Conhecemos bem o que nos distingue de todas as outras crenças religiosas: a certeza de que a nossa fé não resulta de uma qualquer tentativa de procurar a Deus pela via sempre limitada da nossa racionalidade, mas da resposta ou da abertura do coração a um Deus que, historicamente, vem ao nosso encontro para nos dizer Quem é e que nos promete.

 

O nosso Deus é, de facto, um coração aberto, um amor que transborda, uma verdade comunicante. Por isso, diz. Diz e mostra-Se: revela-Se. Na sua forma sábia e amorosa de se relacionar connosco, escolheu um povo para Se apresentar e confiou a muito a tarefa de fazer sentir o seu ser e a sua presença. Mas a dado momento, em tempo datável, quando a expectativa já estava madura, mostrou-se na plenitude do seu ser no Revelador definitivo, tal como afirma o autor da carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes tempos, que são os definitivos, falou-nos por seu Filho” (Heb 1, 1).

 

Jesus é, pois, o Verbo tornado pessoa para falar às pessoas em nome do Pai. Melhor: para fazer ver o Pai, como mais tarde dirá a Filipe: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9). Por isso o denominamos Verbo de Deus, Palavra Viva ou Revelador definitivo. Só Ele o pode fazer, pois só Ele, Verbo encarnado, é “a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem” (Jo 1, 4).

 

Luz que mostra a razão de ser ou objetivo da revelação divina: nas palavras de Santo Atanásio, “Deus fez-se portador de carne humana para que os humanos possam tornar-se portadores do Espírito”. Este é, pois, o grande «segredo» divino comunicado ao mundo: que a humanidade pode participar na vida divina, a fim de que, por Ele, com Ele e n’Ele, cada homem e cada mulher se assumam como membros da família divina, pois “àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”.

 

Mas o Menino, acabado de nascer, já comunica? Sim, fala mesmo no silencio. É nele que indica que, para chegar a Deus, é preciso percorrer a via das bem-aventuranças. Já diz, com a sua própria experiência histórica, que a revelação acontece e o acesso a Deus se faz na pobreza, na humildade, na simplicidade e na paz, quando não nas lágrimas e na perseguição.

 

Por outro lado, os acontecimentos interligados com o natal do Verbo de Deus apresentam uma específica pedagogia para a tal revelação e acesso a Deus, de cada um de nós e dos outros homens e mulheres. Passa por três momentos lógicos e cronológicos, todos insubstituíveis.

 

Em primeiro lugar, há que responder positivamente à inquietação que se apodera de nós –não a sufocar- e cumprirmos a nossa parte: há que se voltar para Ele com um coração indigente. Como fizeram os pastores e os magos. Só os que sabem esvaziar o coração das habituais preocupações podem encontrar aquele «Alguém» que nos liberta da autossuficiência que gera a miséria radical, a discórdia que divide e o prosaico da vida que rouba a esperança.

 

Depois, há que reconhecer naquele Menino o único Salvador. Tarefa difícil, pois nada o prova e tudo parece desaprovar: pode ser o Rei dos reis e o Senhor dos senhores aquele que nem sequer um berço possui e tem de aceitar a oferta de uma inacreditável manjedoura? De facto, só os simples estão aptos para deixar afluir a intuição do mistério.

 

Finalmente, há que ajudar o grande grupo a reconhecê-lo. De certeza, os pastores, os magos e tantos habitantes de Belém que se dirigiram à gruta, não calaram o que viram e ouviram, mas difundiram-nos ao largo e ao longe. É que a alegria e a felicidade geradas no contacto com este Menino exigem difusão, transmissão, testemunho. Não fora Ele “a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem”. Quem se ilumina, funciona como espelho: difunde a luz.

 

Caros cristãos, feliz Natal! Abri-vos a esta luz, reconhecei-a como salvadora e difundi-a no vosso meio.

D. Manuel Linda, bispo do Porto

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