Foto: Diocese de Beja

Reverendos padres e diáconos, caros seminaristas, queridos religiosos e religiosas, e todos vós fiéis leigos:

1 – Começámos esta Solene Vigília Pascal com o Rito da Luz. A luz é a primeira criatura de Deus, como escutávamos atentos na primeira leitura. Disse Deus: faça-se a luz! E a luz apareceu. Parafraseando esta palavra, São Paulo acrescenta: o mesmo Deus que disse “nas trevas brilhe a luz” é que reluziu em nossos corações para fazer brilhar o conhecimento da Sua glória que está no rosto de Cristo. A luz da Fé que brilha em nossos corações é a luz da Nova Criação à qual temos acesso pelo Mistério Pascal de Cristo Jesus Nosso Senhor, o novo Adão.

Esta Vigília é para nós a recapitulação da Revelação de Deus na História da Salvação. Escutámos, depois do admirável texto da Criação, o Sacrifício de Isaac, a Passagem do Mar Vermelho, as maravilhosas palavras das duas leituras de Isaías e do livro de Baruc, e concluímos as leituras do Antigo Testamento com a profecia de Ezequiel na qual o Senhor nos promete o regresso do cativeiro e uma purificação das nossas idolatrias derramando sobre nós água pura.

Cantámos, de seguida, o Glória a Deus nas alturas e escutámos, da Carta aos Romanos, o texto no qual São Paulo nos ajuda a entender o que significa, à luz do Mistério da Páscoa de Jesus, o Batismo que recebemos, e pelo qual nos tornámos filhos adotivos de Deus. As últimas palavras desse texto devemos trazê-las gravadas em nossa mente e em nosso coração: Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, e vivos para Deus, em Cristo Jesus. Sermos cristãos resume-se nisto: estarmos mortos para o pecado e vivos para Deus!

Depois de cantarmos o Aleluia, foi proclamado o Evangelho da Ressurreição do Senhor no qual recebemos a boa notícia para a qual apontava todo o Antigo Testamento e que toda a Humanidade esperava ouvir: Cristo Ressuscitou. Triunfou sobre a Morte!

 

2 – Queridos irmãos e irmãs: o percurso da História da Salvação que estas leituras nos fizeram reviver é também o percurso da vida espiritual de cada um de nós. A fé de Abraão que se dispôs a sacrificar o Seu filho Isaac, de quem o Senhor lhe tinha prometido uma descendência numerosa, é também a nossa fé. Como eles nós acreditamos que Deus tem poder de dar vida aos mortos. A libertação do Egito e a Passagem do Mar Vermelho são para nós sinal do Batismo que nos libertou da escravidão das idolatrias e nos faz caminhar no deserto para a Terra Prometida, como povo amado de Deus, purificado e sustentado por Ele. Estamos a caminho, não apenas individualmente, mas em comunidade, em Igreja. No deserto da nossa vida não podemos subsistir isolando-nos. Deus constituiu-nos como Seu povo, e fez connosco uma Aliança nova e irrevogável, garantida pela oferta de Jesus na Cruz. É graças a Ele e não a nós, que a nossa história é história de salvação. E como ninguém se salva sozinho, queridos irmãos e irmãs, cultivemos a comunhão entre todos nós que o Senhor reuniu na sua Igreja, nesta Sua Igreja de Beja.

 

3 – Cristo Nosso Senhor venceu a Morte! Ressuscitou! Deus não O abandonou nas trevas do abismo, mas ressuscitou-O da morte e recebeu-O na Sua glória, juntamente com aqueles que n’Ele creem.

Caríssimo irmão: a tua morte, esse buraco negro que te assustava levando-te a viver para ti mesmo, foi vencida! Está iluminada pela glória do Senhor. Já não é o sorvedouro insaciável onde tudo desaparece. É o óbito, quer dizer, o encontro com Cristo, Juiz misericordioso que calca aos pés as portas do abismo e te estende os braços para te assumir e te fazer participante da Sua glória.

A Sua Ressurreição é o grande motivo de esperança para todos nós. Alegremo-nos, irmãos e irmãs, louvemos o Senhor com a mesma alegria dos israelitas após a passagem do Mar Vermelho, com a gratidão dos hebreus que regressavam do cativeiro à terra de Israel. E tendo recebido e guardado no coração esta boa notícia, comuniquemo-la aos outros que vivem ainda nas trevas e na sombra da morte. Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que partam para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse!

A Galileia onde Jesus Ressuscitado pode ser visto, é a evangelização. Por ela se forma o Corpo de Cristo que é a Sua Igreja. Por ela vemos, na fé, o Espírito de Cristo Ressuscitado a transformar vidas mortas pelo pecado em vidas de Filhos de Deus que caminham na esperança e praticam a caridade. Por ela, tantos irmãos e irmãs nossos deixam de fazer o mal e começam a fazer o bem. A evangelização faz soprar neste mundo corrompido o vento salutar do Espírito Santo, que rejuvenesce a Igreja e renova a face da terra.

 

4 – Chegamos agora ao centro da liturgia desta Vigília. A Ladainha dos Santos manifesta a união desta nossa assembleia à assembleia celeste que louva eternamente o Senhor. E a bênção da água, símbolo da morte e da vida, prepara-nos para fazermos a renovação das promessas do nosso Batismo. Para que as nossas palavras não sejam vãs mas tenham a cobertura das obras, a Igreja preparou-nos durante a Quaresma, convidando-nos insistentemente à conversão e a fazer oração, jejum e esmola. Respondamos convictamente sim, renuncio e sim, creio, com as nossas velas acesas e bem levantadas, conscientes de que os anjos registam as nossas respostas. Com a liturgia eucarística, a primeira depois do jejum de Sexta-feira Santa e de Sábado Santo, o memorial da Páscoa do Senhor e prefiguração do banquete celeste, concluiremos, da melhor forma, esta Vigília.

 

5 – Vivamos como ressuscitados, caríssimos irmãos! Os cinquenta dias do tempo pascal, imagem da Vida do Céu, vivamo-los como mortos para o pecado e vivos para Deus, unidos pelo Espírito Santo a Cristo Jesus nosso Senhor. A vida no Espírito consiste em nos oferecermos com Jesus Cristo ao Pai, como vítimas vivas, santas e agradáveis, consiste em fazermos em tudo a vontade do Pai, em adorarmos a Santíssima Trindade e em servirmos com amor os nossos irmãos.

Isto é possível a quem passou com Cristo da escravidão para a liberdade, a quem renunciou ao pecado e recebeu o Espírito Santo, a quem ama e segue a Cristo, Senhor e Mestre. Isto é possível a quem é filho de Deus e vive na Igreja. É possível a quem, como nós hoje, está celebrando a Páscoa da Nova Aliança e traz em seu coração o esplendor da glória de Deus, que resplandece no rosto de Cristo ressuscitado.

Sé de Beja, 3 de abril de 2021

D. João Marcos

Bispo de Beja

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