Sexta Feira Santa – Sé de Santarém, 10-04-2020 

Homilia na Celebração da Paixão do Senhor (sem assembleia de fiéis)

Irmãos

 

Esta liturgia de Sexta feira Santa tem a cor do martírio e a dimensão do silêncio, revela-nos a Paciência de Cristo e a sua fidelidade ao projeto de Reino em que o Messias é pobre, mas com a capacidade de implementar no mundo, o Amor abrangente e misericordioso de Deus que renova a humanidade. É nesse reconhecimento que rezaremos, hoje de forma especial, por todos os povos e nações e por todas as situações preocupantes em que o mundo se encontra. 

A Paixão de Cristo, com tudo o que tem de drama, fidelidade e luta interior, amor e sofrimento, encontra-se espelhada no mundo perplexo, de dor, dúvidas e preocupações. Porquê assim? Como compreender? Onde está a causa de tudo isto? Estas interrogações que podemos colocar, acerca da origem da pandemia, podem ser as mesmas sobre a Paixão e Morte de Jesus.

  No que se refere à pandemia não temos resposta. O que não temos dúvida é que o mundo está a viver, já há semanas, numa grande Sexta feira Santa. 

  Sobre a paixão e morte de Jesus atribuímos, facilmente, as culpas aos judeus ou aos representantes do Império Romano. Mais tarde, refletindo melhor, acabamos por confessar no Credo que o Senhor morreu pelos nossos pecados: “também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado”. Portanto, morreu por todos, também nós lá estávamos representados naqueles que pediam a morte de Jesus. Em verdade, apesar de algum esforço de fidelidade da nossa parte, por fragilidade e falta de vigilância, facilmente atraiçoamos o Senhor com opções na vida que são rejeição do critério da cruz. 

  Por Cristo, na cruz, Deus revela-se pobre e acolhedor dos pobres e pecadores. Na cruz não se revela um Deus que pode tudo, revela-se um Deus que, embora pareça ausente, é o Pai de bondade a quem Jesus tudo confia. Na cruz, é selada a nova e eterna Aliança; Cristo consagra a fidelidade do Amor de Deus pela humanidade. “Deus de tal modo amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). 

  É difícil entender a lógica de Deus, é uma loucura. Diante da cruz, com a imagem de Cristo crucificado, somos convidados a fazer um ato de Fé: Jesus deu a vida, morreu por amor para que seja vencido o poder do mal e da morte; não mostrou resistência, não fugiu, assumiu que tinha chegado a sua ‘Hora’, a ‘Hora’ em que a sua morte tinha significado. Tinha a força da Páscoa libertadora. Com Cristo, a cruz passou a ser símbolo da vitória do Amor.

  Foi no Calvário, em sofrimento por amor, que Jesus nos deu a sua Mãe. “Eis a tua Mãe”. A Virgem Maria, é-nos dada como Mãe dos novos Filhos de Deus. Mas é também exemplo e o estímulo para que a Igreja se apresente com amor de mãe junto de todos os sofrem. Que a Virgem Mãe, a Senhora da Dores,  interceda e acompanhe todos os seus filhos, e são muitos os que vivem em especial sofrimento e tribulação. 

 

+ José Traquina

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