Presbíteros, discípulos de Cristo, com a missão de ser luz do mundo e sal da terra

 

Reverendo Bispo Emérito, Senhor D. Manuel Pelino, Caros Presbíteros, Diáconos, Irmãs e Irmãos de vida consagrada, seminaristas, acólitos, irmãos e imãs em Cristo.

A caminhada quaresmal justifica-se como preparação da celebração da Páscoa. Assim, a Missa crismal situa-se na continuidade e conclusão das preparações, tendo em conta a renovação das promessas sacerdotais e a consagração e bênção dos Santos óleos.

         “Para esta Missa – ensina o cerimonial – se congregam e nela concelebram os presbíteros, uma vez que, na confeção do crisma, são testemunhas e cooperadores do seu Bispo, de cujo múnus sagrado participam, na edificação, santificação e condução do Povo de Deus.

         E deste modo se manifesta claramente a unidade do sacerdócio e do sacrifício de Cristo continuado na Igreja.

Entretanto, da parte da tarde, daremos início ao Tríduo Pascal, à celebração da Páscoa do Senhor. Aproveitemos agora para três breves pontos de reflexão acerca da vocação e missão dos Presbíteros

 

Presbíteros, discípulos de Cristo

Caros Padres, esta celebração tem para nós uma densidade especial; faz-nos retomar o mistério da nossa vocação sacerdotal desde o início. O Senhor Jesus chamou-nos, como chamou os seus discípulos, para estarem com Ele, para os fazer participantes da sua Páscoa e para os enviar a onde Ele havia de ir.

O grande segredo do discípulo, consiste em ser ungido e enviado com o mesmo Espírito Santo que estava com Jesus. Um presbítero, ensina o Papa Francisco, “Permanece sempre um discípulo, peregrino pelas estradas do Evangelho e da vida, debruçado sobre o limiar do mistério de Deus e sobre a terra sagrada das pessoas que lhe foram confiadas. Nunca se sentirá satisfeito nem poderá apagar a saudável inquietude que lhe faz estender as mãos ao Senhor para se deixar formar e preencher. Por conseguinte, atualizar-se sempre e permanecer aberto às surpresas de Deus! (in discurso aos participantes na Assembleia Plenária da Congregação para o Clero, em 01-06-2017).

Esta identidade de discípulo de Cristo, supõe vigilância sobre a gestão do tempo, os compromissos, os hábitos, a rotina, as dependências, de modo a assegurar a liberdade, a disponibilidade e o cuidado pela vida espiritual, para que, apesar da inquietude, não falte a alegria de ser discípulo de Cristo e o estímulo de zelo e qualidade na dedicação ao Povo de Deus.

 

Presbíteros, membros do Presbitério

Como ensina o Concílio Vat. II: “Os presbíteros, elevados ao presbiterado pela ordenação, estão unidos entre si numa íntima fraternidade sacramental. Especialmente na diocese a cujo serviço, sob o Bispo respetivo, estão consagrados, formam um só presbitério” (PO 8).

Um presbítero é discípulo de Cristo, mas não o é isoladamente. O Senhor chamou-nos um a um, para nos reunir em grupo de discípulos e nos fazer participantes do seu ministério, sacerdotal e pastoral, neste Presbitério da Diocese de Santarém. Este facto deve corresponder a uma verdadeira fraternidade sacerdotal; um valor que não é menor e tem grande efeito na edificação da Igreja e na alegria do Povo de Deus.

O presbítero não está ao serviço do bispo, o presbítero está com o bispo e com os outros presbíteros ao serviço do Povo de Deus. Por isso, entre bispo e presbíteros, devemos assumir uma corresponsabilidade na missão, conscientes de que nem o bispo nem nenhum presbítero se entende a não ser em união e comunhão no mesmo Presbitério.

Existe entre nós, bispo e presbíteros, um desígnio que só à luz da fé se acolhe. Entre nós, o sentido da obediência, compreende-se quando em causa está a vontade de Deus. Quando rezamos a oração do Pai Nosso e, obedientemente, dizemos “seja feita a vossa vontade”, devemos incluir aí as nossas vidas e a missão que nos foi confiada. Seja o nosso critério de vida o mesmo de Jesus: fazer a vontade do Pai.

Celebremos a Páscoa do Senhor na consciência da fragilidade que nos acompanha, e na disposição do perdão mútuo entre nós, para curar o individualismo e a indiferença em que muito facilmente caímos. Mas não fiquemos apenas com a Missa crismal como referência importante da nossa comunhão no ministério e missão, também as reuniões e celebrações diocesanas e vicariais, o retiro anual, as recoleções e as propostas de formação, são oportunidades para crescermos juntos e nos ajudarmos mutuamente na avaliação do caminho percorrido e discernimento do caminho a seguir.

 

Presbíteros, membros de Cristo Bom Pastor

Jesus assume que o Espírito Santo está com Ele, conforme a passagem da Escritura do Profeta Isaías (cf. Lc 4, 16-21), e não podia ser mais claro para definir as opções do seu programa pastoral: os pobres, os cativos, os cegos, os oprimidos e o anúncio do tempo novo da graça do Senhor. Jesus diz também “Eu sou o Bom Pastor: o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11)

Na origem do nosso chamamento está uma graça e um desafio: o Senhor chamou-nos e fez-nos participantes do mesmo Espírito Santo, para nos enviar, não a pessoas ou comunidades perfeitas, mas àqueles que acreditam e se dispõem a caminhar para a perfeição. Enviados aos mais pobres e também àqueles que estão mais afastados, mas desejam a bênção de Deus nas suas vidas e, porventura, aos não crentes a quem Deus não desistiu de amar.

Como membros de Cristo Bom Pastor, fomos chamados e enviados para servir e ajudar os cristãos a corresponderem, também eles, à sua vocação e missão na Igreja, na Família e no mundo. A beleza da vocação sacerdotal, expressa-se na doação da vida; doação a Deus e doação ao seu Povo, em amor e serviço.

Todos os cristãos, e os presbíteros em particular, têm consigo a “missão de ser luz do mundo e sal da terra”. Fomos ordenados para ser na Igreja e no mundo a presença real de Cristo Vivo, transmitindo o sabor da graça de Deus, a todas as situações e ambientes, e ‘testemunhar’ a Luz que é Cristo e, assim, dar sentido e horizonte à vida humana e ao mundo. Como também escreveu o Papa Francisco: “Somos depositários de um bem que humaniza, que ajuda a levar uma vida nova. Não há nada de melhor para transmitir aos outros” (EG 264).

Caros Padres, reconheço que a dedicação pastoral tem os seus cansaços. Reconheço a necessidade do repouso, mas estou certo que a principal recompensa do pastor reside na alegria do trabalho realizado e da dedicação ao seu povo. Essa alegria é fruto do Espírito com que se reza e trabalha.

Cada Padre saberá identificar onde reside o estímulo da sua dedicação de Pastor e, como todos os cristãos, fará avaliação e discernimento. Hoje, porém, juntos e acompanhados por muitos fiéis, é um dia para nos recriarmos com Cristo. Somos todos convidados a retomar o estímulo, o zelo e a alegria da primeira hora, a hora da Ordenação sacerdotal. É a Páscoa já a acontecer, pois Cristo tem o poder de transformar os nossos cansaços em nova disposição de amar e servir.

Com um SIM, sincero e verdadeiro, façamos da renovação das promessas sacerdotais uma grande afirmação de fé, de esperança e liberdade interior. Acompanha-nos neste SIM a Virgem Santa Maria, Mãe dos sacerdotes.

Santarém, 18 de abril de 2019

D. José Traquina, Bispo de Santarém

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