No Parque das Nações juntaram-se mais de 7 mil pessoas, de 142 países, para segunda Conferência dos Ocenaos, da ONU. José Varela, da Comissão Executiva da “Rede Cuidar da Casa Comum” foi um dos participantes e é o convidado desta semana da Entrevista Renascença-Ecclesia

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

A delegação da Santa Sé na Conferência alertou para o risco de uma destruição sem precedentes, neste século, caso a comunidade internacional adie compromissos na defesa dos mares. Que expectativas de mudança podemos ter, quando a decisão está concentrada nos mesmos de sempre?

Houve uma delegação, em particular, que veio da Oceânia, e que várias instituições e organizações católicas receberam em Portugal, com muito gosto. A esperança está sempre presente.

Nestes dias temos momentos de alguma angústia, se calhar, e até alguma revolta, que também faz parte, mas temos sempre de acreditar que qualquer pequeno passo é importante. Nestes dias, criou-se uma rede de pessoas, que se vai juntando, da sociedade civil, em interação com pessoas de outras denominações religiosas ou não-confessionais. Essa rede vai crescendo, os relacionamentos também são importantes, não é só a discussão técnica: há aqui também um trabalho de consciência.

 

E que pode ser um fator de mudança no futuro?

Pode ser, porque a mudança começa por cada um de nós, de facto. São vários planos de trabalho, não vemos tudo negro, no sentido de não irmos conseguir, mas é um trabalho longo. São processos, como diz o Papa Francisco, e o importante é criá-los. Mesmo as organizações que estiveram connosco, na delegação, isto é só um momento: o principal do trabalho acontece entre COP, entre conferências. Queremos deixar uma palavra de esperança, há coisas que podem mudar, todos os pequeninos passos são sempre importantes e bem-vindos.

 

Mas não acaba por haver decisões que são sempre dos mesmos?

Numa declaração de compromisso, de tantos países, vai-se até onde se pode, certamente, e é um trabalho a nível político. Nestes dias, viemos a alertar para a necessidade de contar com outras esferas da atividade humana, a parte espiritual, a voz dos povos indígenas, da juventude. Portanto, é um caminho que não está como todos gostaríamos, mas é um trabalho que vale a pena: vemos estar organizações que se juntam, acompanham e querem ter uma voz, participar neste diálogo, numa perspetiva de fé.

 

O compromisso do Papa e do Vaticano, visível na encíclica ‘Laudato Si’, ainda está longe de ser entendido e acolhido por todos?

Penso que sim, ainda há muito caminho para percorrer, à volta da ‘Laudato Si’. Há comunidades em diferentes estádios evolutivos, pessoas também… eu próprio posso ter contacto com a mensagem, numa altura percebo-a de uma maneira, depois percebo outra abrangência e o impacto é diferente. Apesar de tudo, a ‘Laudato Si’ tem sido um grande farol e movimentado muita gente; eu, em particular, sou voluntário do Movimento Laudato Si e, neste momento, existem no mundo 8 mil animadores formados, o que quer dizer que há muita gente com vontade de, nas suas comunidades, nas suas realidades, continuar a passar esta mensagem.

 

Ficou com a ideia de que a voz de Francisco é ouvida, ou nestas conferências há pouco espaço para a linguagem de Deus e para falar de espiritualidade?

A maior parte do que ouvimos são mensagens científicas, mas, por exemplo, o arcebispo Chong (Fiji) foi aceite como ‘stakeholder’ para falar ao plenário da Conferência, e também outra ativista que está connosco, Pelenatita Kara, que vem da Cáritas Oceânia. Isso anima-nos, são perspetivas novas, que fazem parte do diálogo. Não que as outras não sejam importantes, precisamos é de todos.

 

D. Peter Chong, arcebispo das Ilhas Fiji, que participou nesta conferência mostrou-se um tanto desiludo e numa entrevista à Renascença disse que “o verdadeiro povo, cujo grito o mundo precisa de ouvir”, não esteve presente. É a voz de alguém que vive numa das zonas mais afetadas pelas alterações climáticas e pela subida das águas… Falta mesmo ouvir mais quem sofre as consequências, neste debate?

Sem dúvida. Há aqui alguns fatores, a começar por onde vivemos, o que experimentamos no dia a dia. Um dos delegados da Oceânia mostrou fotografias para mostrar pessoas que vivem diariamente com água à porta de casa, como se fosse uma inundação, mas permanente. Outra coisa é estar num sítio onde, se calhar, não me lembro disso todos os dias. Mas nós estamos unidos, o Oceano acaba por nos afetar a todos.

É importante dar voz – e esta delegação tentou fazê-lo, num evento, a 28 de junho – às histórias e ao testemunho pessoal, que é muito tocante, verdadeiro. Quando se fala do coração, não se consegue mentir.

