Paroquiano de São Brás recorda percurso de fé desenvolvido na comunidade que viu crescer e fala da importância das peregrinações na sua vida, dos retiros na Comunidade de Taizé e de descobrir a fé «na cave» de uma escola

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 18 mai 2022 (Ecclesia) – João Pedro Sousa, diagnosticado há nove anos com um linfoma, disse que as “doenças mais graves” na vida são “um ato de fé” e que importa não esconder o impacto da doença nos projetos do quotidiano.

“Nunca me esqueço de um sacerdote muito amigo me ter dito: «Queres viver isto como um testemunho da ressurreição ou testemunha de uma morte anunciada?» Isso fez toda a diferença. Esse acompanhamento espiritual, essa presença amiga da Igreja. Vou-me fechar em casa? Vou ficar aqui abatido, ou vou procurar continuar a viver com as forças que tenho, com as dificuldades dos tratamentos? Como é que eu quero viver isto?», recorda à Agência ECCLESIA o paroquiano de São Brás, no concelho da Amadora, na periferia da cidade de Lisboa.

A doença, diagnosticada dois anos após o matrimónio, obrigou o casal a “reconfigurar sonhos e ritmos de vida”.

“Foi um balde de água fria. Somos humanos, sentimos as coisas. Foi algo que nos fez parar, ficar na expetativa – não podemos dizer o contrário. Foi algo que nos fez olhar para dentro e perceber que a fé que nos une, e que nos suporta, não pode ser só da boca para fora, não pode ser só sentimento, teoria. Tem de ser prática”, constata.

Depois dos tratamentos para ultrapassar a doença, o casal teve a “graça de gerar vida” e foram pais de duas meninas mas João Pedro Sousa explica a importância de se falar “dos medos” e das consequências dos tratamentos.

“Tivemos a graça de gerar vida, sermos pais. Foi algo em que pensei muito na altura dos tratamentos e da doença. Há esse medo e acho que é importante falar sobre isso. É importante ter noção dos impactos que a doença e os tratamentos podem ter na nossa vida, no nosso organismo, na nossa conceção natural e o poder concretizar o que é um projeto de vida, de sacramento e de graça”, sublinha.

O paroquiano de São Brás reconhece na sua comunidade paroquial um alicerce onde cresceu na fé, e também na doença, encontrou uma “comunidade orante” que “suportou o casal” nos dias “depois dos tratamentos mais complicados e mais tenebrosos”.

João Pedro Sousa descobriu na sua vida de fé a importância de peregrinar e nem durante o período da doença deixou de participar nas peregrinações ao Santuário de Fátima, organizadas também por si.

“As doenças, permitia-me dizer as doenças mais graves, as que acarretam uma densidade e um peso maior na nossa vida, atrevo-me a dizer, são um ato de fé. Esta confiança e esperança em Jesus, fez toda a diferença”, reconhece.

Em 2000, quando pela primeira vez peregrinou a Fátima, ao encontro de João Paulo II, João Pedro Sousa iniciou uma prática concretizada todos os anos desde então, seja ao Santuário na Cova da Iria, a Santiago de Compostela ou fazendo a Ruta Vadiniense, no norte de Espanha

“No caminhar redescobrimos a essência do ser humano. É um estar. Quem caminha e é peregrino durante várias horas, com o calor, chuva ou frio, pelo alcatrão e terra batida, por todos os vales e montanhas, percebe a riqueza da natureza e da criação que nem sempre estamos predispostos e disponíveis para acolher no nosso ritmo de vida na cidade. A proposta do caminho é diferente, a experiência de peregrino é semelhante: alguém que se coloca a caminho do encontro com o outro, com o que a vida tem para nós. Costumo dizer que é fácil caminhar mas não assim tão acessível entrar no ritmo de peregrino”, constata.

João Pedro Sousa radica o seu percurso em Igreja à paróquia onde cresceu, quando ainda a comunidade de São Brás se reunia na cave de uma escola para celebrar a fé.

“A comunidade tem alguns anos, tantos como eu, e é composta por pessoas que se foram juntando, de várias origens, vilas e cidades do pais, que foram viver para a Amadora, e foram querendo celebrar a fé. Assim nasceu a comunidade de São Brás, pertencendo inicialmente à paróquia da Amadora e depois, foi fazendo o seu percurso, até ser constituída paróquia, sempre tendo o sonho de construir uma igreja, um novo espaço para celebrar”, recorda.

Durante 35 anos foi na cave que “ia ao encontro de Jesus” e muitos paroquianos “fizeram catequese e os sacramentos, descobrindo a Igreja numa grande simplicidade e alegria”.

No final dos anos 90, João Pedro Sousa participou no então Departamento Diocesano da Pastoral Juvenil procurando ser animador de outros jovens, mas sempre com a certeza de que entre “caminhos e carismas, movimentos e formas de celebrar a fé, de viver a espiritualidade”, o mais importante é a “fidelidade à Igreja mãe, que acolhe, suporta; uma Igreja de fraternidade onde as pessoas fazem o melhor umas pelas outras e, desta forma, podem alcançar a santidade”.

A conversa com João Pedro Sousa pode ser acompanhada esta noite no programa Ecclesia na Antena 1 e escutada, posteriormente, no portal de informação ou em formato poadcast.

LS

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