Pastores de coração jovem numa Igreja de rosto jovem e dos jovens

 

É particularmente bela e rica de emoção esta manhã de Quinta-feira santa. Reunidos à volta do altar do Senhor como Igreja com o seu presbitério e o seu bispo damos graças pelo dom do sacerdócio ministerial e pelos jubileus de ordenação de alguns presbíteros. Desde já quero saudar, com fraterno afeto, todos os presentes (padres, diáconos, consagrados/as, seminaristas e demais fiéis) e exprimir a minha viva congratulação com os jubilários. Na comunhão dos santos queremos também fazer memória viva e grata, nesta eucaristia, dum irmão do nosso presbitério e de outro dehoniano, capelão do Santuário de Fátima, que, ao longo do ano, partiram para a casa do Pai.

A celebração desta Missa Crismal insere-se no caminho pastoral diocesano dedicado à transmissão da fé aos jovens e ao seu discernimento vocacional. Inspirando-me na liturgia da Palavra, no documento final do Sínodo dos bispos, na recente Exortação Apostólica do Papa “Cristo vive” desejaria propor uma reflexão intitulada “Pastores de coração jovem numa Igreja de rosto jovem e dos jovens”, em três pontos.

As palavras de abertura da Exortação Apostólica põem-nos neste caminho: “Cristo vive. Ele é a nossa esperança. Ele é a mais bela juventude deste mundo. Tudo o que Ele toca, torna-se jovem, faz-se novo, enche-se de vida… Ele vive e quer-te vivo. Ele está em ti; Ele está contigo e nunca se vai embora. Mesmo que tu te afastes, a teu lado está o Ressuscitado, que te chama e te espera para recomeçar…para te devolver a força e a esperança”. Esta mensagem toca-nos de algum modo a todos e ajuda-nos a atualizar a Palavra de Deus escutada.

 

Pastores de coração jovem

Perante a atual realidade dos jovens, particularmente na Igreja, vem-nos facilmente à consciência a sensação de distância em relação a eles, as dificuldades em descobrir oportunidades e iniciativas de aproximação e os magros resultados nos esforços pastorais na área juvenil. Nesta situação, vem ao nosso encontro para nos iluminar e dar alento, a profecia de Isaías. Ela convida-nos a ter um coração novo, sempre aberto à novidade do amor do Senhor: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque o Senhor me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos…”. Esta profecia traça o programa e a missão do próprio Cristo ao longo de toda sua vida. E só para ter a certeza de que não nos escapou o mais importante, Jesus diz: “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura”. Estas palavras cumprem-se também na realidade presente da Igreja e do nosso ministério. É mensagem que ressoa viva e ativa em nós e para cada um de nós.

Hoje, o Espírito renova o perfume da nossa unção sacerdotal, torna-nos novos, dá-nos um coração jovem, quer dizer, à escuta do Senhor, numa abertura orante e generosa à novidade da sua ação no mundo; um coração capaz de olhar os jovens com o olhar benevolente de Deus e de ousar sair ao seu encontro para levar a boa nova às suas ânsias, inquietações e dificuldades.

Eles desejam ser escutados, mas nós temos dificuldade sobretudo face aos desafios provocadores ou às fragilidades. É que a escuta requer estar disponíveis a mudar, a deixar-nos transformar. Os jovens interpelam-nos e trazem-nos novidades, que é preciso discernir e saber acolher para rejuvenescer a Igreja e inovar na ação pastoral.

Além disso, os jovens desejam ser acompanhados, mas não arrolados ao jeito da tropa.

Para realizar um verdadeiro caminho de amadurecimento, segundo o exemplo de Jesus, eles têm necessidade de adultos de referência, credíveis pelo testemunho, que sejam forças inspiradoras e geradoras de vida. Perguntemo-nos: como exercemos este acompanhamento?  Sabemos que ele pode ser confiado também a leigos, homens ou mulheres, e a religiosos ou religiosas preparados para isso?

