Iniciamos o Tríduo Pascal.

Nele celebramos o Mistério da Páscoa de Cristo, que veio pra realizar a redenção dos homens e a perfeita glorificação de Deus. É ponto fulcral da nossa Fé que Jesus, morrendo destruiu a morte e ressuscitando restaurou a vida.

O Tríduo Pascal é como um único dia continuado, para acompanharmos Jesus no seu caminho de Paixão, Morte e Ressurreição.

Hoje celebramos a memória da Última Ceia; amanhã, a memória da Paixão e Morte de Jesus; na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa, a surpresa feliz da sua Ressurreição.

Pelo meio fica o silêncio em que queremos envolver este dia continuado, com a prática do jejum amanhã, quanto possível também no Sábado Santo e permanecendo diante do Sepulcro de Jesus, em vigília, na expetativa da Sua Ressurreição.

 

A I Carta aos Coríntios transmite-nos hoje a memória da primitiva comunidade cristã sobre a celebração da Eucaristia e também sobre a instituição do Ministério Sacerdotal. Na Última Ceia, Jesus oferece a Deus Pai o Seu Corpo e o Seu Sangue sob as espécies do pão e do vinho para redenção do mundo e dá-os aos apóstolos a comer e a beber. E assim instituiu o Sacramento da Eucaristia. Depois, aos mesmos apóstolos recomendou que repetissem isto em Sua memória. Foi o que eles e os seus sucessores passaram a fazer, sem interrupção, até aos dias de hoje. E ficou assim instituído o Sacramento do Ministério Sacerdotal.

Diferentemente dos outros três evangelistas, S. João não inclui no seu Evangelho as palavras e os gestos de Jesus sobre o pão e sobre o vinho. Prefere descrever o gesto do Lava-pés, sublinhando, assim, a natureza e a importância do mandamento novo na vida dos discípulos de Cristo e suas comunidades. Este é o grande testamento do amor entendido como serviço dos últimos, serviço dos pobres. Por isso é que o ofertório do dia de hoje se destina habitualmente aos pobres.

 

Jesus Cristo oferece-se na Eucaristia para restaurar a dignidade de cada ser humano e também para refazer o tecido da vida comunitária.

Ora, todos nós verificamos que no mundo de hoje assistimos a duas grandes tentações – o individualismo, raiz da competitividade desenfreada e o pretender reduzir a vida comunitária a relações de força na luta por interesses.

Porém, nós sabemos que a vida das pessoas, de todas e de cada uma, na totalidade das suas dimensões, é o que há de mais importante em qualquer sociedade. E cada pessoa só se constrói em relação com outras pessoas, em tecido de vida comunitária que é preciso saber cuidar.

De facto, as nossas comunidades cristãs regularmente reunidas à volta da Mesa Eucarística e guiadas por aqueles que receberam o dom do Ministério Sacerdotal têm de ser comunidades onde é reconhecido o valor de cada pessoa e se criam condições para que esse valor e respetivos carismas possam ser devidamente desenvolvidos e exercidos. Temos aqui longo caminho a percorrer. Também na sociedade em geral idêntico caminho precisa de ser percorrido, para que as pessoas sejam respeitadas e valorizadas nas suas competências, que nunca se podem reduzir à capacidade de produzir; sejam assistidas nas suas necessidades e motivadas para a participação na vida comunitária, incluindo nas suas decisões.

 

Assim caminharemos para uma sociedade com saúde.

E procurar essa saúde é tanto mais necessário quanto a pandemia nos fez regredir em aspetos fundamentais da relação comunitária e mostrou deficiências que, todavia, já estavam connosco há muito tempo. Assim, fez-nos regredir, por exemplo no acompanhamento dos doentes nos hospitais e dos idosos nos lares, mas também em suas próprias casas, pelo facto de as deslocações passarem a ser mais dificultadas. Por outro lado, fez-nos compreender que o individualismo não é caminho, porque ninguém se salva sozinho e pretender organizar a vida comunitária com base na competitividade desenfreada dá mau resultado, como se está a verificar, por exemplo, em muita globalização sem ética. Temos, por isso, que procurar novos caminhos de relação entre nós seres humanos e de respeito pelos bens que são mesa posta para todos e não apenas para alguns. O próprio respeito pela natureza obriga-nos a procurar novas formas de utilizar os bens, para garantir a sustentabilidade da nossa casa comum no presente, mas também na herança que devemos às gerações futuras.

Jesus, tendo amado os seus, amou-os até ao fim. E a Eucaristia é deste Seu gesto o memorial por excelência, que nos interpela para fazermos dele o nosso verdadeiro programa de vida.

D. Manuel R. Felício

Bispo da Guarda

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