 

Acompanhou a delegação dos católicos da Oceânia que esteve em Portugal. Que lugar houve para os mais atingidos pela crise climática? Para os representantes indígenas? Lembro especificamente dois dos intervenientes do evento que referiu, que acabaram as suas intervenções em lágrimas…

Esse foi um evento paralelo, não entrou no programa, mas teria sido bom, para que mais pessoas ouvissem, percebessem esses testemunhos. Às vezes estamos a tratar de coisas muito técnicas e políticas, mas esquecemos o impacto que isso vai ter.

Estamos satisfeitos, porque o evento acaba por ter repercussão a nível de redes sociais, vai continuar disponível, existe um site específico, o www.oceaniatalanoa.com, onde é reunida toda a documentação e as intervenções. Isso dá-nos esperança, essa voz não está completamente silenciada, talvez precise de ser amplificada, com mais espaços em que todos possam ser ouvidas. ‘Stakeholder’ não é só uma palavra bonita, mas é algo que devemos praticar, cada vez mais.

 

Sabemos que iniciativas das Nações Unidas obedecem a um conjunto de regras…. Mas, iniciar-se um evento destes tendo à partida já um rol de conclusões definidas prejudica o debate?

Eu acho que há debates em diferentes níveis. E isso é uma grande declaração e acho que se compreende que, quando se procura o consenso de tanta gente, se calhar não se vai tão longe como se pretendia. Mas há outros diálogos. Há dezenas de eventos que estão a existir, e, portanto, acho que não devemos olhar só para a conferência e sua declaração final. Há todos estes diálogos e este trabalho que vai surgindo que também é importante e que também é diálogo.

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Isso leva à nossa próxima pergunta. Quando olhamos para o panorama macro há a tendência de delegar funções e responsabilidades no Estado, nos responsáveis políticos, na comunidade internacional, como uma entidade abstrata. Seria importante uma reflexão sobre os impactos das ações humanas para a natureza? E também o no seu papel de novas formas de produção e de consumo?

Sim, isto é um trabalho de todos. Não podemos dizer que isto é com cada um. Ou então o contrário e pensar-se que as grandes instituições é que vão resolver, o Estado é que vai resolver. Acho que o trabalho é de todos, e aqui também o movimento ‘Laudato Si’, a rede de cuidar da casa comum – todas estas organizações- também trabalhamos para provocarmos mudança. Também temos de nós próprios mudar e isto é um trabalho constante…

Mas há sempre o problema da resistência à mudança?

Há a resistência à mudança. Há as opções também. Uma coisa que muitas vezes preocupa é o facto de o consumo ético muitas vezes ser mais caro do que o consumo não ético, e se calhar devia ser o contrário. Incentivar quem tem essa preocupação e não o contrário. Não é fácil. E aliás, a ‘Laudato Si’ é uma encíclica que desinstala. A mensagem não nos deixa sossegados. Há sempre qualquer coisa que é preciso mudar. Às vezes por aí também pode haver resistência porque chega-se ao fim e está em causa o estilo de vida…

 

A própria proposta de ter menos e viver com menos que em última instância, é isso?

Perfeitamente. Envolve toda a nossa vida, os padrões de consumo. Toda a nossa vida como está organizada. Isso também tem de ser conseguido em pequenos passos. Tentar o possível e com algum impacto. Mas, há outras iniciativas e por exemplo a plataforma ‘Laudato Si’ que é promovida pelo dicastério para o desenvolvimento humano integral e onde está o movimento ‘Laudato Si’ e muitas outras organizações já tem esse objetivo de tentar ajudar as pessoas, organizações, universidades, empresas, podem-se inscrever, registar-se e têm acesso a documentação para planos de ação porque a ideia é mesmo passar à prática. E isso pode ajudar. Juntos é mais fácil do que sozinhos.

Que lugar tiveram os mais jovens, nesta Conferência, sabendo que eles são os mais empenhados na luta climática?

De facto, como se falou já noutros momentos com a delegação não vemos jovens em todos os fóruns que se calhar gostaria que estivessem. O Padre Pedro até falou disso no dia 28, sobre a possibilidade de participarem mais até mesmo para entrar nestes mecanismos e compreender as suas dinâmicas. No programa houve outros momentos para jovens, como por exemplo em Carcavelos, a marcha azul pelo clima, onde houve participação. Mas, o que se sentiu e que vamos falando também entre nós é que podia haver mais espaço para os jovens nestes fóruns onde depois acabam por sair decisões.

Ainda estamos muito marcados pela crise pandemia e agora temos uma guerra na Europa. Teme que estas circunstâncias dramáticas possam atrasar a implementação de medidas que foram acordadas nas conferências do Clima e neste tipo de iniciativas?