 

Igreja de rosto jovem

Também a Igreja e cada comunidade cristã é desafiada a mostrar o seu rosto jovem. Não através de uma operação de maquilhagem, mas deixando-se renovar por um amor redescoberto e acolhido sempre de novo. A leitura do Apocalipse recorda-nos o Senhor Ressuscitado, como “Aquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino (povo) de sacerdotes para Deus seu Pai”, com a oferta da vida nova recebida no batismo. Este povo é a Igreja do amor, a comunidade da nova aliança, chamada a uma contínua conversão e reforma. Neste sentido, a Igreja é jovem “quando recebe a força sempre nova da Palavra de Deus, da Eucaristia, da presença de Cristo e da força do seu Espírito em cada dia. É jovem quando consegue voltar continuamente à sua fonte” (ChV 35), ao essencial do primeiro amor. É jovem quando não se compraz em viver das rendas do passado, mas responde, com audácia de fé e generosidade de coração, aos novos sinais dos tempos e aos desafios culturais, especialmente, das novas gerações.

Os jovens sonham uma Igreja autêntica, mas muitas vezes veem dois rostos: de um lado, uma Igreja que quer estar presente nos meandros da história, próxima das pessoas, solidária com os pobres e os frágeis, promotora do respeito pelo ambiente , mas por outro lado, que ainda tem muito a fazer para ser mais servidora, transparente e misericordiosa, para limpar e afastar de si toda a corrupção e escândalos que contrariam todo o espírito cristão.

Os jovens querem uma Igreja relacional, amiga e confiável. Não basta ter boas estruturas. É preciso promover comunidades de relações fraternas, capazes de acolher sem julgar à partida, de modo que eles descubram que a Igreja é comunhão, a sua família e nela se sintam em casa.

“Quando a Igreja escuta, acompanha, cura, reconcilia, torna-se no que é e tem de mais luminoso, uma comunhão de amor, de compaixão, de consolação, de reflexo límpido de Cristo ressuscitado. Nunca distante, nunca à defesa, liberta de severidades, ela pode irradiar a humilde confiança da fé até ao íntimo dos nossos corações humanos” (Fr Roger Schutz).

 

Jovens protagonistas na Igreja

Por fim, a página evangélica ajuda-nos a compreender como a Igreja tem necessidade dos jovens e de os envolver tornando-se “discípulos missionários”. O comentário de Jesus “Hoje mesmo cumpriu-se a passagem da Escritura que acabais de ouvir” é o anúncio solene do acontecimento de graça que se realiza hoje na vida de todo o homem que o acolhe no coração. Desde a sinagoga de Nazaré ressoa este chamamento dirigido especialmente aos jovens a fazer do seu presente o “hoje” de Deus e assim a tornarem-se colaboradores, protagonistas da história da salvação própria e do mundo.

Foi o que o Papa Francisco disse nas recentes JMJ: os jovens são “o agora de Deus”, isto é, a alegria, a força e a esperança de “outro” mundo possível, um mundo diferente. Eles são o “hoje” e têm que expressar-se positivamente “hoje” com a sua criatividade, como protagonistas responsáveis, e não meros espectadores, para tornar possível um mundo melhor. “O mundo e a Igreja têm necessidade urgente do vosso entusiasmo”, disse-lhes o Papa.

Há que apoiá-los nas suas ideias e iniciativas inovadoras sem querer domesticá-los. Eles têm necessidade de se sentirem úteis, de ver a sua criatividade encorajada, de receberem e assumirem responsabilidades nos vários âmbitos dentro da comunidade cristã e nas saídas para as periferias humanas através do voluntariado socio-caritativo ou missionário. Eles pedem para ser protagonistas, e já o são nalguns campos, mas encontram também falta de confiança da parte dos pastores e dos adultos. Estamos atentos a isto?

Os jovens têm isto de interessante. Com eles podemos ler mais profundamente a nossa época e as expectativas do Senhor que nos convida a uma conversão pastoral, missionária, pessoal e comunitária. O Espírito de Deus impele-nos a sair até eles e fazer caminho juntos, sem paternalismo, até ao seu encontro com Cristo e com a alegria do Evangelho. Não tenhamos medo de iniciar processos de pastoral, de inovar métodos e formas, sem ver resultados imediatos. A presença dos jovens é um facto destinado a tornar-se um paradigma para muitas comunidades demasiado fechadas nos limites de uma pastoral de tradições e de manutenção ou só para crianças e idosos.

Com o Papa Francisco “peçamos ao Senhor que liberte a Igreja daqueles que a querem envelhecer, encerrar no passado, detê-la, imobilizá-la” (ChV 35). Renovemos as nossas promessas avivando o fogo do nosso amor ao Senhor, à sua Igreja, ao nosso ministério, ao povo de Deus e aos jovens, por intercessão da Virgem Santa, “a jovem de Nazaré” e Mãe da Igreja.

Leiria, 18 de abril de 2019.

Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

Partilhar:
Share