e Reino Unido são os países dos cerca de 30 artistas, entre candidaturas, mais de 200 propostas, e convidados que vão expor 60 obras.

Das várias obras, o diretor do Museu da Arquidiocese de Braga destaca um quadro “muito bonito” de D. António Francisco dos Santos, antigo bispo do Porto, do mestre António Bessa; uma Nossa Senhora da Conceição, de Maria Mendonça, que está na igreja de Outurela; ou uma “espécie de biombo, fora do vulgar” de Alberto Péssimo.

 

No exterior da entrada do Museu Pio XII, o artista brasileiro Walter Nu está a construir uma escultura, perto de quatro metros de altura, “absolutamente fora do vulgar”, a partir de sucata de computadores.

“É uma Nossa Senhora dos Navegantes que ele vai doar à cidade, é um legado. Tem uma história muito interessante porque quando idealizou lembrou-se da trajetória dos portugueses como povo marítimo e hoje navegamos pela internet”, explicou António Bernardini, presidente da associação Atlas Violeta, da bienal que também é sustentável.

Interação com os visitantes é o que vai proporcionar Manuel Ara, ao terminar ao vivo um painel de madeira “enorme”, nos sábados de 18 e 25 de agosto, e depois no dia 31, adiantou o cónego José Paulo Abreu.

“Queremos que o publico sinta o artista, fale com ele. É um painel sobre o pecado original, muito contemporâneo, muito moderno. Trata questões do dia adia, de hoje”, acrescentou António Bernardini.

O cónego José Paulo Abreu realça também uma criação do artista Santiago Belacqua, que procura interagir com o público, o qual “vai poder pintar um bocadinho e deixar o seu nome”.

“Há algumas peças que, provavelmente, chocarão um bocadinho, cada tempo tem a sua linguagem e, assim, como os antigos se souberam exprimir, caraterizando e cristianizando a realidade do tempo deles, é normal que os atuais tenham a sua própria linguagem”, explica o diretor do Museu Pio XII

O sacerdote considera que a Arte Sacra precisava deste olhar mais moderno e que se produza no presente para “legar para o futuro, do mesmo jeito que no passado produziram para chegar até hoje”, dando continuidade a essa cadeia.

Recebemos um legado mas também somos criativos, temos inteligência, temos artistas. Não queremos ser apenas repetitivos, fotocópias”.

Neste contexto, garantiu que mesmo com “novas linguagens, e bem interessantes,” não existem obras “que sejam ofensivas, nem para a moral, nem para a crença de ninguém”.

Neste âmbito, António Bernardini também assegura que pretende uma “visão mais moderna”.

“Não queremos chocar a Igreja, mas agregar”, frisa o presidente da associação, para quem arte sacra contemporânea “é mostrar um olhar mais novo”, aproveitando para levar os jovens à Igreja, afinal a arte pode ser “um bom caminho para agregar, juntar as pessoas”.

“Vivemos um pouco num mundo sem fé e é importante agregarmos. Deus é visto de várias formas na pintura, escultura, e as pessoas podem encontrar-se novamente com a Igreja”, acrescentou o entrevistado, formado na área das artes, Design da Comunicação.

Foto: Diário do Minho

Em declarações à Agência ECCLESIA, o artista Santiago Belacqua assinala que gosta muito de pintar arte sacra, representando “o todo de dois milénios, desde o nascimento de Jesus Cristo”.

“Prende-se com a minha própria fé, com a religião”, revela o artista plástico, que tem como “figuras máximas” Jesus e Nossa Senhora e que, em 2016, ofereceu um quadro ao Papa Francisco.

Sobre a bienal, destacou o “grande desafio” de juntar muitos artistas a mostrarem o que “também gostam de fazer, que é pintar a religião, a emoção que é partilhada com tanta gente”.

Neste contexto, Santiago Belacqua considera que Igreja e cultura, Igreja e arte hoje “continuam a relacionar-se muito bem”, mesmo com as igrejas modernas não serem “tão apetrechadas com arte, como as igrejas antigas”, o que na sua opinião se prende também “com evolução dos tempos, com o conhecimento das pessoas”.

Os promotores já estão a pensar na próxima Bienal Internacional de Arte Sacra Contemporânea de Braga, em 2020.

CB/OC

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