«Não nos esqueçamos de ajudar, irmãos caríssimos, aqueles que sabemos estarem a passar dificuldades causadas por esta pandemia» – D. João Marcos

1 – Na verdade, ainda não tinham compreendido as Escrituras, segundo as quais Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Queridos irmãos e irmãs:

Com estas palavras terminava, agora mesmo, a proclamação do Evangelho de hoje. Quem não sente esta dificuldade dos primeiros apóstolos em compreender as Escrituras que anunciam a Ressurreição do Messias de entre os mortos? A compreensão das Escrituras é comparável a uma mina com imensos filões de tesouros inesgotáveis. Quanto mais escavamos, tanto maiores se nos afiguram! Mas se a sabedoria das Escrituras é um tesouro imenso acessível a poucos, mais importante é a fé em Jesus Cristo ressuscitado oferecida a milhões de pessoas, que nos leva a um relacionamento de amor por Ele, com Ele e n’Ele a Deus Pai e ao Espírito Santo, e também ao próximo. Este amor é próprio de quem, unido a Ele, com Ele passou da morte para a Vida.

Porque a fé nasce de escutar os testemunhos que os Apóstolos nos deixaram, também nós, que escutámos a pregação da Igreja, acreditamos em Jesus Ressuscitado, sem qualquer mérito da nossa parte. Demos graças a Deus Pai por nos conceder esta graça imensa de acreditarmos em Jesus Cristo Seu Filho, nosso Salvador e Redentor, que por nosso amor morreu e ressuscitou.

 

2 – A Ressurreição do Senhor, a Sua Vitória sobre a morte, consiste antes de mais no Seu regresso à comunhão com o Pai da qual, digamos assim, a morte O tinha separado. Mas é também regresso para os discípulos que, perturbados pela Sua Paixão e Morte na Cruz e escandalizados com os seus comportamentos errados, precisavam de O reconhecer como Vencedor do pecado e da morte.

A manifestação de Cristo Ressuscitado começa, como escutámos no Evangelho, com a experiência do túmulo vazio feita por Maria Madalena, que se apressa a comunicá-la aos apóstolos Pedro e João. Estes correm ao túmulo e verificam que está vazio. João viu e acreditou.

Que viu João? Certamente, o mesmo que Pedro. A ausência do Corpo de Jesus, as ligaduras e o Sudário. Esta experiência negativa bastou-lhe para acreditar. Como é diferente de pessoa para pessoa, a experiência da Fé! Para outros, para Tomé, é preciso tocar o corpo do Senhor e meter os dedos nas suas chagas para poder acreditar.

Posteriormente Jesus manifestou-Se vivo a Maria Madalena. Aparecerá seguidamente no meio dos Apóstolos, saudando-os e dando-lhes o perdão, e depois de lhes ter comunicado o Espírito Santo, envia-os por toda a terra a anunciar o Evangelho.

 

3 – Na primeira leitura escutávamos a pregação de São Pedro em casa do Centurião Cornélio, o primeiro pagão que receberia o batismo, juntamente com a sua família, depois de ter escutado o anúncio de Jesus Cristo e de ter sido ungido pela efusão do Espírito Santo.

Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-no, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-Se, não a todo o povo, mas a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos.

Estas palavras não são uma teoria, são a experiência de Pedro, testemunha de Cristo Ressuscitado. São também a experiência de muitos homens e mulheres que em toda a terra vivem e sofrem, por amor de Cristo, a mesma rejeição e condenação, por parte daqueles a quem se dedicaram e fizeram o bem.

Pedro continuou dizendo que todos os profetas dão dele o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo Seu Nome, a remissão dos pecados. Para nos dar esse tesouro da remissão dos pecados o Filho de Deus veio ao mundo, anunciou o Evangelho, foi crucificado, morto e sepultado. E, ressuscitado dos mortos, enviou ao mundo os Seus Apóstolos para lhe revelarem a Boa Notícia dessa Nova Aliança pela qual Deus nos perdoa todos os pecados.

Essa Boa Notícia, caros irmãos e irmãs, é para vós neste domingo de Páscoa. Escuta irmão ou irmã: todos os teus pecados estão perdoados. Não precisas de os esconder e guardar e de carregar com eles no fundo do teu coração. Por pensamentos, palavras e obras e também por omissão, quantas vezes pecas ao dia! Acredita irmão: todos os teus pecados estão perdoados. Na Sua Cruz, o Senhor carregou com eles e destruiu-os. Basta que tu desapegues deles o teu coração e os confesses, arrependido, a um presbítero da Igreja. E, por isso, consideremo-nos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Jesus Cristo Nosso Senhor.

 

4 – Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do Céu e não às da terra (…). Porque vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.

Estas palavras escutámo-las na pequenina e gigante segunda leitura da Carta de S. Paulo aos Colossenses. A vida de ressuscitado é a vida de alguém que morreu para o pecado, e vive escondido com Cristo em Deus. Esta vida escondida, tão adversa à vida espetacular que hoje tantos procuram no mundo é a vida dos santos, por exemplo, a vida de Santa Teresa do Menino Jesus. Ela viveu, escondida num convento de carmelitas, os breves anos da sua vida, completamente desconhecida do mundo. Mas depois da sua morte, o Senhor fê-la resplandecer pelos seus escritos e milagres e hoje é doutora da Igreja, amada e invocada por milhões de pessoas em todo o mundo. E que diremos de S. José, nosso padroeiro? Amado por todo o mundo católico, patrono da Santa Igreja, ninguém como Ele soube viver assim escondido, servindo Jesus e Maria, em Nazaré.

 

5 – É dia de Páscoa. Hoje, com esta Eucaristia, recomeça a nossa vida cristã. Amemos Jesus Nosso Senhor, homem verdadeiro mas, sobretudo, Deus verdadeiro com o Pai e com o Espírito Santo. Amemos a Virgem Maria, São José e os santos da nossa devoção. Vivamos de pés bem assentes na terra mas de coração levantado para o Céu. Cultivemos a vida cristã nas nossas famílias, rezando juntos, pedindo o Espírito Santo para todos, mas sobretudo para aqueles que estão em crise. Amemos a humildade, a castidade e a obediência, a vida escondida e a simplicidade de coração que nos fazem ver o amor de Deus e nos colocam, cheios de amor, ao serviço dos irmãos. E não nos esqueçamos de ajudar, irmãos caríssimos, aqueles que sabemos estarem a passar dificuldades causadas por esta pandemia.

Sé de Beja, 4 de abril 2021

D. João Marcos

Bispo de Beja

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