Caríssimos irmãos e irmãs!

As numerosas leituras bíblicas, agora proclamadas, evocam uma série de passagens que marcam a história da salvação: a criação do mundo como o passar do nada ao ser, do caos ao cosmos e à vida (Gen 1); o povo de Israel liberto pelo Mar Vermelho, da escravidão para a liberdade (Ex 14); a Humanidade pecadora regenerada em virtude da Palavra de Deus como a terra fecundada pela chuva (Is 55); os errantes reunidos pela sabedoria (Bar 3); o dom de um coração novo no lugar de um coração de pedra (Ez 36); a ressurreição de Cristo da morte à vida e a regeneração dos baptizados nele incorporados (Rm 6); o primeiro anúncio pascal por parte daquele jovem de branco: “Não está aqui! Ressuscitou”.

Digamo-lo hoje e sempre, e com toda a alma, porque “corremos o risco de tomar Jesus Cristo, apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como Alguém que nos salvou há dois mil anos. E isto de nada nos aproveitaria: deixar-nos-ia como antes, não nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua graça, Aquele que nos liberta, Aquele que nos transforma, Aquele que nos cura e consola é Alguém que vive. É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita. Por isso dizia São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou é vã a vossa fé» (1 Cor 15,17)” (CV 124). Ora, a notícia da Páscoa do Senhor é outra: Ele não é um morto desaparecido. Ele está vivo e vive para sempre! Por isso, “alegra-te com o teu Amigo que triunfou” (CV 126). “Cristo vive e quer-te vivo” (CV1).

Estas palavras do Santo Padre “Cristo vive e quer-te vivo” devem acompanhar-nos no caminho desta Páscoa especial. Parecem não ter sentido e contrárias a tudo o que celebramos. Mas, a ressurreição de Cristo é uma exigência para que, como Ele, vivamos. Não se trata, somente, de ir passando os dias mais ou menos atentos aos desafios que nos são colocados. Importa viver a vida. Nem sempre é fácil manter Cristo vivo. A liturgia da Vigília Pascal, no rito bracarense, está marcada por uma pequena cerimónia. Depois da renovação das promessas baptismais, o círio pascal é apagado e o Presidente canta o accendite, acendei. Fá-lo por três vezes. É muito evidente o significado deste gesto. Devemos manter viva a chama da fé. Nem sempre é possível. Fundamental é recomeçar e voltar a viver, fazendo da vida “luz no meio do mundo”.

Viver implica ter um sentido, um rumo, motivações e razões, ou seja, ter um ideal capaz de nortear as opções como cristãos e como cidadãos. Para que vivamos a vida, tornando-a luz teremos, entre outras coisas, de viver com uma grande paixão pela Igreja. Sabemos que ela é Corpo Místico de Cristo e, como consequência, teremos de levar o espírito da ressurreição para dentro da Igreja e mostrar que também ela vai eliminando o que é caduco e efémero para testemunhar valores de eternidade.

A Igreja deve ser uma imagem eloquente de Cristo e quão longe nos encontramos desta verdade. Não é por acaso que muitos dizem que aceitam Cristo mas não a Igreja.

Há aqui um caminho longo a percorrer com diferentes atitudes que não podem ser negligenciadas. Em primeiro lugar, quero partilhar a grande preocupação do Papa desde o dia em que foi eleito. Ele quer uma Igreja em saída e isto tem dois movimentos. Sair para estar fora, no mundo, e sair para não se fechar nas suas actividades intimistas e reservadas a poucos.

O Espírito pede que sejamos capazes de percorrer os caminhos da Humanidade, com todos os seus problemas e desafios, nunca numa atitude de superioridade ou de sermos donos da verdade, mas sempre na lógica do fermento ou da semente que se perdeu para gerar vida. Os problemas da Humanidade são nossos e não podemos viver tranquilos enquanto eles persistem. Falamos da dignidade de todas as pessoas mas o mundo continua muito desigual. São inúmeras as situações que permitem que os bens se concentrem nas mãos de poucos. Persiste a corrupção e os jogos mais ou menos escuros que validam acumulações económicas indevidas. Basta ver tantos sinais, humanamente inexplicáveis, de riqueza ao lado de multidões com o salário mínimo ou situações de trabalho precário. Há um modelo económico que mata e gera situações incríveis de ausência do essencial.

A Igreja do futuro não deve ter medo de estar presente em todos os areópagos onde se constrói a vida. São caminhos novos, nunca percorridos. Houve um tempo dos descobrimentos que permitiu que a Igreja encarasse o desconhecido com uma arte nova de evangelização. Hoje teremos de ultrapassar os espaços dos templos e dos adros para mergulhar no desconhecido. Em todos os cenários da vida moderna, a Igreja dever marcar presença, sem medo nem complexos. Quando o Papa referia que Cristo quer-nos vivos, não abordava somente a realidade física. É este espírito e dinamismo que hoje importa activar. Ressuscitar é a responsabilidade de colocar Cristo onde Ele não se encontra.

O futuro da Igreja passará por aqui. Só que esta aventura não vai poder se realizada isoladamente. Importa ir criando células de ambiente, constituídas por duas ou mais pessoas, para que experimentem a presença do Ressuscitado e ganhem alento para provocar a ressurreição nesses plurifacetados ambientes da vida moderna, com tantos contextos onde Cristo não só não ressuscitou mas onde nunca esteve presente. Esta responsabilidade pode ser a grande novidade que a Páscoa, em tempo de pandemia, nos traz. Temos de estar fechados em isolamento social mas não podemos permitir que Cristo continue dentro do sepulcro das realidades eclesiais. Ele, qual fermento invisível, tem de ir cristianizando as realidades humanas. Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro com a intenção de lá se deterem e de expressarem, com lágrimas e sentimentos, a amizade profunda que tinham com Cristo. O Ressuscitado desinstalou-as e colocou-as a correr apressadamente para comunicarem a experiência. Com elas, também a Igreja do futuro, vivida e interpretada por nós hoje, tem de partir e caminhar por caminhos novos e desconhecidos. A Páscoa está aqui. Cristo ressuscitou e quer-nos vivos na vida pessoal e na consciência de pertença à Igreja.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

(Homilia no Paço Arquiepiscopal)

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