Caros Padres! No dia do sacerdócio, celebramos a Eucaristia, que Jesus instituiu, antes de morrer. Nela prometemos fidelidade ao Filho de Deus, Servo e Cordeiro Pascal, que nos une no Seu sacrifício. Pela Ressurreição, venceu a morte, abre-nos a porta do Céu e faz-nos herdeiros da Sua vida gloriosa. A fé em Cristo exige mudança de vida, a fuga e contrição do pecado, a renúncia à cobiça e sede do poder, pois nem tudo é permitido. Sem o amor fraterno, o amor a Deus é mentira, contra-testemunho e descrédito de tudo o que Jesus disse, fez e nos manda fazer.

1.- Sede fiéis ao ministério. Obedecei a Cristo Ressuscitado. Vivei na alegria de quem O ouve e Lhe obedece. É Ele que dá a graça e a paz. Ele é a Testemunha fiel, o Primeiro vencedor da morte, o Senhor da glória, o Cordeiro Imolado e Vencedor, que nos ama e purifica, com o Seu sangue e fez de nós sacerdotes, que lhe dão o gesto e a palavra. Jesus venceu a morte e vive glorioso. É nosso Intercessor, que garante a vida de Deus.

A Primeira Carta de João resume o que ouvimos e anunciamos, dizendo: Deus é luz. N’Ele não há trevas. Se dizemos que temos comunhão, com Ele, e andamos, nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, caminhamos na luz, como Ele está, na luz, então temos comunhão uns com os outros e o sangue do Seu Filho, Jesus Cristo, nos purifica do pecado (1 Jo.1, 5-8). Confessemos os pecados e que Deus, fiel e justo, nos perdoe. A fé em Deus pede a mudança de vida e a fiel obediência a Cristo e ao ministério. Ele é o Advogado e o Justo que expia os nossos pecados (1 Jo,2,1-2). Para andar na luz e verdade, amemos as exigências morais e doutrinais irrenunciáveis, sem as calar. Não há fé, sem obras e sem verdade, diz S. João: “Filhinhos, não amemos só, com a boca e com os lábios, mas amemos com obras e verdade”.

O Concílio Vaticano II falou do divórcio entre fé e vida. De facto, vivemos num mundo corrupto, hipócrita, farisaico, violento, que escraviza, vende órgãos e pessoas, comete crimes e maus tratos sexuais e outros, contra menores, mulheres, doentes e um rol de escravizados. Diz Jesus: se alguém escandalizar um destes pequeninos, que crêem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem, à volta do pescoço, uma mó de moinho, movida por jumentos e o lançassem no fundo do mar (Mt. 18,6). Não sejamos motivo de queda. Não escandalizemos, nem levemos outros à perdição. Apostemos no valor da vida e da dignidade humana. Há linhas vermelhas, tolerância zero e valores morais e doutrinais, irrenunciáveis, prévios, não negociáveis que têm a primazia e devem ser respeitadas, por todos, sempre, em toda a parte e sem excepção alguma.

2.- Como era hábito, Jesus entrou na Sinagoga de Nazaré, leu o texto de Isaías e disse: cumpriu-se hoje a palavra da Escritura que ouvistes. Jesus cumpre o que foi dito pelos Profetas, fez-se servo, deu a vida por nós, unindo o Antigo e o Novo Testamento, fiel à Aliança de Deus com os homens. A Escritura toda fala de Cristo. Contra Marcião, a Igreja lê, ouve e aprecia o Antigo Testamento, ciente da única e definitiva Aliança, que tem o vértice em Jesus Filho de Deus Encarnado. A Boa Nova de Cristo foi anunciada, em Sinagogas, onde Jesus ia ouvir e comentar a Palavra de Deus. Só após a recusa de Israel, é que o Evangelho de Cristo foi anunciado, nos Areópagos e casas de cristãos, na maior parte, vindos do paganismo helenista. O culto sinagogal de Israel, com leitura da Lei e Profetas e o seu comentário, como fez Jesus, em Nazaré, influenciou a Liturgia Cristã. A Palavra de Deus do Antigo Testamento é proclamada, esperando os hebreus o seu cumprimento. Nós, porém, cremo-la como já realizada em Jesus Filho e Palavra Eterna de Deus, feita carne. Após a destruição do Templo de Jerusalém, como Jesus profetizara, e o desaparecimento dos sacrifícios cruentos de animais, alheios ao culto cristão, o Cânone da Missa ou Oração Eucarística, ficou ancorado, no Sacrifício de Cristo, Servo, Vítima, Templo, Sacerdote e Altar, que, na Cruz, se ofereceu, uma vez por todas, vencendo o pecado e a morte, com a Sua Ressurreição. A Eucaristia é o Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor, que, na véspera da Sua Paixão, a instituiu, tomando o pão e o cálice, com vinho. Da Eucaristia se nutre e vive a Igreja, mistério de comunhão e obra do Filho de Deus morto e Ressuscitado.

3.- Ao emprestar a Cristo, na Eucaristia, a palavra e o gesto, não esquecer o que somos e fazemos, adorando, crendo, obedecendo, amando o mistério de Cristo, que damos aos fiéis, cientes de que a quem mais for dado mais será exigido. Não esqueçamos a advertência da Ordenação: “Toma consciência do que virás a fazer, imita o que virás a realizar e confirma a tua vida, com o mistério da cruz do Senhor”.

O sacerdote não se aguenta, sem adoração, ascese, meditação e escuta da Palavra. Não vive sem o amor de Deus, sem esperança na vida eterna e sem sequela e imitação de Cristo. Teimamos em harmonizar Deus e os nossos caprichos, caindo, na idolatria narcisista e no desprezo dos pobres e dos fracos, nos quais Deus quer ser reconhecido. A oração e escuta de Deus, na Sinagoga, das quais Jesus não prescindia, exortam-nos a cultivar o espírito e arte da oração, a leitura e meditação da palavra de Deus, o culto e a adoração da Eucaristia, sem esquecer a caridade pastoral, a caminhada sinodal, com Cristo, em Igreja, e a comunhão quotidiana, com o Bispo e com todo o Presbitério.

Com os votos de santa Páscoa, despeço-me, na caridade de Cristo, e peço a Deus que Vos proteja e abençoe a Vós e aos Fiéis que Vos estão confiadas. “A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo, com amor inalterável ” ( Ef. 6, 24 ).

Vila Real, 18 de abril de 2019.

D. Amândio José Tomás, bispo de Vila Real

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