Cardeal português participou em mesa da Festa Literária Internacional de Paraty dedicada ao silêncio
Paraty, Brasil, 23 jul 2026 (Ecclesia) – O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação (Santa Sé), D. José Tolentino Mendonça, defendeu hoje na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) que a poesia tem uma dimensão espiritual que dialogo com a vida de todos.
“A poesia tem de ser uma iniciação ao espanto”, referiu o cardeal português, numa mesa sobre o tema “saber de cor o silêncio’, na cidade brasileira.
O poeta e investigado falou com o escritor brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com mediação da poeta Sofia Mariutti, sobre linguagem poética e identidade.
Para o cardeal Tolentino Mendonça, este foi um encontro de pessoas “sedentas de palavra”.
“Aquilo que o poeta experimenta na experiência que o conduz ao poema é um ato espiritual, mesmo que aparentemente não tenha nada a ver”, sustentou.
O autor e teólogo, vencedor do Prémio Pessoa em 2023, referiu que, “na prática poética não se vive sem uma tensão, sem uma procura”, antes de sublinhar que “o mesmo acontece na fé”, dando como exemplo o chamamento de Abraão, no primeiro livro da Bíblia.
A fé pede sempre a disponibilidade para um nomadismo interior. Não é a instalação dentro de um território, não é possuir uma verdade, é deixar-se possuir pelo desejo dessa verdade”.
O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação observou que o lugar do poema “é a vida e não poderia ser de outro modo”, refletindo sobre o lugar da “ferida” e de “experimentar na carne o espanto”.
“Essa ferida, que a poesia torna mais viva, penso que é a nossa reserva de esperança para permanecer humanos”, indicou, sob os aplausos dos presentes.
‘Saber de cor o silêncio’, tema da mesma, é um verso de um poema da escritora brasileira Orides Fontela (1940–1998), publicado no livro Alba (1983): “Saber de cor o silêncio/– e profaná-lo, dissolvê-lo/em palavras”.
Questionado sobre a “profanação” da palavra, D. José Tolentino Mendonça afirmou que “profanar é libertar uma coisa da sua utilidade e dizer que ela é inútil, que é possível ser reencontrada de outra forma”.
“A poesia serve para profanar o silêncio”, fugindo a registos habituais para usar o silêncio de “outras formas”, acrescentou.
O cardeal e poeta convidou a “usar o silêncio como luz que se acende na casa vazia”.
Edimilson de Almeida Pereira aludiu ao silêncio como uma das “temáticas mais centrais na própria organização da sociedade e das culturas”.
O poeta brasileiro falou sobre a “construção cultural” do silêncio, no “meio do ruído” contemporâneo, assinalando que a tradição é uma “permanência em transformação”.
O autor destacou a importância das culturas populares, considerando que a relação com a oralidade é “crucial”.
O cardeal Tolentino Mendonça homenageou, a este respeito, os analfabetos que foram “responsáveis pela transmissão da cultura, durante séculos”, apontando à construção de pontes “entre a oralidade e a escrita”.
A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty começou esta quarta-feira e decorre até domingo.
No dia inaugural, o cardeal português presidiu a uma Missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a convite da paróquia local, no centro histórico da cidade.
OC
