“Assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova” (Rom 6)

No excerto da Carta aos Romanos que escutámos, S. Paulo apresentava à Comunidade de Roma um raciocínio central para a nossa vida de cristãos: ser cristão, dizia o Apóstolo, é viver unido o mais possível a Cristo.
Ou seja: ser cristão é estar unido a Cristo exteriormente, procurando assumir os mesmos comportamentos e as mesmas atitudes que Ele; é estar unido a Cristo psicologicamente, vivendo os mesmos pensamentos e sentimentos; mas é, sobretudo, estar unido a Cristo em união de ser, deixando que seja Ele a viver em nós — deixando que Ele tome conta de tudo o que somos, temos e vivemos. Se tal acontecer, então a vida de Cristo será a nossa; o destino de Cristo será o nosso: e se Cristo ressuscitou, também nós havemos de, com Ele, ser ressuscitados.
- “Cristo ressuscitou dos mortos para glória do Pai”
Cristo ressuscitou. Esta é a grande notícia que fez correr os primeiros cristãos, e que faz correr, em particular, a S. Paulo, depois que o Ressuscitado lhe saiu ao encontro na estrada de Damasco, e o antigo perseguidor se rendeu à vida gloriosa que Jesus lhe propunha.
Desde esse momento, os cristãos correm até aos confins do mundo porque trazem consigo uma notícia única mas essencial para todos os seres humanos: um de nós venceu a morte e mostra em si a vida, a glória de Deus. E isso significa que a morte pode ser vencida; que a morte deixou de ser um destino inevitável para os seres humanos. O muro da morte que nos condenava e separava da vida foi derrubado para sempre.
E essa é também a grande notícia que nos faz correr a cada um de nós — para a vivermos com feliz alegria, porque abre diante de nós o horizonte da vida eterna; e para a comunicarmos aos outros, de modo a transformar a sua vida, a vida das diferentes sociedades e culturas humanas: de todas as suas estruturas, modos de pensar, organizações sociais e políticas.
A notícia da ressurreição de Jesus é a notícia que nos anima a ser cristãos durante esta nossa vida: a procurar ser “por Cristo, com Cristo e em Cristo”, apesar de todas as dificuldades e sofrimentos.
De um modo particular, esta é a notícia que preenche esta noite santa, esta noite de Páscoa. Ao romper da manhã, um grupo de mulheres foi procurar um sepulcro cerrado e encontraram um Anjo que, da parte de Deus, lhes retirou a pedra que fechava o túmulo; foram para chorar o amigo morto, e depararam-se com a notícia alegre e jubilosa da ressurreição; estavam derrotadas com o acontecimento da morte, e anunciaram-lhes a alegre notícia da vitória sobre a morte; foram procurar o Crucificado e saiu-lhes ao encontro o Ressuscitado, cheio da glória de Deus.
- “Também com Ele viveremos”
“Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre Ele”.
Como morremos com Cristo? O Baptismo, dizia S. Paulo, configura-nos com Cristo: “Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte”. No baptismo morremos com Cristo. O baptismo é, em primeiro lugar, um sacramento de morte.
No século IV, São Basílio Magno interrogava-se: “Como poderemos assemelhar-nos a Cristo na sua morte? Sepultando-nos com Ele pelo Baptismo. Em que consiste esta sepultura e qual é o fruto desta imitação? Antes de mais, trata-se de cortar com a vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto, se não renascer de novo, segundo a palavra do Senhor, porque o renascimento, como o nome indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é necessário pôr fim à antiga” (Sobre o Espírito Santo, Cap. 15, 35).
E São Cirilo de Jerusalém dirigindo-se aos recém-baptizados na noite de Páscoa, também no século IV, dizia: “Oh! facto estranho e paradoxal! Não morremos em verdade, não fomos sepultados em verdade, não fomos crucificados e ressuscitados em verdade. A imitação é uma imagem; a salvação, uma verdade. Cristo foi crucificado, sepultado e verdadeiramente ressuscitou. Todas estas coisas nos foram dadas como graça, a fim de que, participando, por imitação, nos seus sofrimentos, em verdade cheguemos à salvação. Oh! amor sem medida! Cristo recebeu em suas mãos imaculadas os pregos e padeceu; e a mim, sem sofrimento e sem pena, concede graciosamente a salvação por meio desta participação” (II Catequese mistagógica, 5).
Eis, queridos irmãos, o grande mistério que celebramos nesta noite santa de Páscoa. Unidos a Cristo, participando da sua morte por meio do baptismo, também nós havemos de viver como ressuscitados, irradiando a glória de Deus — quer dizer: o esplendor do amor divino. Acolhamos, de coração disponível a graça que nos é oferecida, e manifestemos na nossa vida a maravilha de vivermos como ressuscitados, unidos sempre ao Senhor, vencedor da morte e do pecado.
Sé do Funchal, 5 de Abril de 2026
D. Nuno Brás
