Sé de Vila Real (pormenor). Foto: Agência ECCLESIA/OC

«O Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo. 1,14). Esta frase do prólogo do Evangelho de São João que acabamos de escutar é a grande síntese do mistério do Natal. Jesus, nascido em Belém, é a presença nova, viva e autêntica de Deus no meio da história.

 

Deus que tudo criara com a força da sua palavra, que «de muitos modos falara antigamente pelos profetas» (Heb.1,1), como diz a Carta aos Hebreus, ao enviar o seu Filho ao mundo diz a Palavra definitiva. Nascido de Maria, colocado na manjedoura, Jesus é a Palavra feita carne, a Palavra tornada vida. Desta forma aquele Deus que nunca ninguém viu, finalmente mostrou-se, revelou-se no rosto humano do Filho onde resplandece a glória do Pai.

 

Nesta solenidade do Natal celebramos o momento decisivo da história, o momento em que tudo começa a mudar, o início de um tempo novo, um tempo de salvação. O anúncio deste acontecimento deve ressoar em todo o lugar e o seu eco precisa de tocar todos os corações. A notícia do nascimento de Jesus que animou aquela primeira noite, provocando o entusiasmo dos pastores, precisa de ecoar também hoje aos ouvidos de todos e sobressaltar os espíritos, sobretudo os mais acomodados e adormecidos.

 

A grande notícia do Natal – Deus visitou o seu povo! Ele veio viver entre nós! – suscita a necessidade de nos aproximarmos do presépio, atraídos pela sua figura central, o menino deitado na manjedoura, tendo a seu lado as figuras de Maria e José. Aí chegados a grande surpresa é que na fragilidade e simplicidade de um corpo de criança habita o próprio Deus.

 

Neste dia de Natal precisamos de contemplar este menino no presépio, sinal maior da glória divina presente no mundo, e assim sentir o encantamento da vida. Mas diante dele experimentamos também a necessidade interior de rezar e adorar em silêncio e ainda o desejo de expressar em cânticos e louvores a alegria e a paz de quem acolhe a maravilha de Deus. Viver e celebrar plenamente o mistério do Natal do Senhor exige que estejamos de corpo inteiro, atentos para escutar, despertos para ver e reconhecer a presença simples e fascinante do mistério e disponíveis para dizer e manifestar o que sentimos.

 

O encanto do Natal e a sua centralidade na história e na nossa vida, não nos pode fazer esquecer que Jesus «veio para o que era seu e os seus não o receberam», que «a luz brilhou e as trevas não a receberam». Este risco é bem atual e real sempre que o Natal se torna uma mera festividade exterior, reduzido a um evento social ou período comercial. Mas todos aqueles que celebram o Natal com espírito de fé porque acreditam que é o momento marcante da história da nossa salvação, são chamados a partilhar a luz e a vida que receberam de Jesus. Porque Jesus nasceu para todos, a todos quer iluminar e salvar, em todos os corações quer fazer a sua morada. Só desta forma se realiza o desígnio cantado pelo salmista: «Todos os confins da terra viram a salvação do nosso Deus».

 

O Evangelho deste dia solene aponta ainda para o objetivo mais alto do mistério da encarnação do Verbo: «Àqueles que o receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo.1,12). O nascimento de Jesus, sinal maior de Deus na história, torna possível uma outra obra grande: que cada um de nós nasça como filho de Deus. O Pai deu-nos o Filho para que, acolhendo-o na fé, pudéssemos aspirar ao desígnio mais elevado proposto aos humanos: ser filhos com o Filho. Este renascimento não é obra da carne, do sangue, do povo, cultura ou classe social, mas é espiritual e acontece pela fé. Neste sentido percebemos que fazemos parte do presépio, o mesmo Jesus quer nascer espiritualmente em nós e habitar nos nossos corações.

 

Neste dia belo do Natal do Senhor, desejaria que Ele estivesse vivo nos vossos corações. Desta forma a sua presença seria mais autêntica, visível e reconhecível na vida de cada casal, de cada família, de cada grupo e comunidade. Só quando Ele nasce em nós e percebemos a força da sua presença é que tudo pode ser diferente, tudo pode mudar em nós e no mundo à nossa volta. Só quando Ele nasce e permanece em nós, a paz, a alegria e o amor deixam de ser episódicos e fugazes e tendem a ser permanentes e duradouros.

 

Que Jesus, nascido em Belém, nasça também nos vossos corações, vos dê todas as graças e vos ajude a ser verdadeiros filhos de Deus.

 

Um Santo e Feliz Natal para todos. AMEN.

 

Vila Real, 25 de dezembro de 2019

D. António Augusto Azevedo

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