Acho que sim. Estes acontecimentos que são tudo urgências, pois o mundo confronta-se com todos estes problemas e por exemplo a agenda mediática também influencia depois as prioridades e às vezes são coisas contraditórias. Por um lado, precisamos de um reforço de gasto em armamento, face ao que está a acontecer, mas precisávamos também de financiamento e de investimento para muitas outras coisas que também são urgências. Só que, se calhar nuns sítios tem mais atenção e noutros sítios esquecemo-nos.  Acho que há o risco. Mas gostaria mais de dizer: temos de tentar que isso não aconteça. Não esquecermos o que disse o Secretário-Geral das Nações estamos perante uma emergência. E por isso, todos temos que tentar dar o nosso contributo, mas sabemos que há muitas outras prioridades que se podem sobrepor. Vamos tentar não deixar que isso aconteça.

 

Uma das preocupações das Nações Unidas tem a ver com a subida do preço do peixe, de cerca de 25 por cento, em cerca de meio ano. Isto pressiona os consumidores, mas se calhar também pressiona a indústria para uma maior procura face ao lucro. E isto pode precipitar por exemplo de uma agenda que saia desta conferência? 

Nós precisamos também do envolvimento das empresas e do sector empresarial e das indústrias e de facto há muitas forças e condicionantes que podem prejudicar. Agora, acho que isso não nos deve fazer baixar os braços e procurar também diálogos e formas de pontes e pontes de encontro onde seja possível continuar esta agenda e esta caminhada.

 

Muitas das medidas têm impacto económico e depois nunca há grande disponibilidade para assumir o custo do que se tem de fazer, não é?

Sim, claro. Embora há passos que vão sendo dados. Nós não temos a mesma realidade que havia há algum tempo, e, portanto, isso será possível. E o nosso trabalho com organizações ligadas à Igreja é também sensibilizarmos individualmente cada pessoa, porque as pessoas estão em muitos sítios não é. E, portanto, isso também pode ajudar porque as decisões são tomadas por pessoas. Por muito que tenhamos aquele mito das decisões apenas financeiras há sempre a vertente ética, a vertente das escolhas, e portanto, cada um trabalhará nas suas áreas. O nosso trabalho tem muito a ver com o despertar essas consciências porque as decisões são tomadas por pessoas e essas pessoas podem de facto fazer a diferença, nos sítios onde estão.

Rápido aumento do nível do mar, agravamento da erosão costeira, aquecimento e acidificação dos oceanos, poluição marinha… O alerta surge de todos os lados: a humanidade está a afundar-se. Mas parece que esse alerta já não é suficiente. Vai ser necessário uma maior radicalidade na procura de soluções?

A procura de soluções técnicas tem que andar a par. Achamos importante parar e perceber o que é que estamos a fazer. Por exemplo, o plástico que eu deito aqui vai aparecer, se calhar na casa destas pessoas com quem eu estive agora e isso faz muita diferença. Não sei se a opção tem de ser radical. Direi que temos de aprofundar e acelerar, porque não pode ser apenas nestes momentos, nestes grandes eventos que se trata destes assuntos. Há aqui um trabalho de continuação. E por exemplo posso dizer que está a ser organizado entre várias organizações católicas – Universidade Católica da Austrália, com o dicastério do desenvolvimento humano integral – está a ser preparada uma conferência online sobre os oceanos. Fica aqui a notícia um bocadinho em primeira mão. Está a ser preparada uma conferência internacional sobre os oceanos online que será em outubro.  E portanto, será também um momento de voltarmos a falar disto agora não dentro das regras e do esquema da ONU, mas será organizada por estas instituições ligadas à Igreja onde toda a gente terá voz. Realmente para não deixar cair o assunto porque é preciso acelerar. É preciso aprofundar e não esquecer que estamos todos em causa. E com tanta coisa à nossa volta é isso que esquecemos. E não estou a fazer juízos de valor sobre quem é mais perfeito ou não, mas isto deve-nos fazer pensar e não esquecer e continuar. E é isso que nós vamos tentar e continuaremos com certeza juntamente com estas várias organizações e tantas pessoas. E isso também é uma nota de esperança, porque há pessoas que realmente se preocupam. Há muita gente, e isso tem que dar alguma coisa.

Fazendo parte da denúncia e da importância de manter o assunto à tona….

Exato. A preocupação de cada um pode ser a preocupação de muitos. E este conjunto pode fazer de facto aos poucos a diferença; sem idealismos irrealistas. Mas, há passos que tem que ser dados e há coisas que mesmo na Igreja nós vemos que estão a ser feitas, e muito inspiradas pela ‘Laudato Si’ e outros documentos. De facto há coisas muitas diferentes do que era há algum tempo. Queremos que isto continue.

 

 

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