
da Diocese de Bragança-Miranda, Missa da Ceia do Senhor
Irmãos e irmãs!
1.Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Ap 1,5), Jesus Cristo.
E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (Jo 18,1-19,42).
2.Em Sexta-feira Santa, contemplamos o mistério do Crucificado e fazemos, com fé e gratidão, memória de Cristo. No silêncio desta tarde, olhando Jesus morto na cruz, contemplamos uma vida entregue; vemos o amor levado ao extremo e afirmado num último suspiro, valente e fiel: “Tudo está consumado”, ou seja: “Pai, está cumprida a missão que me deste!”.
Junto da Cruz do Senhor estava um pequeno grupo de amigos. Depois da Sua morte, apareceram mais dois ou três …!
Num dos seus sermões, S. Gregório de Nanzianzo menciona alguns nomes e pede que nos comparemos a eles. Ouçamo-lo: “Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue o Senhor. Se és crucificado com Ele como um ladrão, faz como o bom ladrão e reconhece a Deus; se por tua causa Ele foi tratado como um malfeitor, torna-te justo por seu amor. Se és José de Arimateia, pede o corpo de Cristo a quem O crucificou, e assim será tua a vítima que expiou pecado do mundo. Se és Nicodemos, o adorador noturno de Deus, unge-O com aromas para a sepultura. Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, chora por Ele, levanta-te de manhã cedo, e procura ser o primeiro a ver a pedra removida e a encontrar talvez os Anjos ou, melhor ainda, o próprio Jesus.”

da Diocese de Bragança-Miranda, Missa da Ceia do Senhor
3.A Pietá da nossa Catedral, lembra-nos que não se pode subir ao Calvário sem ver Jesus descido para os braços de Sua Mãe. “Stabat mater”. A mãe estava de pé. Depois, sentou-se para acolher o peso do Filho morto. Olhemo-la dorida, mas corajosa. E deixemo-nos que nos envolva com o seu materno olhar, imaginando o que nos pode hoje dizer: “Meus filhos, aqui, junto da cruz, só se pode estar por amor. Antes de morrer, Jesus entregou-me a João e entregou-me João e no Calvário, tornei-me a mãe de todas as dores. Recordo somente algumas:
As dores, meus filhos, das renúncias à vontade de Deus. Chamais-me Senhora do Sim, mas qualquer pretexto vos serve para evitar o compromisso…
As dores, meus filhos, do vosso cristianismo vivido em circuito fechado, para consumo próprio ou do vosso grupo mais aconchegante; sem paixão missionária …
As dores, meus filhos, do vosso apego a privilégios que dispensam de zelar e lutar pelo bem comum…
As dores, meus filhos, de todos os que são obrigados a deixar a sua terra, porque os bens repartidos sem fraternidade não suportam os sonhos dos simples …
As dores, meus filhos, dos que desistiram de amar e entregam a amas eletrónicas ou mesadas mais generosas as dúvidas e a sede de amor daqueles que Deus lhes confiou…
As dores, meus filhos, das vossas vidas distraídas, indiferentes para com os problemas dos que vivem perto de vós…
As dores, meus filhos, de todas as negações, abandonos e traições, ou do desespero que descrê da misericórdia …
As dores, meus filhos, da cobardia e do medo que remetem a verdade para salas fechadas, que o Espírito terá de arrombar, para retirar o bem, o verdadeiro e o belo da clandestinidade!”
Neste Dia de Sexta-Feira Santa, adoremos com fé e gratidão a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida:
Iremos, Senhor,
em procissão de amor,
venerar a tua Cruz.
E quando olharmos para Ti,
para o teu rosto ferido e desfigurado,
para as tuas muitas chagas a sangrar,
dá-nos a graça de aí ver bem o nosso pecado.
E quando Tu, Senhor, olhares para nós,
com esse meigo olhar de serena compaixão,
dá-nos a graça de ver o teu perdão nunca poupado,
e de sairmos com o coração transfigurado.
D. Nuno Almeida – Bispo de Bragança-Miranda
