VIGÍLIA PASCAL

Sé do Funchal, 20 de Abril de 2019

Hoje todos os sinais nos convidam a deixar que Deus passe por nós e a, com Jesus, passarmos da morte à vida.

Perante os nossos olhos e o nosso coração, uma luz rompeu as trevas.  Ela dava-nos testemunho de um outro luzeiro, Jesus Cristo, Sol que não tem ocaso, luz que ilumina o mundo inteiro e que, vencendo as trevas do pecado e da morte, ressurgiu vitorioso do sepulcro.

Depois, aos nossos ouvidos foi proclamada a Palavra de Deus — aquela mesma Palavra que ressoou no meio do silêncio duma terra vazia e deserta, em que as trevas cobriam o universo. A Palavra ressoou, “Deus disse” e começou a surgir o esboço da Sua obra-prima. É certo que o ponto de partida foi uma criação em que “era tudo muito bom”; mas era apenas um esboço.

Como esboço era ainda a atitude de Abraão ao caminhar por entre a noite escura da fé e ousar construir toda a sua vida em cima da promessa de Deus.

E esboço continuava a ser aquele acontecimento salvador em que um povo, deixando para trás o cativeiro do Egipto, caminhou durante a noite a pé enxuto por entre as águas do Mar Vermelho, em direcção à Terra da Promessa.

Mesmo os profetas e o seu anúncio de um coração novo e de um espírito novo, mesmo eles continuaram apenas a ver de longe (ainda que com alegria — Jo 8,56) o dia que vence as trevas.

Foi então que, no seio da história, quando a morte parecia ter levado a melhor, quando tudo parecia perdido e a Palavra ter sido também ela derrotada, quando o grande silêncio envolveu o mundo no dia de Sábado — foi então que o Senhor Jesus, vencendo a morte e o pecado, ressuscitou vitorioso do túmulo. E esta Boa Notícia acabou de ressoar também hoje nesta catedral: Aleluia!

Esta é a noite. É a noite em que Deus passa vitorioso pelas nossas vida, e nos oferece a salvação. É a noite que “brilha como o dia e a escuridão é clara como a luz”. É a noite que “afugenta os crimes, lava as culpas; restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes; derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz”, como cantámos.

Esta é a noite em que Cristo ressuscita vitorioso do túmulo e nos oferece a vida. Hoje a morte foi vencida, e a nós, que no baptismo fomos sepultados com Cristo, foi-nos dada a graça de com Ele ressurgirmos e vivermos para sempre.

Agora conhecemos o plano de Deus; conhecemos a Sua obra-prima: Jesus ressuscitado, Homem novo que dá origem a um novo modo de viver, a uma humanidade nova, renascida a partir das águas do baptismo. “Se alguém está em Cristo — afirmava S. Paulo — é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; eis que tudo se faz novo” (2Cor 5,17).

Esta é a noite da vigília. Quem poderia deixar-se dormir, sabendo que a morte foi para sempre derrotada? Esta é a noite que brilha como o dia porque para todos foi escancarado o horizonte da vida eterna — e, em dia como este, não podemos dormir, não podemos descansar.

Vigiemos: vigiemos por nós; vigiemos pelos irmãos; vigiemos pelo mundo em que vivemos. Vigiemos agora e assumamos essa atitude de vigilância em toda a nossa vida. Vigiemos e caminhemos. Vigiemos e proclamemos ao mundo a ressurreição de Cristo, que é vitória de Deus e vitória do ser humano. A nossa vitória.

Homilia do bispo do Funchal na Vigília Pascal

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